"Dar de Beber aos Olhos." A homenagem ilustrada ao "mano Cotrim"

A partir deste sábado, o Espaço Ilustração, em Setúbal, passa a chamar-se Espaço João Paulo Cotrim. A primeira mostra é a homenagem de 11 artistas que trabalharam com ele. São 22 ilustrações, algumas desenhadas para a ocasião, que recriam a figura e o talento do escritor e editor da Abysmo, que faleceu em dezembro. Uma das frases desenhadas nas ondas da rádio por José Teófilo Duarte, curador da exposição, diz quase tudo: "É uma forma que nós temos de tentar estar com ele, estando uns com os outros."

Cotrim, "O Principezinho", ou Cotrim "Coruja", Cotrim, qual pena que bebe do tinteiro, as melhores palavras para cada ocasião, os olhos arregalados, o corpo grande, o grande Cotrim, o Infinito João Paulo Cotrim.

De André Carrilho a Cristina Sampaio, que aqui nos ajudam a decifrar os talentos, e os olhares despertos de um amigo "a quem devemos muito", são 11 os ilustradores convidados para a Festa da Homenagem, na Casa da Cultura, em Setúbal. André Letria, Marta Madureira, Nuno Saraiva, António Jorge Gonçalves, Osmani Simanca, João Fazenda, André da Loba, Pierre Pratt e Alain Corbel.

De fevereiro a março, os 22 desenhos param quietos, para "Dar de beber aos olhos", expressão encontrada por José Teófilo Duarte, lendo textos de João Paulo Cotrim, em busca das palavras que dariam nome à exposição. "Ele era um homem da palavra, os títulos à la Cotrim eram conhecidos, tropecei nesta expressão, e assim que bati nela pensei, é este o título."

Lá o vemos, sentado, numa fotografia tirada no local, numa das últimas edições da Festa da Ilustração, como quem pensa e prepara a mostra de outubro, que este ano lhe vai ser dedicada. Sobre isso vão falar no sábado, e há tempo. As saudades é que turvam o olhar e as palavras. "Um homem culto, sem pitada de chatice ou banalidade, às vezes venho para Lisboa, e olho para o relógio, a ver onde vou almoçar com ele, depois bate-me. Ainda não nos convencemos que não o voltamos a ver."

"Eu pedi desenhos de uma forma livre, como o João Paulo faria, mas eles (os ilustradores) sentiram necessidade de o desenhar. Eles não querem desiludir", assegura José Teófilo Duarte, a quem os 11 ilustradores enviaram para a caixa eletrónica todos os trabalhos: "Quando abro o correio é como estar a vê-lo, fico com as lágrimas nos olhos. Estou a gerir isto com pinças."

O ilustrador André Carrilho sublinha "a capacidade de sonhar que o caracterizava", por isso o plantou, qual Principezinho, num planeta de cravos vermelhos, anotando o tanto que o fazia olhar em volta. "Eu quis evocar a extrema cultura que ele possuía, o seu olhar deslumbrado e inocente, e a importância do desenho na sua vida, sendo ele um homem do texto. A minha geração deve-lhe muito." E fala de um urso gigante, ao qual se abraça muitas vezes: "Eu quando era pequeno queria muito um urso gigante e nunca tive, ele sabia dessa história e quando a minha filha nasceu, creio que foi por isso que lho ofereceu. Era também muito afetuoso."

Cristina Sampaio tenta desenhar o infinito. Rodeada de fotografias do amigo, desabafa o sentimento e a pulsão por pegar no telefone e perguntar-lhe: "O que é que tu achas? Estás parecido? E isso já não é possível." Desafiada a descrever o desenho, ainda não concluído, esboça o sorriso na tentativa das palavras "olhos arregalados, enormes, de uma expressividade incrível, duma doçura e inteligência, depois aquele corpo gigantesco. Para além desse retrato físico, eu vou tentar retratar o infinito que ele era. Uma pessoa de infinitas qualidades criativas, e o retrato pode ser isso, o João Paulo até ao Infinito".

"Dar de Beber aos Olhos" é a primeira de muitas homenagens a João Paulo Cotrim. A exposição está na Casa da Cultura, em Setúbal até março. Ou até ao infinito.

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