Ministro da Defesa garante que nunca discutiu furto a Tancos com Costa

João Gomes Cravinho diz ainda que Rovisco Duarte interpretou bem o momento ao demitir-se.

O ministro da Defesa Nacional garantiu, esta quinta-feira, que nunca discutiu com o chefe do Governo sobre o que se passou em Tancos e o furto do material militar, em junho de 2017, e o "achamento", quatro meses depois.

Esta garantia dada por João Gomes Cravinho na comissão parlamentar de inquérito a Tancos, hoje ao fim da tarde, levantou dúvidas aos deputados da oposição, como Rui Silva, do PSD.

"Não compreendo, nem nenhum português compreenderá, que o senhor ministro e o primeiro-ministro não tenham conversado sobre Tancos, que não tenha havido nenhuma orientação", afirmou.

Por duas vezes, Gomes Cravinho explicou que não falou sobre o roubo, nem na "reunião de transição" com o seu antecessor, José Azeredo Lopes, nem com o primeiro-ministro, António Costa, em resposta a Pedro Filipe Soares, do BE, e depois a Rui Silva.

O ministro registou "a surpresa" do deputado, mas disse que "não há razão para tanto" e explicou que os acontecimentos do furto eram públicos e que Azeredo Lopes se demitira por isso.

A "preocupação fundamental" de todos, do ex-ministro e de António Costa, era com os "dossiers" pendentes no Ministério da Defesa, como a Lei de Programação Militar (LPM) ou o Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA), e ultrapassar o "impacto desmoralizador" para o Exército do furto, relatou.

"A preocupação do primeiro-ministro não teve a ver com o episódio em si, mas sim com a necessidade de ultrapassar o impacto desmoralizador nas Forças Armadas" que o roubo representara.

Nas duas vezes que se explicou a razão por não ter discutido em detalhe o furto, João Gomes Cravinho disse que "Tancos não era matéria que suscitasse intervenção do Ministério" e o caso "estava entregue à PJ".

Ainda em resposta a Pedro Filipe Soares, que o questionou sobre se o primeiro-ministro ou o Presidente da República lhe deram alguma indicação ou indício de terem algum conhecimento na operação de "encobrimento/achamento" do material furtado, João Gomes Cravinho respondeu negativamente.

Em resposta a António Carlos Monteiro, do CDS-PP, o ministro da Defesa admitiu ir analisar o regulamento da medalha da Defesa Nacional, atribuída a dois membros da PJ Militar envolvidos no processo de alegado encobrimento na recuperação do material e avaliar se se justifica serem-lhe retiradas.

Ministro diz que ex-CEME interpretou bem o momento ao demitir-se

O ministro da Defesa sustentou hoje que o ex-Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) Rovisco Duarte "interpretou bem o momento" ao pedir a demissão a 17 de outubro passado, sublinhando que era preciso "renovar a liderança" no ramo.

Ouvido na comissão de inquérito sobre o furto de material militar dos paióis de Tancos, João Gomes Cravinho fez uma declaração inicial em que, sobre a demissão de Rovisco Duarte, afirmou que ao tomar posse do cargo entendeu que era essencial, em primeiro lugar, "renovar a liderança e o enfoque do Exército".

"Em primeiro lugar, virar a página, por razões óbvias, impunha-se uma nova liderança. O general Rovisco Duarte entregou a carta de demissão [ao Presidente da República] a 17 de outubro e nesse dia e no dia seguinte levei a cabo diligências para escolher" uma nova chefia do Exército, declarou.

Sobre este ponto, instado pelo deputado do PSD Rui Silva a esclarecer quem tomou a iniciativa para a exoneração de Rovisco Duarte, o ministro da Defesa afirmou que "ao pedir a exoneração, o senhor general interpretou corretamente o momento".

"O senhor general interpretou corretamente o momento. Penso que percebeu a situação e tomou a iniciativa necessária, não tive portanto eu de tomar qualquer outro tipo de atitude", acrescentou o ministro, que substituiu Azeredo Lopes no cargo.

Azeredo Lopes apresentou a demissão do cargo no dia 12 de outubro passado, na sequência dos desenvolvimentos da investigação da Polícia Judiciária à operação da Polícia Judiciária Militar que levou à recuperação do material furtado em Tancos.

No âmbito da "Operação Hubris", foram detidos o então diretor da PJM, coronel Luís Vieira, e o major Vasco Brazão, ex-investigador da mesma polícia, que afirmou que o ministro tinha sido informado da "encenação" que levou à recuperação do material.

Na audição de hoje, o atual ministro da Defesa disse que nunca falou com Azeredo Lopes sobre o caso de Tancos, suscitando a "perplexidade" do deputado do PSD Rui Silva.

"Tive uma reunião de transição com o meu antecessor, uma reunião de uma hora. Entre a sua demissão e a minha entrada em função ele e o gabinete dele prepararam uma pasta bastante extensa sobre as matérias em curso. Não falámos dessa matéria, não houve da parte dele nenhuma informação", disse.

João Gomes Cravinho acrescentou que "essa matéria estava já no âmbito judicial", pelo que não considerou "necessário pedir esclarecimentos que ele já deu ou dará oportunamente às instâncias apropriadas".

"O que eu sei é que o meu antecessor manifestou disponibilidade para ser ouvido pelas instâncias apropriadas, não me senti inquisidor, o que me interessava era o ponto da situação que era o conjunto de matérias que vão para além de Tancos", disse.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de