Da prisão à morte por Covid-19. Quem foi Sepúlveda, o escritor que queria ser leitor de profissão

O escritor chileno Luís Sepúlveda morreu esta quinta-feira vítima da Covid-19. Tinha 70 anos.

Luís Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, a 4 de outubro de 1949. Foi para Moscovo estudar em 1969, com uma bolsa de cinco anos, mas, ao fim de cinco meses, foi expulso por mau comportamento.

Regressou a Santiago do Chile, filiou-se no Partido Socialista e acreditou no novo Chile que Salvador Allende queria construir. Integrou o GAP - o Grupo de Amigos Pessoais do Presidente - responsáveis pela segurança de Allende durante os mil dias de governo.

Durante o golpe de estado de 1973, foi preso, passou para prisão domiciliária e conseguiu fugir.

Viveu na clandestinidade, criou um grupo de teatro que se tornou no primeiro foco de resistência cultural à ditadura de Augusto Pinochet. Foi novamente detido e condenado a 28 anos de prisão por traição e subversão.

Com a intervenção da secção alemã da Amnistia Internacional, a pena foi, assim, convertida em oito anos de exílio.

Em 1977, rumou à Suécia para ensinar literatura espanhola, mas nem chegou à Europa, porque na escala em Buenos Aires fugiu e refugiou-se no Uruguai.

Passou pelo Brasil, Paraguai e Equador e chegou mesmo a viver numa região remota da Amazónia para observar o impacto da colonização nos índios shuar.

Era amigo de Chico Mendes, um símbolo da defesa da Amazónia e foi a ele que dedicou "O Velho Que Lia Romances de Amor", obra que lhe valeu reconhecimento internacional.

Em 1979 juntou-se à brigada internacional Simón Bolívar para combater a ditadura na Nicarágua.

Viveu na Alemanha, França, até se estabelecer definitivamente em Espanha nas Astúrias.

Escreveu romances, contos, artigos, para pequenos e grandes leitores e tem toda a obra traduzida em Portugal.

"História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar", "Mundo do Fim do Mundo", "Patagónia Express", e "Encontros de Amor num País em Guerra" são alguns das obras do autor que conquistou vários galardões ao longo da carreira, incluindo o Prémio Eduardo Lourenço em 2016.

Sempre se considerou mais leitor do que escritor e confessava ter pena de não existir a profissão de leitor.

Tinha, por isso, um sentimento de gratidão para com todos os escritores com quem aprendeu.

Sepúlveda estava internado desde finais de fevereiro num hospital de Oviedo, em Espanha, onde foi diagnosticado com aquela doença. Os primeiros sintomas ocorreram dias antes, quando esteve no festival literário Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim.

A confirmação de que estava infetado com a Covid-19 levou, na altura, o Correntes d'Escritas a recomendar uma quarentena voluntária aos que participaram no festival e estiveram em contacto com o escritor chileno.

O último livro publicado do escritor chileno conta uma história de guerra, tortura e perseverança. Foi o regresso de Luís Sepúlveda ao thriller. Chama-se, como se de um presságio se tratasse, "O fim da história".

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