"Amália foi vítima de inveja. Amália era odiada no meio do Fado"

Conheceu Amália Rodrigues na adolescência, pelo disco Fado Bailado de Rão Kyao. Quando o jornalista começou a ouvir que Amália, usada pelo Estado Novo como propaganda, afinal ajudou vezes sem conta a resistência antifascista, decidiu investigar. A investigação resulta no livro "Amália, Ditadura e Revolução".

A Amália teve, ao mesmo tempo que era namorada e que era aproveitada pelo regime, e esta é a minha versão, teve atos clandestinos, necessariamente clandestinos, de grande importância, de grande humanidade e que só mostram que não adianta estarmos aqui a divinizar, a sacralizar porque as pessoas têm as suas costuras, tem as suas imperfeições.

Já aqui falaste que é um fascínio recente. De qualquer forma, aquilo que eu tinha escrito para esta pergunta era se já tinhas fascínio por Amália ou se ele foi crescendo também com esta investigação que resulta, inicialmente, de uma bolsa de investigação na Fundação Calouste Gulbenkian.

Sim, foi crescendo. Amália entra-me em casa pelo saxofone do Rão Kyao, em 1983, com Fado Bailado. E aquilo ficou-me. Eu fui comprando discos de Amália, não era um viciado, aliás, quando me vinham falar, em anos mais recentes, quando alguns especialistas me vinham falar de "ah porque ela tem uma versão daquele fado que não sei o quê", eu achava-os tolinhos. Como é que é possível? Quer dizer, basta ouvir uma vez este tema... e não! É de facto assim! Vale a pena ouvir cinco versões que a Amália tenha de um fado porque que são todas diferente. Quando eu parto para esta investigação e começo a perceber, durante aquilo que estava a fazer no âmbito da bolsa de investigação jornalística da Gulbenkian, que isto tem uma outra dimensão, que isto é muito mais do que eu alguma vez imaginava, inclusive o pós 25 Abril, tudo aquilo que ela passou pelas suas alegadas simpatias com a ditadura... Bem, o que me é dado a ouvir e que me é dado ver a seguir ao 25 de Abril, tudo aquilo que ela sofre nesse período, mostra-me que isto vale. Isto é um caminho que tem muito para andar.

A Amália conseguiu mesmo aquilo que disse há "Modas e Bordados", em 1976, e que citas no início do livro, aguentou sempre as consequências de ser livre?

Sim, eu acho que isso é, isso é profundamente verdade. Ou seja, mesmo os seus atos clandestinos em plena ditadura, de ajudar os presos políticos, de saber que determinadas verbas iam inevitavelmente passar ao PCP, são atos de grande independência de alguém que supostamente estava tão dependente do regime como se dizia. É alguém que, mesmo enfrentando todas as calúnias no pós 25 de Abril, e acusaram-na como sabes de ter sido cúmplice da PIDE e de ter sido na prática a cantora daquele regime, ela resiste a isso...

... Portanto, a rapariga muito pobre de Alcântara aprendeu línguas estrangeiras com marinheiros embarcadiços, rapidamente começou a frequentar palácios e mansões, foi apadrinhada por Ricardo Espírito Santo que por ela tinha aparentemente uma paixão assolapada, é utilizada como instrumento de propaganda pelo ministro António Ferro. Foi uma espécie de postal bonito do Portugal que escondia a miséria, que escondia a pobreza, que escondia... que era feio para o regime. Mas foi utilizada ou deixou-se utilizar? Ela dirá "se o regime me aproveitou eu não o senti". Isso é mesmo isso? Ou uma pessoa inteligente ou esperta como ela...

Muitas das entrevistas da Amália são uma absoluta encenação.

Está a vestir a personagem?

Está a vestir muitas vezes essa personagem. Mesmo quando... quando ela diz que não sabe o que é que cantou - e diz até ao fim da vida -, ela nunca assume que sabia, e deu dezenas de entrevistas sobre isto, nunca assume que sabia o que era o Fado de Peniche. E há uma viagem a Peniche, - para além de outros testemunhos -, mas há uma viagem a Peniche, ainda nos anos 60, com um ator felizmente que está vivo, o António Évora...

... Peniche, cadeia de presos políticos...

... Cadeia de presos políticos. Eles eram amigos e vão a Peniche e ela diz-lhes: "vocês pensam que eu não sei o que é que cantei quando falei disto mas eu sabia perfeitamente, não sou nenhuma estúpida". E, portanto, é verdade que ela foi usada e deixou-se usar, é um facto. Eu acho que o que morou sempre ali foi de facto um coração independente e ela deu muitas provas disso.

O que não quer dizer que Amália fosse indiferente aos que mais sofriam com aquelas condições de vida e com aquelas políticas?

De todo! Há imensas provas disso. Aliás, uma das maiores testemunhas disso é uma amiga de infância dela que é a Alda Nogueira, dirigente clandestina do PCP na altura, e que várias vezes recorreu a ela em situações difíceis para a luta antifascista. Foi lhe pedir dinheiro para grevistas, foi-lhe pedir dinheiro que ia, inevitavelmente, parar ao PCP e a Amália não só não se recusava, como lhe chegou a indicar nomes ou portas a que ela poderia ir bater. E há até um episódio, que ela chegou a contar à Maria Teresa Horta, em que ela apanha a Amália desprevenida, num dia que lhe vai pedir dinheiro, e a Amália não tem dinheiro disponível e dá-lhe um dos mais preciosos anéis que tinha para ela vender. Mas há muito mais do que isso.

A história das ajudas através do cabeleireiro Manuel de Brito é deliciosa. Quando ele diz "Amália, temos um problema", e ela diz "oh Brito não ouço nada, tenho a tinta no cabelo, a minha carteira está ali"...

... sim, está ali ao fundo (risos)...

.. e vai lá buscar o dinheiro.

Como há outros episódios do género. Há muita gente de esquerda que lhe tenta fazer a cama mesmo convivendo lá em casa. E há muita gente de direita que não a considera sua. Há o momento em que o David Mourão-Ferreira e o Alain Oulman, em casa dela, a chamam a um canto como fizeram várias vezes e lhe dizem: "Amália, há uma pessoa que está a precisar da nossa ajuda, um preso político na prática." E ela pergunta: "Sim senhor, quanto é que precisam?" Eles lá lhe dizem, e não sei se é o David ou o Alain que lhe tentam explicar quem é a pessoa e ela "não me comprometam. Se vocês dizem que a pessoa precisa, e eu acredito que precisa, não me digam quem é, o que faz ou o que é!"

O que também é uma prova de como conhecia bem os códigos de funcionamento desse tipo de coisas.

A colaboração só é possível porque ela percebe perfeitamente esses códigos.

E depois da Revolução? Chamas a um dos capítulos "As Portas que Abril fechou"?

Sim, uma ironia com um célebre poema do Zé Carlos Ary dos Santos. Porque de facto muita gente de esquerda militante se afastou nessa altura dela. Aquilo que fazem a Amália nesse período é fruto de várias coisas. Primeiro, não há uma ordem, como muita gente pensa, não há uma entidade coletiva chamada PCP que decide, numa reunião, vamos atacar a Amália. Isso não existe. Estas ajudas, ainda que significativas e muito variadas ao longo do tempo, são conhecidas de núcleos muito restritos. Portanto, há gente nova...

... E depois há mudanças geracionais e as pessoas não conhecem...

Exatamente. E isso não é uma coisa que se fale com muita frequência. Aliás, até eu começar este trabalho, era uma coisa que surpreendia ainda muita gente e muita gente me disse "Não é possível!" E é possível!

O que é que mais aprendeste sobre Amália com esta investigação?

Aprendi muito sobre a dignidade humana. Uma pessoa que é acusada, a seguir ao 25 de Abril, de ser a cantora do regime, que é acusada de ser cúmplice da PIDE, que tem nas ruas de Lisboa, nas montras de Lisboa, nos jornais, acusações diárias de que se vendeu, de que serviu aquele regime, que denunciou pessoas à PIDE, porque isto foi dito por pessoas muito letradas deste país. Uma pessoa que resiste a isto sem ter a tentação de vir a público [dizer] - "Olhem lá que eu fiz, que eu dei, que eu contribui para se defender", só merece a minha reverência. Também devo dizer que neste processo, nesta investigação, me caíram algumas figuras do pedestal. A Amália foi vítima, obviamente, de militância comunista. Também foi vítima de muitas figuras ligadas a outros movimentos de esquerda, foi vítima de muitos intelectuais e também foi vítima, e essa para mim é a principal causa do que aconteceu nesse período, foi vítima de inveja. De gente que disse - "não, desculpa lá, agora esperas, chegou a nossa vez."

Gente do meio?

Gente do meio! A Amália era odiada no meio do Fado!

Era odiada no meio do Fado?!

Sim. Hoje, como diz o Rui Vieira Nery e muito bem, hoje vai-se a qualquer casa de fado e 'Ai a Senhora Dona Amália', é quase a Senhora Nossa Senhora de Fátima. Mas a verdade é que a Amália era odiada no meio do Fado.

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