Os ódios, ataques e jogos de poder na guerra de trincheiras do PSD

Rui Rio faz esta quinta-feira uma espécie de teste do algodão à liderança. Se a moção de confiança for aprovada, os críticos internos hibernam, pelo menos até às legislativas. Se sair derrotado do Conselho Nacional, as portas ficam escancaradas para Luís Montenegro.

Associar o PSD a um saco de gatos é um cliché da política portuguesa. Mas será justo dizer-se que, à luz dos mais recentes acontecimentos, a metáfora (que talvez o PAN não aprove) encaixa que nem uma luva. Se Rui Rio fez um longo e penoso caminho das pedras até chegar a líder, Luís Montenegro aguentou-se apenas um ano até decidir desafiar a liderança. Pelo caminho foram aparecendo mais uns quantos putativos candidatos, todos anti-Rio, todos descontentes com o rumo que o partido tem vindo a tomar.

O que Rio andou para aqui chegar

Se há alguém que pode ostentar no currículo "reserva do partido", é Rui Rio. Ainda ocupava o gabinete de presidente da Câmara Municipal do Porto e já o nome do homem do norte circulava nos bastidores da política como putativo candidato à presidência do PSD. Rio reservou-se sempre para mais tarde. Queria acabar o mandato como autarca e por isso foi empurrando outros - como Manuela Ferreira Leite - para a frente de batalha.

Antes de Marcelo anunciar a candidatura à Presidência da República, Rio ainda pensou no assunto, mas recuou e preferiu continuar na condição de "reserva." Sempre crítico da liderança de Passos Coelho. Sempre no roteiro da carne assada e das conferências onde não se cansava de defender uma reforma do regime, sem a qual a democracia corria enormes riscos.

A hora de Rio estava marcada para depois das autárquicas de 2017. Passos Coelho antecipou-lhe - pouco - o calendário, quando decidiu sair de cena depois do resultado eleitoral desastroso que o PSD teve. Mas Rui Rio estava mais que preparado e, não fosse Pedro Santana Lopes ter saltado do sofá para lhe fazer frente, a eleição teria sido favas contadas.

Um líder sem estado de graça

Se a eleição para presidente do PSD foi mais difícil do que Rio estava a contar - Santana deu luta até ao fim -, a liderança do partido tem sido um caminho de pedras. Mais visível ou mais escondida, a oposição interna esteve sempre lá. Nada que parecesse incomodar muito o homem que durante a campanha interna prometia "uma limpeza" no partido e que se orgulha de revelar o melhor de si perante as dificuldades e os inimigos. Os indefetíveis de Rio gostam de puxar pela memória, pelos tempos em que Rio era Presidente da Câmara do Porto: garantem que onde ele se sente bem é no meio do conflito, a enfrentar os inimigos. Se os puder espicaçar, tanto melhor.

E eles - os inimigos - nunca lhe faltaram neste primeiro ano de mandato. A começar pela bancada do PSD, quase toda escolhida e afeta a Pedro Passos Coelho. Hugo Soares - o líder da bancada do PSD que sucedeu a Luís Montenegro - foi uma espécie de primeiro teste do algodão ao novo presidente do partido: começou por esperar um sinal sobre a sua continuidade no cargo e Rio não se fez rogado: fez-lhe constar que gostava de trabalhar com outra direção, que não a dele.

Mas se não era Hugo Soares, era quem? Numa bancada que, maioritariamente, estava contra Rio? Fernando Negrão foi o único que se chegou à frente e acabou por ficar ele o pivô entre o líder do partido e os deputados que representam o PSD no Parlamento. Mas os problemas ainda mal estavam para começar.

Mesmo descontando os permanentes desencontros de discurso entre Rui Rio e Fernando Negrão, as reuniões da bancada do PSD transformaram-se muitas vezes numa arena, onde as críticas à forma como o partido estava a fazer oposição ao Governo se foram avolumando. Os fiéis a Passos Coelho, ou os "anti-Rio", queixavam-se de uma atitude demasiado passiva do PSD face à governação da geringonça e acusavam a atual direção de os ter afastado do trabalho político.

As críticas que se iam ouvindo em surdina, nos corredores da Assembleia da República, foram ganhando uma outra expressão nas redes sociais. À falta de mais oportunidades e de melhor palco para fazer oposição ao Governo, vários deputados optaram por fazer oposição ao seu próprio líder, ora no Twitter ora no Facebook.

Na comunicação social, em artigos de opinião, programas de comentário ou em entrevistas cirurgicamente planeadas, os críticos internos também se foram fazendo ouvir. A oposição a Rui Rio podia ser mais ou menos velada, mas estava lá e toda a gente a via.

Eu sou o Rui Rio. Eu sou assim. Aguentem-se

Para compreendermos a atual situação de guerra interna no PSD, é preciso olhar para as trincheiras que se foram cavando em lados opostos. Se os críticos internos não facilitaram a vida a Rui Rio, é também justo dizer-se que Rui Rio os alimentou. E quanto mais os via crescer, mais "farinha de crescimento" lhes dava.

Não se pode dizer que alguém tenha sido engado. Rio disse ao que vinha desde o primeiro minuto. Queria recentrar o PSD, estava disponível para acordos de regime, estava até disponível para, no limite, suportar um governo minoritário do Partido Socialista, se tal fosse necessário para "resgatar" o país da extrema-esquerda. Tudo o que os críticos internos não queriam ouvir.

A estratégia - mas também a falta dela - foi cavando um fosso dentro do partido, que já era grande e se tornou ainda maior. A discussão das propostas de alteração do PSD para o Orçamento do Estado de 2019 só veio acrescentar ainda mais confusão.

Vários deputados sociais-democratas queixaram-se de não terem sido ouvidos sobre as propostas que o PSD apresentou. Outros discordaram frontalmente dessas propostas, por irem em sentido contrário ao que tinha sido a governação do partido entre 2011 e 2015. Rui Rio, que raramente compareceu nas reuniões da bancada, optou por seguir sempre "para bingo" e deixou, na maior parte dos casos, os críticos a falarem sozinhos. Ou, neste caso, a falarem para Fernando Negrão, que virou, muitas vezes, "saco de pancada."

A tudo isto é preciso juntarmos os acordos que Rui Rio assinou com António Costa para a descentralização e para os fundos comunitários. A proximidade dos dois - que António Costa diz agora ser um mito - só serviu para irritar ainda mais os críticos do presidente do PSD.

Quantos são? Quantos são? Venham eles

Se é verdade que nas últimas diretas do PSD apenas dois se chegaram à frente, não é menos verdade que pelo menos seis chegaram-se para trás. Luís Montenegro, Paulo Rangel, Miguel Pinto Luz, Pedro Duarte, José Eduardo Martins e Miguel Morgado decidiram que aquele não era o momento político para avançarem. Nem, tão pouco, para marcarem posição.

Não tendo avançado, Miguel Pinto Luz fez questão, ainda assim, de dar um sinal ao novo líder: antes do congresso que consagrou Rui Rio como presidente, o vice-presidente da Câmara de Cascais decidiu escrever-lhe uma carta com as linhas vermelhas que o líder do PSD não deveria ultrapassar.

Pedro Duarte aguentou-se sete meses. Em agosto do ano passado, em entrevista ao Expresso, o ex-líder da JSD desafiava Rui Rio a convocar eleições diretas e assumia-se disponível para o enfrentar. Por essa altura já a tendência de queda do PSD nas sondagens era bastante evidente.

Mais cauteloso nas palavras, seguiu-se Miguel Morgado, em dezembro. O ex-conselheiro político de Passos Coelho começou a posicionar-se. Entre reflexões sobre o que devia ser a estratégia do PSD e as críticas, mais ou menos veladas à liderança de Rui Rio, Morgado nunca se excluiu de uma eventual corrida pela liderança. E ainda hoje não se exclui.

Mais recatados, têm estado Paulo Rangel e José Eduardo Martins. O eurodeputado - que saiu em defesa de Rui Rio neste embate com Montenegro - aguarda, até agora, para saber se voltará a ser cabeça de lista nas próximas europeias. Tudo indica que sim mas, até Rui Rio formalizar o convite, ninguém arrisca ter certezas.

Já José Eduardo Martins, vai assistindo da bancada ao que se passa no "terreno de jogo", criticando quando entende o que entende, nos espaços de opinião onde participa, nomeadamente no programa do Canal Q e da TSF, Sem Moderação.

E, por fim, Luís Montenegro. O ex-líder da bancada do PSD que deixou o Parlamento para fazer uma das mais curtas travessias do deserto da política portuguesa. Muito conotado com Pedro Passos Coelho, Montenegro preferiu ficar em casa no final de 2017 quando muitos, "órfãos" do passismo, ansiavam que avançasse. Foi ao Congresso, não para dizer que ia andar por aí, mas para dizer que ficava mesmo por aqui, disponível para ajudar ao partido e...muito atento ao trabalho que Rui Rio iria fazer. O discurso foi visto como um aviso e o prenúncio de uma candidatura que, mais cedo do que tarde, seria inevitável.

Montenegro parecia disposto a esperar que Rio enfrentasse os três atos eleitorais deste ano e, só depois, avançar. Foi resistindo à pressão até ao dia 9 de janeiro. À boleia de uma declaração de Manuela Ferreira Leite no programa Pares da República da TSF, sobre os que querem encostar o PSD à direita, Luís Montenegro decidiu responder-lhe e anunciar, no programa Almoços Grátis, também da TSF, que falaria em breve sobre o futuro do PSD. Estava dado o tiro de partida para o anúncio que viria a fazer dois dias depois, no Centro Cultural de Belém - o local predileto de Cavaco Silva para anunciar as suas candidaturas. Um desafio ao líder do partido para convocar eleições diretas antecipadas e a disponibilidade imediata de Montenegro para avançar.

Rio não lhe fez a vontade, mas contra atacou. Em vez de diretas, o líder decidiu pedir ao Conselho Nacional uma moção de confiança. Se a vencer o mais provável é que Montenegro e os críticos hibernem pelo menos até depois das legislativas. Se perder, dificilmente alguma coisa ficará como antes no PSD.

O dia em que Marcelo atirou "aos fantasmas" e aos "líderes virtuais"

A guerra interna entre os sociais-democratas não tem nada de muito de novo. Como Miguel Relvas lembrava na TSF, esta semana, houve vários líderes do partido que enfrentaram "clarificações internas" durante o mandato e, algumas, bastante duras.

1996. Seis meses depois de Marcelo Rebelo de Sousa chegar a líder do PSD, o partido reuniu o Congresso para discutir uma alteração de estatutos, que era mais um teste à liderança de Marcelo que outra coisa. Durão Barroso continuava na sombra, depois de ter recuado em março e aberto caminho à liderança do agora Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa sabia que a sua liderança continuava a ser questionada e, quando subiu ao púlpito, decidiu pegar na caçadeira de canos cerrados e disparar um discurso duríssimo contra "a meia dúzia de líderes virtuais" mas também contra os "fantasmas" que atormentavam o partido. Cavaco Silva ficou com as orelhas a arder.

Se o discurso que Marcelo fez na altura podia ser feito hoje, por Rui Rio? Podia. Contra os "líderes virtuais" que no último ano se têm posicionado, mas também contra o "fantasma" de Pedro Passos Coelho que continua a pairar. A história, no caso do PSD, pode mesmo repetir-se.

E não é preciso puxar muito pela memória para encontrar mais semelhanças entre o momento que o partido vive hoje e outros que viveu no passado. Marcelo Rebelo de Sousa sobreviveu ao Congresso dos estatutos, naquilo que era uma espécie de teste do algodão à sua liderança. O professor saiu com a liderança reforçada, mas nunca chegou ao cargo mais ambicionado que era o de primeiro-ministro.

Durão Barroso começou a afastar-se de Marcelo e havia de ameaçar algumas vezes uma candidatura que só viria a acontecer com o fim da AD e a demissão abrupta de Marcelo Rebelo de Sousa em 1999. Estava estendida a passadeira vermelha a Barroso, a cinco meses das eleições legislativas e a um mês de europeias.

A derrota nas legislativas, fez sair debaixo das pedras, os adversários de Durão Barroso. Santana Lopes era o nome mais óbvio, mas Marques Mendes decidiu aparecer para baralhar ainda mais as contas. O PSD entrava novamente num momento de clarificação e Durão Barroso tinha tudo a provar novamente. "Falta de solidariedade" e violentos ataques aos adversários mais diretos, foi a estratégia de Barroso em 2000. Qualquer semelhança com a de Rui Rio em 2019, não é pura coincidência. Está escrito nos livros. Quem se sente atacado, primeiro vitimiza-se. Depois contra ataca.

O que se segue ao Conselho Nacional?

Para uns, Montenegro sairá sempre vencedor do Conselho Nacional desta quinta-feira. Se a moção de confiança for chumbada, o partido pode cair-lhe no colo e ninguém lhe exigirá que vença as eleições a António Costa. Apenas que faça melhor que Rui Rio está a fazer atualmente nas sondagens. Quem apoia o ex-líder da bancada do PSD acredita que, com Montenegro na liderança, as hostes sociais-democratas voltam a mobilizar-se e que, parte do eleitorado que estará a fugir - para o CDS e para o Aliança de Santana Lopes-, regressará.

Mas caso Rui Rio vença este embate e se mantenha como líder, Luís Montenegro também pode sair a ganhar. Os críticos internos hão-de acalmar-se durante uns meses, a paz podre provavelmente mantém-se, mas um eventual desaire eleitoral do partido pode levá-lo a olhar novamente para Montenegro como o senhor que se segue. E ao próprio, a oportunidade de dizer: "eu avisei e tentei evitar isto."

Cálculos, táticas, jogadas políticas que são tão antigas como a própria política. Do Conselho Nacional pode até sair a clarificação pela qual tantos clamam. Mas o mais provável é que ela seja de curto prazo.

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