A arte que brota no verão numa leira da Serra d'Arga

Exposição "Arte na Leira" veio para ficar, com cada vez mais gente a procurar apreciar a arte que brota pujante na terra árida no cimo da serra.

É uma exposição de arte no local mais improvável, mas que se reedita há 23 anos consecutivos. A "Arte na Leira" promovida pelo pintor e ceramista Mário Rocha, ocupa todos os verões os espaços interiores e exteriores da sua própria casa (Casa do Marco) na aldeia de Arga de Baixo, em Caminha. A edição deste ano está a decorrer desde 17 de julho e prolonga-se até 22 de agosto, com obras da autoria de 27 artistas nacionais e estrangeiros (incluindo de duas alunas do Instituto Politécnico de Viana do Castelo), e também de três crianças.

Mário Rocha, de 66 anos, afirma que a exposição veio para ficar, com cada vez mais gente a procurar apreciar a arte que brota pujante na terra árida no cimo da serra. "Já tinha feito exposições na Alfândega do Porto e de manhã não entrava ninguém, muito menos famílias, e aqui entram. Tem piada e são pessoas que vem da cidade. Não sei, talvez por ser terra haja mais ligação às pessoas", comentou o artistas no dia em que a TSF o visitou, adiantando: "Já passaram por cá hoje bastantes pessoas. De manhã, tive que abrir mais cedo porque eram 8.50 horas e já estavam encostados ao meu portão e a tocar à campainha. Normalmente é assim sempre uma correria de gente aí".

Na sua sala tem uma parede pejada de fotografias do seu percurso, na companhia de amigos de vários quadrantes. Há imagens do anfitrião ao lado de músicos como Pedro Abunhosa e Gil do Carmo, de políticos como Cavaco Silva, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa e do escritor José Saramago. E há uma que chama a atenção: ovelhas tentam comer uma pintura [verde] da exposição, e cabras estão de costas voltadas para a obra. Foi um antigo presidente de Câmara de Ponte de Lima, que captou a graça. "Foi o Daniel Campelo que fez a fotografia. Diz ele que as ovelhas são mais cultas, que as cabras. [Na pintura] aquilo parecem ervas e as ovelhas estão a tentar chegar lá mas não tiveram sorte", contou divertido Mário Rocha.

A Arte na Leira nasceu em 1999 após uma exposição de pintura do artista em Bruxelas, com cerca de 20 telas que "eram a sobreposição de imagens urbanas da Ribeira do Porto com pessoas da Serra d'Arga". "Nesse ano, depois disso, lembrei-me de fazer aqui uma exposição para mostrar um bocado às pessoas de cá o que é que eu fazia, porque pensavam que eu era pintor da construção civil", lembrou, acrescentando: "Chegaram até a pedir-me um orçamento para pintar uma cozinha".

Após a sua primeira exposição na leira [terreno de cultivo] em frente a casa, já lá vão 23 anos, Mário Rocha foi-se entrosando na aldeia. Hoje vive em Arga de Baixo em permanência. E longe vai o tempo em que foi menos compreendido por um antigo vereador da Câmara de Caminha. "Veio cá tempos depois da primeira exposição e contou-me uma história engraçada. Disse-me 'a Mário lembras-te a primeira vez que falamos, quando me foste pedir um apoio? Estavas tu a descer as escadas da Câmara e eu a dizer à minha secretária: mais um maluco que me apareceu a querer fazer uma exposição na Serra d'Arga. Afinal não foste nada maluco, foste visionário", recordou.

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