Concertos porta a porta. Avós do Rock não querem parar, mesmo sendo um grupo de risco
Covid-19

Concertos porta a porta. Avós do Rock não querem parar, mesmo sendo um grupo de risco

A pandemia causada pelo novo coronavírus mudou o mundo dos espetáculos. Os grupos tiveram que se adaptar aos novos tempos, como é o caso do projeto A Voz do Rock, que há sete anos coloca idosos de Viseu a cantar músicas portuguesas deste estilo musical.

Os ensaios e os concertos da banda de roqueiros de terceira idade são feitos agora em formato reduzido e à porta de casas e lares de idosos. No confinamento parou tudo. Os trabalhos foram retomados depois do verão, num novo modelo, com regras de segurança um pouco mais apertadas.

A TSF acompanhou os novos dias deste projeto composto por 20 elementos. Apesar da pandemia e de fazerem parte de grupo de risco da Covid-19, nenhum idoso abandonou a banda de avós do Rock.

Na varanda da cozinha, nas traseiras da sua casa, Nazaré Bispo ensaia agora sozinha. Tem apenas a companhia do professor Ricardo Augusto. Ele está afastado da idosa, está de máscara, ela não para poder cantar à vontade.

Uma das músicas trabalhadas é "Toma o comprimido" de António Variações, Nazaré diz, entre risos, que já tomou o comprimido "de manhã". Esta avó do Rock preferia que tudo fosse diferente.

"Eu acho que isto é um bocadinho esquisito. Queria que entrassem, mas o senhor professor gosta de vir para aqui [para a varanda da cozinha] porque tem medo que me contagie com qualquer coisa, mas eu não tenho medo", afirma.

Os ensaios lá vão decorrendo, como um remédio para a solidão, aumentada por um inimigo invisível, um vírus que parou e assustou o mundo.

"Para mim distrai-me um bocado. Já fico um bocadinho mais alegre, mais bem-disposta, porque senão estou para aqui sempre fechada", refere, em jeito de lamento.

Com o vírus à solta os ensaios são um novo desafio para o A Voz do Rock. O projeto teve que se reinventar e deparou-se com novas dificuldades.

"O facto de estarmos separados por uma varanda ou por alguns metros não é o que torna as coisas mais difíceis. Neste momento, a maior dificuldade que eu sinto é a questão das máscaras porque a leitura de lábios, das expressões que fazemos que a gente faz quando está a cantar, ajudava muito o processo de aprender a canção e agora isso não acontece", explica o professor Ricardo Augusto.

A surdez de alguns idosos pode ser também um problema, mas nesses casos há que falar mais alto e repetir as coisas.

Para além da casa dos próprios utentes, e dos lares onde alguns residem, os ensaios do projeto passam também pela incubadora de indústrias criativas instalada no centro histórico de Viseu.

Numa das salas do edifício encontramos cinco idosas, afastadas umas das outras, de máscara e de janela aberta, a ensaiar uma nova música criada para o grupo pela banda The Dirty Coal Train. "Num bairro em Viseu" é uma das frases mais repetidas na canção.

À TSF Lizete Vieira e Castro, que que integra o coletivo desde o início, recorda com orgulho todos os concertos que já deu. E diz que já tinha saudades de estar com as suas amigas, as outras avós do Rock.

"[Isto] faz muita falta porque isto é bom, a gente vai se divertindo, vamos cantando. Lá diz o povo que quem canta seus males espanta", atira.

Também se espanta o medo da Covid-19, acrescenta Nazaré Cardoso, que integra igualmente o projeto.

Com uma gargalhada assegura que a garganta aguenta ensaios e concertos, mesmo de máscara.

"Com a voz rouca do rock aguentamos sempre, se não for mais fina, mais grossa", frisa.

Os seniores que integram o projeto só pensam em voltar a pisar grandes palcos. Enquanto isso não acontece, A Voz do Rock dá concertos porta a porta, na entrada de casas e lares de idosos, num formato novo que está a deixar surpreendida Ana Bento, outra das professoras do grupo.

"Correu muito bem, é uma logística diferente, num formato portátil, levamos um amplificador a pilhas, microfone, guitarra elétrica e uma bateria mais pequena e conseguimos rapidamente andar com aquilo de porta em porta. Tem sido uma emoção muito grande, as pessoas ficam muito emocionadas por nos receberem, muito surpreendidas e é também um momento muito divertido", sustenta.

As atuações ao ar livre são para manter "sempre que o tempo o permita e rondando os intérpretes".

"É mais saudável levar apenas dois cantores e vamos fazendo esse esquema de pares que vai rodando entre os vários elementos para todos terem essa experiência", detalha.

O Centro Social e Paroquial de Rio de Loba foi uma das instituições que já recebeu um concerto porta a porta. A atuação decorreu à entrada das instalações, com os idosos do lar na varanda, que serviu desta vez de plateia.j

Os artistas, duas idosas e os dois professores de música, atuaram de máscara e à distância.

O concerto durou cerca de 20 minutos. O público sénior foi interagindo e aplaudindo.

"Os nossos utentes estão fechados, devido a esta pandemia, há oito meses e portanto tudo o que for possível para lhes dar um dia diferente é isso que queremos. Deu para ver a alegria deles", afirma a diretora técnica da instituição, Liliana Damião.

Também uma das cantoras de serviço, Maria Eduarda Fernandes, ficou duplamente satisfeita. Por ter voltado a cantar com a banda e por ter visto a alegria dos utentes do lar.

"Já me estavam a fazer falta [estas atuações]. Estou feliz por mim e por eles. Eles não viram o nosso sorriso, mas nós vimos o deles", conclui.

LEIA AQUI TUDO SOBRE O NOVO CORONAVÍRUS

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