Cem anos de Amália. As imagens que eternizaram a voz do fado

Nascida há cem anos, em Lisboa, Amália Rodrigues protagonizou a mais fulgurante carreira musical do século XX em Portugal. A opinião é de investigadores e antigos colegas. Para a memória ficam as imagens de uma carreira recheada de êxitos dentro e fora do país.

Nascida há cem anos, em Lisboa, Amália Rodrigues protagonizou a mais fulgurante carreira musical do século XX em Portugal. A opinião é de investigadores e antigos colegas. Para a memória ficam as imagens de uma carreira recheada de êxitos dentro e fora do país.

O escritor Miguel Esteves Cardoso e o editor discográfico David Ferreira justificaram à Lusa este êxito, dentro e além-fronteiras, como revelador da sua voz e da "inteligência com que Amália cantava".

Uma carreira fulgurante, sem equiparação anterior, como a própria reconheceu. Passo decisivo, foi a sua primeira atuação no Olympia, em Paris, em 1956, na festa de despedida de Josephine Baker, e que Amália apontava como o início de uma imparável carreira internacional de sucesso, sem paralelo nacional.

"De Paris parti para o mundo", afirmou Amália em várias entrevistas.

O técnico de som Hugo Ribeiro, que gravou quase todos os seus discos em Portugal, recordou, numa entrevista à Lusa, que na década de 1990, Amália foi convidada para uma digressão ao Japão, "mesmo sem cantar, queriam só ver a senhora".

Todavia o percurso internacional de Amália Rodrigues começou antes do Olympia.

O nome da fadista era frequente nos espetáculos patrocinados pelo Plano Marshall (programa norte-americano de apoio à reconstrução da Europa, após a II Guerra Mundial). Será aliás num destes programas, realizado em Dublin que a canção "Coimbra", de Raul Ferrão, iniciou também a sua imparável internacionalização. A canção tinha sido estreada no filme "Capas Negras", por Alberto Ribeiro.

Segundo uma biografia publicada em 2005, pela editora Planeta Agostini, "Amália Rodrigues estabeleceu uma rede de afetos com a Língua Portuguesa, atuando nos mais variados palcos do mundo", tendo cantado autores como David Mourão-Ferreira, Cecília Meirelles, Teresa Rita Lopes, Pedro Homem de Mello, Luís de Camões, António Feliciano de Castilho, Alexandre O'Neill e Luís de Macedo, entre outros, como os poetas trovadorescos ou João Linhares Barbosa.

Amália gravou também noutras línguas, apesar do seu confessado receio de "falhar na pronúncia".

O editor discográfico David Ferreira salientou à Lusa que, "quando Amália cantava noutras línguas, não estava a fazer variedades, era a sério, e era extraordinária".

A fadista atuou com estrondoso sucesso no México, nomeadamente cantando 'rancheras', a ponto de pesquisarem a sua genealogia para averiguar se teria raízes mexicanas.

Em 1954, nos Estados Unidos, atuou pela primeira vez na televisão e gravou um álbum de fado e flamenco, género que muito apreciava e com o qual se identificava, tendo afirmado: "Sou uma cantora ibérica".

A criadora e autora de "Estranha forma de vida", que gravou no Fado Bailado, de Alfredo Marceneiro, atuou com êxito também no Japão, Itália, ex-URSS, Roménia, Israel, Líbano, Espanha, França, Itália, China, Canadá, Brasil, Bélgica, Grécia, Suécia, Países Baixos, Timor-Leste e nas então províncias ultramarinas, entre outros territórios.

Amália foi "a nossa maior embaixadora" como se lhe referiu o Presidente da República Mário Soares, no seu último espetáculo em Lisboa, em 11 de dezembro de 1994, no Coliseu dos Recreios.

Amália desde a sua estreia, em 1939, no Retiro da Severa, até ao seu discreto recolhimento, na década de 1990, na sua casa em S. Bento, em Lisboa, teve sempre pessoas que a seguiam e "a idolatraram". "As cartas nunca pararam de chegar a São Bento", recordou, anos mais tarde, a sua secretária e amiga Estrela Carvas.

A fadista morreu na sua residência em Lisboa, em 06 de outubro de 1999. O Governo decretou três dias de luto nacional. Foi a primeira mulher a estar sepultada no Panteão Nacional, desde julho de 2001.

A sua interpretação, nos mais diferentes registos, do fado tradicional ao fado com refrão, à canção ligeira ou folclórica, continua hoje a ser uma constante descoberta para as novas gerações, fonte de inspiração e "uma referência incontornável", "padrão de subida qualidade pelo qual todos se aferem", como afirmou o estudioso de fado Luís de Castro.

Amália "deu ao fado uma ressonância universal", afirmou, em 1991, o Presidente francês François Mitterrand, e foi, nas palavras do ator Raul Solnado, "o mais extraordinário fenómeno do nosso tempo".

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