Quem assassinou o primeiro Presidente português dos afetos?

Depois de ter liderado um golpe de Estado, Sidónio Pais impôs uma governação centrando o poder em si. A ascensão e a queda do homem a quem Fernando Pessoa chamou de "Presidente-rei".

Estava na Estação do Rossio, em Lisboa quando foi atingido com um tiro no peito. Foi transportado ainda para o Hospital de São José, mas acabaria por morrer. Faz esta sexta-feira 100 anos que Sidónio Pais foi assassinado. O "Presidente-rei" esteve apenas um ano no poder, numa história de vida que começa a norte do país.

Sidónio Pais nasceu em Caminha, no distrito de Viana do Castelo, no seio de uma família burguesa. Era o filho mais velho de funcionários judiciais. Jovem inteligente e astuto concluiu o liceu com distinção e, mais tarde, na universidade estudou Filosofia e Matemática. A morte precoce do pai fê-lo ingressar numa carreira militar para ajudar a mãe a sustentar os irmãos. O sucesso em Coimbra fez com que Sidónio Pais fosse convidado para vice-reitor da universidade.

No início do século XX, o país vivia uma mudança política, que culminou com a implantação da Primeira República, a 5 de outubro de 1910. O assassinato de D. Carlos I e do seu filho, herdeiro do trono, dois anos antes, deu uma ajuda aos "revolucionários" que queriam acabar com o regime monárquico.

Nesta altura, Sidónio Pais já estava integrado na Maçonaria, que começara a frequentar em Coimbra. Foi deputado à Assembleia Constituinte em 1911, chegou a Ministro do Fomento e das Finanças e no ano seguinte, partiu para ser Embaixador de Portugal na Alemanha.

O entusiasmo depois da Implantação da República deu lugar a uma crise provocada, sobretudo, pela instabilidade. A situação agravou-se com a declaração de guerra por parte da Alemanha. O receio do poderio germânico levou à participação do Corpo Expedicionário Português na Primeira Grande Guerra. A pobreza, a fome e a gripe pneumónica, que matou milhares, atacaram o país em força.

Portugal era liderado pelo governo de Afonso Costa, que respondeu aos protestos com violência e repressão. O povo ansiava por outra revolução e foi neste cenário que começavam a ser conhecidos relatos de uma conspiração.

Vários ramos das forças armadas foram sondados para uma revolta contra o governo no poder e entre os militares que aderiram estava Sidónio Pais. A 5 de dezembro de 1917, o major lidera o golpe de estado e estaciona mais de 1500 militares no Parque Eduardo VII. Seguiram-se dias de luta intensa. Ainda hoje há dúvidas quanto ao número de vítimas. Sidónio foi o comandante que levou os revolucionários à vitória e o governo caiu. Afonso Costa foi preso e, mais tarde, partiu para o exílio em França.

O sidonismo

A vitória no golpe de Estado foi associada rapidamente ao nome de quem liderou as tropas revolucionárias. Sidónio Pais teve o reconhecimento do povo, que o apelidou de "herói". O fim do golpe culminou com a sua ascensão a Presidente da Junta Revolucionária.

O novo Presidente começa a trabalhar para modernizar a República e retomar os ideais do 5 de outubro. É nesta altura que altera a lei eleitoral, sem consultar o Congresso, sendo eleito por sufrágio direto dos cidadãos eleitores, com mais de 470 mil votos, no final de abril. Foi proclamado a 9 de maio de 1918.

"Quando se estava à espera de uma governação semelhante a de outros governos republicanos, mais conservadores, a liderança de Sidónio Pais impõe um cunho diferente: um sistema presidencialista", explica o historiador Fernando Rosas.

O chefe de Estado promoveu várias reformas: aboliu a censura à imprensa, soltou presos políticos e deixou regressar do exílio os monárquicos. O clima que se vivia nesta época era de "libertação", como escreveram os jornais. O regime passou a ter um nome: Sidónio, que implementou um regime centrando todo o poder em si.

Numa fase inicial da sua governação, com grandes índices de popularidade, este foi de facto o primeiro Presidente dos afetos. As enormes manifestações de apoio eram prova disso mesmo. Sidónio Pais era recebido em apoteose e, por exemplo, gostava de ir visitar os doentes aos hospitais, os presos às cadeias e os bairros mais pobres.

Mas os republicanos que lhe deram apoio começaram a ter receio face a um "sidonismo" com tiques de monarquia. Os receios finalmente chegaram. Fernando Rosas sublinha que "a ditadura de Sidónio Pais" cria uma "espécie de polícia política, sobretudo, a norte onde houve notícia de repressão e tortura" contra os presos políticos. "O sidonismo torna-se numa ditadura premonitória, como as que irão aparecer na Europa durante o pós-guerra", frisa o historiador.

O culto da personalidade do chefe de Estado era muito contrário aos hábitos políticos do republicanismo e, por isso, várias fações viraram-se contra Sidónio. O perigo para o Presidente era evidente.

O fim

O regime sidonista ocorre numa altura em que a guerra fazia vítimas. O Presidente ordenou de imediato a retirada das tropas. Em abril, os militares portugueses desiludidos com a falta de apoio britânico sofrem uma enorme ofensiva alemã, que faz milhares de mortos. O rescaldo da Batalha de La Lys traz enormes consequências para o país. O povo ficou refém dos efeitos económicos e sociais da guerra.

A partir daqui, o estado de graça de Sidónio foi perdendo folgo. O entusiasmo dos meses iniciais deu lugar a contestação, que foi encabeçada pela esquerda radical e pelos republicanos que não gostavam da "ditadura" sidonista.

No início de dezembro, Sidónio Pais sofre uma tentativa de atentado em Lisboa. Pessoas próximas do Presidente já tinham alertado para "essa eventualidade" e eram conhecidos vários ataques em preparação". O fim não tardou.

A 14 de dezembro, o Presidente desloca-se para o Rossio onde iria apanhar o comboio para o Porto, rodeado de um forte aparato policial. Mas na entrada da estação, é travado com vários tiros no peito disparados por José Júlio da Costa, um ativista da esquerda republicana. Desta forma, foi colocado um ponto final no "reinado" do Presidente-rei, nome atribuído por Fernando Pessoa. Num poema de 60 estrofes, o escritor tenta descrever o percurso de Sidónio.

"Quem ele foi sabe-o a Sorte,

Sabe-o o Mistério e a sua lei

A Vida fê-lo herói, e a Morte

O sagrou Rei!"

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