Aljube, uma inspiração para a defesa da democracia e dos Direitos Humanos

Em tempo de pandemia, a democracia tem de ser ainda mais defendida, afirma Rita Rato, a directora do Museu do Aljube. Em entrevista à TSF, a antiga deputada comunista responde, pela primeira vez, aos que contestaram a sua escolha para o cargo.

Um painel com pequenas fotografias a preto e branco é o primeiro impacto para quem chega ao Museu do Aljube - Resistência e Liberdade. São mais de 300 rostos de presos políticos que estiveram encarcerados no Aljube e em Caxias. "Para dar cara à resistência e luta pela liberdade, para que as pessoas percebam que o facto de celebrarmos este Museu, numa antiga prisão, é também porque o devemos a todas estas pessoas", explica a directora do Museu do Aljube, Rita Rato, que teve a iniciativa de colocar o memorial logo à entrada do espaço.

Aljube, do árabe "al-jubb", significa poço sem água ou prisão. O edifício, no coração de Lisboa, sempre teve funções de encarceramento: desde uma prisão eclesiástica a cadeia para mulheres e, durante a ditadura, uma cadeia privativa da polícia política. Desde 25 de Abril de 2015, alberga o Museu Resistência e Liberdade.

Rita Rato ficou "muito emocionada" quando visitou o Museu pela primeira vez, logo após a inauguração. "Conta histórias muito duras, de muita resistência e coragem, que são muito dolorosas, mas, ao mesmo tempo, quando cheguei à parte do 25 de Abril, pensei: "estas pessoas fizeram tanto, em condições tão difíceis, que eu tenho de continuar a fazer, hoje, em condições muito diferentes". Foi muito duro, mas valeu a pena estes milhares de homens e mulheres terem lutado pela liberdade, porque se eu hoje estou aqui, em democracia, a visitar um espaço destes, devo-o a eles".

Apesar da emoção, Rita Rato nunca pensou em dirigir o Museu. Enviou o currículo e a carta de motivação no último dia do concurso. "Foi muito imprevisível", confessa, desvalorizando a polémica que rodeou a sua escolha. Às críticas de que não tinha currículo, não cumpria os requisitos exigidos, Rita Rato responde, pela primeira vez, em declarações à TSF: "A polémica fala mais sobre quem a alimentou do que sobre mim. Eu estava muito mais concentrada em coisas que queria fazer no Museu e queria começar a pensar nisso. Estou profundamente serena". Nem guarda mágoas, porque "uma polémica, perto de uma vida que foi de tanta resistência, não me magoa".

"Coragem hoje, abraços amanhã"

Em funções desde Agosto, Rita Rato assume que dirigir o Museu, "no meio de uma pandemia, obrigou a pensar as coisas de outra forma". Foi necessário ajustar a comunicação, para continuar a chegar ao público. Essa é uma das cinco prioridades da nova directora: formação de públicos e jovens, educação para os Direitos Humanos, defesa da liberdade e democracia, homenagem aos que lutaram e estratégias de trabalho e cultura partilhada e participada.

No segundo 25 de Abril passado em pandemia, a responsável pelo Museu do Aljube sublinha a "importância de transmitir força e esperança nestes tempos difíceis". Por isso, um dos desafios lançados neste 25 de Abril passa pela colocação de cartazes com a mensagem "Coragem hoje, abraços amanhã". A ideia nasceu de uma partilha da antiga prisioneira Conceição Matos, quando estava numa cela em Caxias. "Ela ouviu chegar uma jovem estudante angolana, que ouviu a chorar, e ela começou a comunicar e a dizer "Coragem, amiga. Coragem hoje, abraços amanhã". Então, é uma mensagem triste, mas é uma mensagem de força, resistência e esperança", que faz ainda mais sentido "nestes tempos difíceis que estamos a viver. Que a resistência de hoje permita uma vitória amanhã".

A programação do 25 de Abril inclui ainda a exposição "8998, Pomar", com trabalhos de Júlio Pomar, que esteve preso em Caxias, entre Março e Agosto de 1947. Os desenhos, gravuras e pinturas estão no novo espaço de exposições temporárias, no 4.º piso, onde se situava a antiga enfermaria, que recebia muitos "presos mal tratados". 8998 era o número da ficha prisional de Júlio Pomar.

No fim-de-semana do 25 de Abril, o Museu do Aljube promove ainda um peddy paper, visitas orientadas e um concerto sobre os 50 anos das Cantigas de Maio. Haverá também a peça de teatro "Rascunhos: Memórias de uma falsificadora", mas todas as actividades presenciais estão esgotadas.

Rita Rato entusiasma-se ao ver tantas pessoas interessadas num Museu que define como de "memória e Direitos Humanos". Essa é a mensagem mais forte, argumenta, "houve tortura, repressão, mas houve resistência e houve o 25 de Abril". Quem não conhece a História, pode pensar que é um "museu triste", mas a directora quer que, pelo contrário, o museu "dê força", porque "apesar de ser numa prisão, existir um museu aberto a todos, em que se celebra a resistência e a luta pela liberdade, dá uma perspectiva optimista". Há uma mensagem de esperança de que "vale a pena lutar. A democracia e a liberdade foram conquistadas e hoje têm de ser defendidas", sobretudo quando "a democracia tem sido tão ameaçada".

Para inspirar todos os visitantes, Rita Rato convida a percorrer os corredores das certezas indiscutíveis (ou corredor do NÃO), da imprensa e rádio clandestinas, da luta anti-colonial, os tribunais políticos, a PIDE, os 14 curros ou gavetas, onde a comunicação através dos sons constituía uma mensagem de esperança. Pode escutar alguns pontos dessa viagem pela História, na reportagem TSF, num Museu que, nas palavras de Rita Rato, é um "lugar de excelência de defesa dos Direitos Humanos".

A autora não segue as regras do novo acordo ortográfico

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