Tancos. "Para mim, tem de haver conivência lá de dentro", diz general

Aos deputados, o general Carlos Jerónimo, antigo chefe do Estado-Maior do Exército, admitiu que o caso foi "grave", mas assinalou que a culpa é "de todos" e não apenas dos militares.

O general Carlos Jerónimo, antigo chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), defendeu, na comissão parlamentar de inquérito ao furto de material militar em Tancos, que o furto ocorrido em junho de 2017 terá ocorrido numa base de "conivência" por parte de quem se encontrava ao serviço no interior dos Paióis Nacionais.

"Eu não sei como foi o roubo nos paióis de Tancos, mas, para mim, tem de haver conivência lá de dentro. Como é que desapareceram as [pistolas] Glock da Polícia? Conivência lá de dentro", exemplificou o general que liderou o Exército entre 2014 e 2016, tendo passado à reserva um ano antes do furto de material militar.

Mas, segundo o general, a culpa do que aconteceu em Tancos não pode ser atribuída em exclusivo aos militares. Assim, ao longo de uma audição de mais de três horas, o ex-CEME, que foi sucedido pelo general Rovisco Duarte, defendeu ser necessário apontar o dedo à falta de investimento nas estruturas e nos recursos humanos do Exército.

"Tancos é grave, é responsabilidade dos militares, mas não atirem tudo para cima dos militares. Quem dá os recursos tem de assumir essas culpas também. Somos todos culpados", disse, assinalando que há "problemas gravíssimos" nas Forças Armadas e que "o principal" é o da falta de efetivos.

Aos deputados, o general Carlos Jerónimo revelou também que nunca falou com Azeredo Lopes ou Aguiar Branco - antigos ministros da Defesa - sobre a falta de condições de segurança nos Paióis Nacionais, salientando que renovar Tancos era "uma prioridade como são outras", mas reiterou que havia obras em curso desde 2016.

"Tancos estava a ser tratado, já durava há algum tempo, mas o roubo aconteceu infelizmente, mas já se tinha começado com as obras", garantiu o ex-CEME, que adiantou que já tinham sido gastos cerca de 400 mil euros na remodelação, entre melhorias na vedação e alguns 'paiolins'. "As coisas iam-se fazendo à medida que era possível", disse, ao mesmo tempo que lembrou que obras de grande monta no Exército obrigam a recursos que não aparecem de um momento para o outro" e que, por vezes, o Exército "não tem meios para fazer essas obras".

Quanto ao material militar roubado e recuperado numa operação ainda por explicar, estava "obsoleto", mas, diz o general, poderia servir para atividades criminosas. "O material era todo passível de ser utilizado (...) Podia provocar estragos, não era inócuo", sustentou.

Exonerações? "Eu não atuava assim"

Ainda a propósito do furto, no parlamento, o general Carlos Jerónimo afirmou que mesmo não se encontrando em funções nessa altura, ficou "muito afetado", defendendo que deveria ter havido "mais moderação" no momento de o Exército comunicar o caso. "Começou toda a gente a falar", lamentou

Já sobre as exonerações de cinco comandantes levadas a cabo pelo então general Rovisco Duarte na sequência do furto, discorda, mas respeita. "Ele tem dados que eu não tenho. Se calhar foi a melhor decisão que teve, mas não atuava assim".

"Nunca vi em 43 anos de serviço militar alguém ser afastado para se realizarem investigações", disse ainda sobre as exonerações e sobre um momento para o qual seria preciso "mais recato" por parte da estrutura militar. "Só contribuiu para denegrir a imagem das Forças Armadas", acrescentou ainda sobre o mediatismo pós-Tancos.

A comissão parlamentar de inquérito ao furto de material militar em Tancos tem previstas audições a 63 personalidades e entidades. Decorre durante 180 dias, até maio de 2019, e é prorrogável por mais 90 dias, para que se possa chegar a conclusões.

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