De estiradores a água destilada. A doação que entregou à Santa Casa um gabinete de restauro

O Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa guarda mais de quinhentos anos de história da instituição e, graças a uma benemerência, tem agora um gabinete de restauro e conservação que se dedica a preservar cinco séculos de existência.

Todos os dias passam pelas mãos de Carolina Capucho mais de 500 anos de história. Trabalha como conservadora/restauradora no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que guarda milhares de documentos desde a fundação da instituição.

"Desde o recibo de vencimento, desde uma fatura de uma aquisição de fraldas, desde uma fatura de aquisição de linhas para costura das batas que se faziam antigamente para as amas", enuncia Carolina Capucho, para explicar que a Misericórdia tem "de tudo um pouco".

Há coisas mais valiosas do que outras mas para Carolina Capucho todos os objetos contam uma história que vale a pena conhecer, a começar pelos 87 mil sinais dos bebés abandonados na roda da Misericórdia. "É claro que os sinais dos expostos têm um valor documental muito próprio, porque são crianças que são deixadas na roda e não são deixadas facilmente. Portanto, isso toca-nos sempre de forma muito emocional".

Ainda assim, a conservadora garante que há documentos "engraçadíssimos" que contam um pouco da história de Portugal, nem que seja através de um recibo da compra de um botão. "Por exemplo, a descrição da aquisição de botões com uma mistura de bronze com cobre para colocação num sítio qualquer mas, que nos dias de hoje, nós só colocamos 'aquisição de botões'. E como eram os botões do século XXI? E como eram os botões do século XIX? Nós sabemos como eram os botões do século XIX e não os do século XXI e isto é importantíssimo. Este é o lado da história que nós também gostamos de conhecer."

Mas nem só de botões se faz este espólio. Há algumas alfinetadas dignas de um bom corte e costura que Carolina Capucho descobriu enquanto trabalhava em processos de casamento, já que a Misericórdia era fonte de dotes para raparigas pobres em idade de casar. "Temos uma carta que é entregue por uma vizinha a dizer que aquela senhora não é assim tão respeitosa porque vai sempre à missa ao domingo mas, quando sai da missa, não percorre o mesmo percurso para casa que nos outros dias da semana e que não sabemos quem encontra pelo caminho. Acontece um em cada mil processos de casamento mas acontece. E isto é muito engraçado de saber. Que a Santa Casa pudesse saber que, se calhar, esta senhora não era tão séria e não merecia um dote".

Os dotes e princípios de um conservador/restaurador

Os dotes de Carolina Capucho são postos em prática todos os dias nem que seja para decidir que não fazer nenhuma intervenção no objeto. "Há sempre um princípio de intervenção mínima, que é mexer o menos possível no documento, acrescentar-lhe o menos possível, dando-lhe vida. E a ética do conservador restaurador que é não pôr nada de novo, disfarçando o documento ou enganando o utilizador ou o leitor."

Quando decidem avançar para o restauro de um documento, a conservadora explica que o mais importante é respeitar a origem do objeto e as suas características. "Não vou acrescentar adesivos ou colas que não tenham a ver com aquele papel, não vou acrescentar fibras que não sejam ou de papel ou fibras têxteis que foram usadas na sua origem, na execução, porque não faz sentido", explica.

Carolina Capucho trabalha há nove anos no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia mas quando chegou ainda não havia um gabinete técnico para restauro. Foi uma benemerência que permitiu à Santa Casa equipar o espaço.

De restauradora e benemérita

A doação chegou pelas mãos de uma antiga colaboradora da instituição. Maria José Passanha fez carreira como conservadora/restauradora, teve ateliê próprio e trabalhou de forma externa para a Misericórdia até que se reformou. Sem saber o que fazer ao equipamento que a acompanhou durante a profissão, decidiu doá-lo à Santa Casa. "Foi desde dicionários de identificação de autores, ao meu arquivo pessoal de todos os trabalhos que passaram pelas minhas mãos. Para mim foi um grande reconhecimento do meu trabalho. Depois foi as tinas de lavagens, desde os bisturis aos pincéis, aos produtos químicos ao estirador. Tudo o que quisessem, veio para cá", explica com boa disposição.

A benemerência deu uma segunda vida ao equipamento de restauro e honrou décadas de profissão."Quando se chega ao fim de um trabalho que eu gostei imenso de fazer, em que se olha para objetos, isso não pode morrer."

A doação foi muito bem-vinda pela restauradora Carolina Capucho que pôde pôr em prática novas técnicas mas também pela Misericórdia que deve muito do património móvel e imóvel às benemerências. "Hoje em dia continua a receber, há cinco séculos recebia benemerências e são muitas destas benemerências que também nos permitem fazer o trabalho que a Misericórdia faz nas suas diversas áreas de intervenção. Por exemplo, em património edificado, permitem que a área social continue a ter desenvolvimento e crescimento, a área da educação também", explica Carolina Capucho.

Hoje, Maria José Passanha vai acompanhando o trabalho do gabinete de restauro mais à distância e recorda que é "preciso muito respeito" pelos objetos que cada restaurador trata, independentemente do valor histórico ou financeiro da peça. "Eu cheguei a restaurar uma tampa de uma caixa de bombons. E eu disse à pessoa: 'custa-me fazer isto como uma gravura, mas isto não vale nada'. E ela disse: 'vale, vale porque isto foi-me dado pela minha avó.'"

Agora, depois de reformada, Maria José Passanha recorda o amor que tinha à profissão que sempre tentou desempenhar com dedicação: "Eram filhos que passavam por mim".

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