Agentes culturais juntam-se em Lisboa para "brinde à ignorância da ministra"

No protesto junto ao Ministério da Cultura, sediado no Palácio Nacional da Ajuda, os trabalhadores do setor brindaram com os copos vazios.

Cerca de uma centena de agentes culturais concentraram-se hoje junto ao Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, para "um 'drink' de copo vazio", em alusão à ausência de respostas do Governo, num "brinde à ignorância da ministra" da Cultura.

Organizada pela plataforma cívica Convergência pela Cultura, a iniciativa "Um 'drink' pela Cultura" contou com a presença de várias personalidades das artes, inclusive o ator Ruy de Carvalho, que promoveu "um brinde à ignorância da ministra".

"Tudo o que nos rodeia é cultura, portanto temos de ter uma ministra à altura da cultura que nós merecemos, assim não, assim digo 'ah senhora ministra, que tristeza, acorde para a vida, não esteja morta, viva'", afirmou Ruy de Carvalho, de 93 anos, lembrando os 78 anos de carreira como ator e em que diz que nunca teve um ministro da Cultura "tão mau".

No protesto junto ao Ministério da Cultura, sediado no Palácio Nacional da Ajuda, os trabalhadores do setor ergueram uma faixa com a frase "no culture, no future", brindaram com os copos vazios e fizeram-se ouvir: "Cultura somos todos".

No âmbito da iniciativa de protesto, a plataforma Convergência pela Cultura apresentou um comunicado público, dirigido ao primeiro-ministro, considerando que António Costa "está muito mal informado em relação à Cultura" e indicando que o maior vazio corresponde à "falta de seriedade, de ética e de transparência" na adoção de medidas apresentadas pelo Governo.

"Na realidade não passaram de uma utopia, que fica muito bem no retrato, mas que não corresponde à realidade dura em que vivem os seus concidadãos", avança o comunicado público, afirmando que "os agentes do setor da Cultura não querem esmolas nem subsídios, querem sim um setor sustentável e sustentado".

Em representação da plataforma Convergência pela Cultura, Alexandre Belo Morais explicou que o brinde dos trabalhadores "é de copo vazio em conformidade com o vazio de respostas concretas que o setor tem tido", acrescentando que o que existe "é um conjunto de intenções, de planeamentos e de mapeamentos".

Troca de argumentos

Na sexta-feira, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, disponibilizou-se para receber a plataforma Convergência pela Cultura que agendou o protesto, apesar de o manifesto onde constam as suas reivindicações não lhe ter sido dirigido, o que considerou que foi "certamente por lapso".

Neste âmbito, Alexandre Belo Morais esclareceu que "a carta nunca foi dirigida à ministra da Cultura", referindo que todos os grupos que constituem a plataforma estão, desde março, a solicitar reuniões e "não foram aceites".

Em resposta à Lusa, fonte do Ministério da Cultura disse que "o pedido para uma audiência chegou hoje à hora de almoço e que será agendada reunião nesse sentido".

Presente no protesto, Nuno Várzea, de 50 anos, trabalhador do setor da cultura há 36 anos, destacou a solidariedade dos agentes culturais, tanto no contexto da pandemia de Covid-19 como nos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande, "que fazem chegar bens essenciais, nomeadamente alimentos".

Sem realizar espetáculos desde março devido à pandemia, este profissional da cultura tem vivido momentos "muito complicados", porque "estas histórias dos apoios do Governo, isto não existe", e predomina a incerteza sobre o regresso ao trabalho, ainda que tenha um marcado para outubro: "Se formos nós, mais uma vez, para confinamento, vai ficar muito mais complicado".

"A senhora ministra está constantemente a colocar medidas, aliás hoje veio como mais um pacote de medidas, que são ineficazes e inexistentes mesmo, isto é tapar o sol como a peneira e basta, 'senhora ministra, basta'", declarou Nuno Várzea.

"Temos de nos manifestar"

Sobre o impacto das linhas de apoio ao setor, o porta-voz da plataforma Convergência pela Cultura recusou "aceitar que haja uma utilização da comunicação social para promover a artificialidade de uma retoma cultural que não existe", revelando que existe "um espetro enorme de trabalhadores da cultura que são informais e que são intermitentes e que têm problemas graves, com dívidas ao fisco, que não estão contemplados".

"Incomoda-nos termos setores mobilizados para recolha de alimentos e, por isso, é que obviamente temos de nos manifestar", reforçou Alexandre Belo Morais.

Entre as propostas da plataforma cívica está a constituição de uma comissão, sob a tutela do Conselho de Ministros, que se dedique à apresentação de propostas ao parlamento sobre o setor da cultura.

No final de julho, à margem da sessão de apresentação de um conjunto de obras de arte contemporânea adquiridas pelo Estado, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, quando confrontada com a informação de que um grupo informal apoiava, todas as semanas, mais de 150 trabalhadores do setor em dificuldades, escusou-se a responder, convidando os jornalistas para "um 'drink' de fim de tarde".

Hoje mesmo, num comunicado divulgado ao início da manhã, o Ministério da Cultura lembrou que as linhas de apoio a entidades artísticas e de adaptação dos espaços às medidas de prevenção de contágio da Covid-19 ficam abertas até ao final sexta-feira, assim como a linha de apoio social, adicional aos apoios concedidos pela Segurança Social a trabalhadores independentes da área da Cultura, destinada a "artistas, autores, técnicos e outros profissionais da cultura", num valor global superior a 38 milhões de euros.

O Ministério da Cultura recordou que também continuam abertas as linhas de apoio excecional do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), para o financiamento de projetos já apoiados, à produção e a festivais, cujas edições tenham sido edições de 2020 tenham sido suspensas, adiadas ou canceladas, num montante total disponível é de 3,5 milhões de euros.

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