Quantos são? Os cinco que Rui Rio pode ter de enfrentar

Mais de 3500 assinaturas de militantes e simpatizantes já estarão recolhidas. Um congresso extraordinário em dezembro, como quer André Ventura, obriga os potenciais candidatos à liderança a antecipar calendário.

Qualquer semelhança entre a crise interna no PSD e a do Sporting não é apenas mera coincidência. A começar na contestação ao líder e a acabar no número de putativos candidatos que parecem estar disponíveis para substituir um líder em funções e assumir a responsabilidade de avançar. Se... e só se... a questão da liderança se colocar antes de tempo. Se nas diretas de janeiro só Rui Rio e Pedro Santana Lopes se chegaram à frente, desta vez não faltam sociais-democratas a fazer contas às suas possibilidades. Para já, são cinco e a contagem pode ainda não ter terminado: Luís Montenegro, Paulo Rangel, Pedro Duarte, Miguel Pinto Luz e Miguel Morgado. Nem todos desejam eleições já. Mas todos têm presente que esse cenário se pode vir a colocar.

Nos bastidores a agitação é grande. Entre telefonemas e grupos de WhatsApp, trocam-se críticas a Rui Rio e desenham-se cenários futuros. Um desses cenários pode passar por impedir Rui Rio de ir às eleições legislativas do próximo ano, antecipando que o resultado eleitoral do PSD pode ser desastroso.

As primeiras eleições são as europeias, em maio, e é por considerar "decisivos" esses cinco meses para a "afirmação do partido como alternativa ao PS" que André Ventura quer um congresso extraordinário, já em dezembro. A recolha de assinaturas começou há cerca de uma semana e o vereador do PSD, em Loures, diz já ter recolhido "mais de 3500 assinaturas entre militantes e simpatizantes do PSD", em todo o país, incluindo as regiões autónomas.

André Ventura - candidato derrotado do PSD a Loures nas últimas autárquicas e também ele um putativo candidato - tem andado a fazer "o trabalho sujo" de recolher as assinaturas que provoquem um congresso extraordinário, o qual possa levar à queda de Rui Rio. Ao que a TSF apurou, o objetivo de André Ventura é chegar às cinco mil assinaturas e, já na próxima semana, o vereador da Câmara Municipal de Loures vai para a rua com uma iniciativa pública, que tem por objetivo, precisamente, forçar a realização de um congresso extraordinário no PSD.

Os estatutos dos sociais-democratas ditam que, para apear a liderança, seja aprovada, por maioria, em Conselho Nacional, uma moção de censura (ou rejeitada uma moção de confiança), o que determinaria a convocação de um Congresso "no prazo máximo de 120 dias"; ou que 2500 militantes requeiram a convocação de um inédito congresso extraordinário.

Depois do passo dado por André Ventura, com a recolha de assinaturas, o cenário de um congresso extraordinário parece desenhar-se como o mais provável para quem quer impedir o atual presidente do partido de cumprir o mandato até ao fim. A ideia, que pode até não agradar a muitos dos que se perfilam para suceder a Rui Rio, obriga, seguramente, todos os que estavam a pensar candidatar-se só em 2020 (no final do mandato de Rui Rio) a antecipar calendário. Aliás, Ventura diz que "um congresso extraordinário obrigaria a uma clarificação de quem se refugia no calculismo".

Rui Rio vai dar luta

Se há ideia clara na cabeça de todos os críticos de Rui Rio é que o atual presidente do PSD não vai entregar os pontos facilmente. À TSF, alguns desses críticos mostram-se convictos de que "a atual direção vai fazer tudo para evitar a realização de um congresso extraordinário", nem que para isso tenha de se agarrar às questões de forma, mais do que de conteúdo.

Acresce que muitos destes críticos da atual direção nem sequer defendem que deva existir um congresso extraordinário. Ao que a TSF apurou, Miguel Morgado é um dos sociais-democratas que considera um erro tentar derrubar Rui Rio antes do fim do mandato, a não ser que o presidente do PSD violasse os estatutos ou tivesse alguma ação grave que prejudicasse o partido. Luís Montenegro, sabe a TSF, também não defende a realização de um congresso extraordinário e vê com preocupação esse cenário. Mas, se André Ventura ou qualquer outro militante conseguir provocar esse congresso, o que fazem os críticos de Rio?

Morgado pondera. Montenegro avança se houver congresso

Foi um dos indefetíveis apoiantes de Pedro Passos Coelho. O nome de Miguel Morgado, ex-assessor político de Passos, começou a correr nos bastidores laranja nos últimos dias como mais um que estaria disponível para avançar contra Rui Rio.

Ao que a TSF apurou, o deputado está, neste momento, a ponderar as várias possibilidades e não exclui, caso seja necessário, assumir as suas responsabilidades.

Situação diferente é a de Luís Montenegro. O ex-líder da bancada do PSD, em quem muitos apostavam nas últimas eleições internas do partido, acabou por ficar quieto e chegou mesmo a manifestar apoio a Pedro Santana Lopes.

A decisão - que à época foi entendida por alguns como uma jogada tática - pode ter de ser revista mais cedo do que o previsto. Ao que a TSF conseguiu apurar, Luís Montenegro, que continua a preferir que Rui Rio leve o mandato até ao fim, terá claro na cabeça que, se houver congresso extraordinário, o jogo muda e tem mesmo de avançar. Para o ex-líder da bancada social-democrata, provocar uma crise interna no PSD a poucos meses de três atos eleitorais importantes para o partido pode tornar-se um problema muito grave.

Duarte na estrada. Pinto Luz preparado. José Eduardo Martins fora

Um é o eterno candidato a candidato. O outro está farto de ouvir dizer que lhe falta notoriedade. Nas contas dos sociais-democratas, para um próximo ato eleitoral, há que juntar mais dois nomes: Pedro Duarte, ex-líder da JSD, e Miguel Pinto Luz, vice-presidente da Câmara de Cascais.

"Quanto antes melhor", respondeu Pedro Duarte, em entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo, quando lhe foi perguntado se as eleições no PSD deviam ser antes ou depois das legislativas. "É a bem do país, não estou a pensar no interesse do PSD nem nas consequências eleitorais disso, eu acho que o país precisa de uma alternativa e precisa de alguém que na política comece a falar de coisas diferentes, que digam respeito à vida das pessoas, hoje em dia e para o futuro", prosseguiu o social-democrata.

Esta semana, Pedro Duarte arranca com o primeiro debate, dedicado à cultura, promovido pelo Manifesto X, uma plataforma fundada pelo ex-líder da JSD, para discutir políticas públicas. Uma espécie de pré-campanha interna, depois de, em agosto, Pedro Duarte ter dado o tiro de partida numa entrevista ao Expresso, onde assumiu claramente que "o PSD deve mudar de estratégia e de líder", para rematar que está "disponível".

Quem está fora desta corrida é José Eduardo Martins. Ao que a TSF apurou, o advogado, que se candidatou a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa ao lado de Teresa Leal Coelho, não está a ponderar uma candidatura e apoiará Pedro Duarte.

Quem se recusa a apoiar Pedro Duarte é Miguel Pinto Luz, até porque tem planos próprios. Em entrevista ao Observador , o vice-presidente da Câmara de Cascais considerou o discurso de Pedro Duarte "hermético", deixando muito claro que não se exclui da corrida à liderança do PSD e que está preparado: "Sou hoje um pouco mais conhecido do que era. E esse percurso faz-se com tranquilidade, sem pressas, colocando as nossas ideias e a nossa agenda a discussão."

Paulo Rangel em silêncio, mas atento

Foi outro dos nomes que, nas últimas diretas, decidiu não avançar. Mas há, no partido, quem continue a olhar para o eurodeputado como uma reserva válida para a liderança.

Paulo Rangel, que já se candidatou uma vez à liderança do PSD, contra Passos Coelho e Aguiar Branco, não apoiou Rui Rio nas últimas eleições internas, mas também não fez campanha contra ele. Se tudo se precipitar e o congresso extraordinário for mesmo convocado, Rangel terá, provavelmente, de voltar a pensar no assunto. Mas essa é uma reflexão que o eurodeputado só partilha com os mais próximos.

E Pedro Passos Coelho?

Nas últimas duas semanas o nome do ex-presidente do PSD surgiu duas vezes: primeiro foi o comentador Pedro Marques Lopes, no programa da TSF Bloco Central, a dizer que Passos "quer voltar à liderança do PSD", acrescentando que o ex-primeiro-ministro até "já começou a fazer contactos".

Uma semana depois, foi a vez de Luís Marques Mendes, no espaço de comentário semanal da SIC, a ir no mesmo sentido: "Passos considera que a sua obra está inacabada", afirmou Mendes, acrescentando que "se Passos Coelho quiser voltar tem todas as condições dentro do partido" e que "quase nem precisa de fazer campanha". O comentador, que também já liderou o PSD, está convencido que Passos Coelho "tem, de facto, um grande apoio dentro do partido, tem uma grande simpatia e, portanto, não anda a fazer contactos, nem precisa de fazer contactos, porque tem todos esses apoios". Marques Mendes não deixa, no entanto, de notar um problema num eventual regresso de Passos Coelho: "O país é diferente. A imagem de Passos Coelho ainda é uma imagem muito desgastada por causa das decisões duras que teve de aplicar. Ele seguramente ponderará tudo isso."

Bases do partido expectantes

Em Lisboa, Porto, Aveiro, Braga e Viseu, onde estão algumas das maiores concelhias do país, está tudo à espera para ver. Se por um lado ninguém deseja um congresso extraordinário no PSD, também ninguém exclui essa possibilidade. A questão passa por saber quem dará o tiro de partida.

À TSF, vários responsáveis das estruturas locais assumem o enorme descontentamento com aquilo que consideram ser uma total "ausência de rumo do partido". Ninguém o diz de viva voz, mas todos admitem que, caso seja convocada a reunião magna extraordinária, muitas das concelhias do PSD têm de deixar cair Rui Rio. Mesmo as que nas últimas diretas o apoiaram. É o caso, por exemplo, da maioria das concelhias do distrito de Viseu, onde Rio obteve 65% dos votos nas últimas eleições internas do PSD.

Mesmo no distrito de Aveiro, de onde vem Salvador Malheiro, homem de confiança e membro da direção de Rui Rio, muitos dirigentes locais de base começam a dar sinais de cansaço com a forma como a atual liderança está a comportar-se na oposição.

Há mesmo quem recorde a última reunião do Conselho Nacional do PSD, onde Rui Rio foi fortemente criticado pelas bases do partido.

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