A revolução das estrelas com trissomia 21

Um grupo de actores com deficiências mentais está a ensaiar a peça "Lisboa, o 5 de Outubro de 1910", que será apresentada às escolas que visitarem o Museu de Lisboa. "Tem sido uma revelação", porque "o teatro é como se fosse uma casa".

"Défice! Bancarrota! Impostos! Juros! Estamos fartos! Queremos a República! Morte ao rei!"

A revolta que levaria à implantação da República é o tema da peça "Lisboa, o 5 de Outubro de 1910", em fase de ensaios pelo grupo de teatro Nós, da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental. Os vinte actores são jovens adultos, quase todos com trissomia 21, coordenados pela terapeuta Teresa Seco. "Muitos não sabem ler. Portanto, não podem levar o guião para casa, para estudar", realça Teresa, apontando as duas principais dificuldades: "esquecem-se das falas e atrapalham-se com certas palavras".

A autora do texto, Ana Paula Antunes, admite que por vezes, coloca palavras a mais, mas está "sempre com o lápis atrás da orelha", para adaptar a palavra à personagem e àquilo "que eles conseguem dizer. Portanto, começa com uma peça e acaba geralmente com uma peça diferente".

"Lisboa, o 5 de Outubro de 1910" é a terceira peça do grupo Nós, em parceria com o Museu de Lisboa. Depois das revoluções de 1383-1385 e 1640, a escolha por mais uma revolução justifica-se pelo facto da História se centrar na movimentação popular, em grupo, com "poucas falas", explica Ana Paula, que é historiadora e terapeuta ocupacional.

A revolução em palco permite transformar os jovens adultos com trissomia 21. Beatriz Jóia, 25 anos, era "muito fechada e reservada e tem sido uma revelação", congratula-se a mãe Fernanda. Antes reservada ao papel de figurante, Beatriz tem agora uma fala, pela qual "sente orgulho".

Mãe de Nuno Aleixo, Maria José também está orgulhosa de como o filho "decora os papéis todos em casa". Representando duas personagens, Zé Povinho e José Relvas, Nuno, de 40 anos, considera que "o teatro é uma beleza" e recordando um programa que viu com a mãe, afirma que quer "morrer em palco", como as árvores morrem em pé.

A coordenadora do grupo de teatro, Teresa Seco, reconhece que o resultado final nem sempre é o desejado, porque "temos de intervir em excesso", quando "o mérito é deles e nós somos só a plataforma para eles sobressaírem". No entanto, Teresa salienta que as regras, a dinâmica e o método de trabalho ajudam os actores com trissomia 21 a controlarem melhor "a instabilidade comportamental, emocional e até motora". Afinal, "não podem andar aos saltos no palco, não podem atropelar os colegas, têm de esperar a sua vez para falarem. (...) Têm de adquirir um auto-controlo para poderem trabalhar num grupo de vinte pessoas".

Miguel Silva, 32 anos, que representa Manuel Buiça e o povo, assume que "decorar palavras é um pouco difícil", mas adora estar em palco. "O teatro é como se fosse uma casa", afirma. E nesta casa, os actores com défice cognitivo sentem-se tão integrados que, no final do ensaio, a actriz Vera Leandro, no papel de rainha D. Amélia, garante que foi "uma estrela".

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