José Sócrates responde ao livro de Cavaco Silva

O antigo primeiro-ministro revela que não gostou de ver na praça pública revelações sobre as reuniões privadas de quinta-feira entre o chefe do Governo e Cavaco Silva.

Publicamos aqui, na íntegra, a resposta solicitada pela TSF a José Sócrates em reação às acusações feitas por Cavaco Silva no livro "Quinta-feira e outros dias". A resposta de José Sócrates tem o título: "A mão por detrás dos arbustos" e centra-se, sobretudo, no chamado caso das escutas.

A mão por detrás dos arbustos

Nunca nenhum Presidente ou Primeiro-Ministro relatou as conversas tidas entre ambos enquanto exerceram funções. Há boas razões para isso, que vão da boa educação até ao necessário sentido de Estado. A avaliar pelos relatos públicos e bem vistas as coisas, o livro agora publicado é um autorretrato perfeito das consequências que o ressentimento pode ter no caráter de um político.

Não desejo, nem nunca me ocorreu, seguir caminho tão indigno. Já, no passado, tive que suportar a indecente campanha de um partido da oposição contra mim, atacando-me por não ter falado com o seu líder, quando, na verdade, tivera com ele numa longa reunião. Fi-lo pelo escrúpulo de não revelar conversas que estava comprometido a não a divulgar.

Ponho de lado as vulgares opiniões politicas expressas no livro pelo autor, que, aliás, sempre me enfastiaram. Ponho igualmente de lado outras conversas, na sua maioria distorcidas e falsas, que não passam de vulgar exercício de mesquinhez disfarçado de relato histórico. Mas não posso por de lado, pela sua importância e pelo que tem de paradigmático, o inacreditável relato que faz do chamado "episódio das escutas ", sem outro propósito que não seja o de distorcer e falsear a verdade histórica.

Houve, é certo, uma reunião no dia 16 de setembro de 2009, que recordo muito bem. Como poderia esquece-la? Nessa reunião exprimi ao então Presidente o meu protesto por não ter visto desmentida uma grave acusação de escutas que o meu gabinete teria feito ao Palácio de Belém e que o Presidente sabia ser falsa. O Presidente respondeu-me , como aliás faria noutras ocasiões, que não interromperia as suas férias para responder aos deputados do meu partido que tinham criticado a participação de membros da casa civil do Presidente na elaboração do programa de governo do PSD. Retorqui, como é óbvio, que não percebia a ligação entre os dois assuntos. Lembrei também que os senhores deputados "não eram do meu partido", mas deputados à Assembleia da República, membros de um órgão de soberania , e que só eles poderiam responder por eles, não eu. Insisti no assunto: a noticia das escutas era pessoalmente ofensiva e, estando o País em campanha eleitoral, tinha provocado sérios prejuízos ao Partido Socialista, podendo ter sido evitados se o Sr. Presidente da República a tivesse desmentido. Agastado, o Senhor Presidente entendeu lembrar-me que estava a falar com o Presidente de República . Respondi que nunca me esquecia disso, mas que estava ali a falar-lhe como Primeiro Ministro, eleito democraticamente e contra o qual se tinha lançado uma falsa e maldosa campanha para que perdesse as eleições. A conversa ficou por aí.

Uns dias mais tarde soube-se a verdade. A publicação de um e-mail permitiu saber que tais noticias tinham sido transmitidas a um jornalista pelo principal Assessor de imprensa do Senhor Presidente da República. Estava identificado o executante. Mais tarde, quando este publica as memórias, denuncia o mandante: " recebi uma indicação superior para o fazer" ( pag 146 do livro de Fernando Lima) . Tudo isto é conhecido e está comprovado. Custa acreditar na perfídia que a recente versão do livro contem:
afinal, as noticias sobre as escutas teriam sido intencionalmente colocadas na imprensa pela "tenebrosa máquina de propaganda do PS" para, claro está, afetar a credibilidade do Sr. Presidente.

Por mais desprezo que sinta- e sinto- por tal estilo e por tal literatura, não posso consentir que tal deturpação da verdade fique sem resposta. O que se passou foi , tão simplesmente, isto: pela primeira vez na história democrática do Pais ficou provado que um Presidente concebeu e executou uma conjura baseada numa história falsa, por forma a deitar abaixo um governo legitimo em funções.

Pela sua importância, não devo também deixar de fazer um ultimo comentário. Todos os que acompanharam a vida política na altura da crise política sabem bem que a única preocupação do Sr. Presidente era aquela que revelou na noite da sua reeleição: vingança e desforra. O seu discurso de posse foi o sinal de que a direita precisava para atirar o governo abaixo e provocar eleições. Na Assembleia da República, e pela primeira vez na história democrática, chumbou-se um acordo e um compromisso com as instituições europeias que um governo legitimo tinha conseguido para que o País não fosse forçado a pedir ajuda externa. O Presidente da República de então não tem moral para dar lições de lealdade institucional. Na crise política de 2011, ele sempre foi a mão por detrás dos arbustos.

E por aqui me fico, por agora.

PS: Nunca tinha visto uma transmutação de personagens tão estrambólica: " As reuniões com Soares eram sonolentas". O livro não e uma prestação de contas, mas um ajuste de contas.

Lisboa, 17 de fevereiro de 2017

José Sócrates

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