O assessor que fez história no PSD. E a história do papel "esquecido" no regresso de Sines

Paulo Baldaia recorda um homem que fez amizade com vários jornalistas e revela uma história pessoal vivida com Zeca Mendonça.

A morte de Zeca Mendonça, assessor de imprensa durante mais de 40 anos, representa também o desaparecimento de alguém que acabou por criar laços com vários homens e mulheres da imprensa.

À TSF, o jornalista Paulo Baldaia recorda Zeca Mendonça como um homem dedicado e sempre pronto a ajudar.

"Era discreto, muito discreto, sempre. Mas tinha, ao mesmo tempo, um grande à vontade e uma amizade profunda por uma série de jornalistas que foram acompanhando o PSD ao longo da carreira de jornalismo político. Esse ar reservado de Zeca Mendonça transformava-se em algo bastante simpático, de alguém que conseguia estar sempre pronto para ajudar o jornalista de Política - quem quer que ele fosse - quando a função desse jornalista era fazer a cobertura noticiosa do PSD", recorda.

Ao longo da carreira de assessor, Zeca Mendonça viu passar pelo PSD mais de uma dezena de presidentes do partido: 16 ou 17, caso se conte com Leonardo Ribeiro de Almeida, que presidiu à Comissão Política quando Francisco Sá Carneiro liderava o partido e era primeiro-ministro. Este é, para Paulo Baldaia, um sinal da importância do antigo assessor no seio do partido.

"Mostra bem o quanto valia o Zeca Mendonça para o PSD. Conheceu os líderes todos que passaram pelo PSD. Saiu para ir trabalhar com Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República já numa fase em que tinha idade para estar reformado, mas continuava sempre a trabalhar. Fez história no PSD, por isso é que, quando se dá notícia da sua morte, se fala de um histórico assessor de imprensa. Não é um exemplo só a nível de assessoria de imprensa, como é também, dentro do PSD, alguém que conhecia muito bem a história do partido", lembra Paulo Baldaia.

"Ninguém como ele conseguiu trabalhar com tantos líderes do PSD, muito perto deles, conhecendo muito bem o funcionamento do partido, mesmo quando mudava o líder. Foi conhecendo muitas histórias - que levou com ele - mas também muitas outras que teve oportunidade de dar a conhecer através dos testemunhos e entrevistas que concedeu, contando algumas das histórias fantásticas que viveu na política ao lado de todos os líderes do PSD", sendo que o último com quem trabalhou foi Pedro Passos Coelho.

Além das histórias vividas no PSD, foram também muitas as que Zeca Mendonça viveu no convívio com jornalistas. Uma delas é contada precisamente por Paulo Baldaia, na primeira pessoa, e remonta à altura em que era editor de Política na TSF. O cenário é uma visita de Marcelo Rebelo de Sousa, então líder do PSD, a Sines.

"Vivia-se um momento muito difícil na política. Guterres era primeiro-ministro, Marcelo estava sempre a condicionar a agenda do PSD. Não tenho presente se a questão na altura era o referendo ao aborto ou à regionalização. Sei que fomos fazer essa visita a Sines, o PSD tinha uma camioneta na qual foram vários dirigentes do PSD, mas também jornalistas. No regresso, Marcelo Rebelo de Sousa ia fazer uma conferência de imprensa para comunicar a posição do PSD sobre uma dessas duas matérias.[Marcelo] Vinha no autocarro a falar com Manuela Ferreira Leite e a tomar notas num papel enquanto ia conversando com ela. Na altura, quando chegámos a Lisboa, ele saiu e deixou ficar o papel. Eu ia um ou dois lugares atrás, do lado contrário, portanto tinha visão para a cadeira onde ele vinha com Manuela Ferreira Leite, e ele deixa ficar o papel onde esteve a tomar as notas. Eu, como repórter, obviamente fiquei tentado a ir buscar o papel mas fiquei na dúvida, 'o papel não é meu, ele deixou-o ali e eu não posso pegar nele'. Então o Zeca Mendonça, quando eu vou a passar e estou hesitante entre pegar no papel e não pegar, para ver o que é que o Marcelo tinha escrito, e que tinha a ver com a conferência de imprensa que ele ia dar a seguir, viu-me e disse: 'pega no papel, que ele deixou aí o papel para ti'. Eu peguei no papel e consegui antecipar a conferência de imprensa que o Marcelo ia fazer duas ou três horas depois em Lisboa", conta.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de