"Continuamos a ser o parente pobre da política de apoio ao cinema em Portugal"

Esta quarta-feira celebra-se o dia destas estruturas culturais, que nasceram para defender o cinema de autor. Nesta data a TSF foi conhecer o Cine Clube de Viseu, um dos mais antigos do país.

Os Cine Clubes queixam-se da falta de apoios do Estado em tempos de pandemia. Tal como outras manifestações artísticas, o cinema foi fortemente afetado pela pandemia e pelos dois confinamentos a que o país assistiu. Os Cine Clubes não deixaram de trabalhar, ainda que muitas atividades tenham sido suspensas e do Estado não vieram quaisquer ajudas.

"Infelizmente, o que constatamos é que não se encaram estes espaços alternativos como muito importantes, porque não há medidas concretas. Nunca fomos contactados por ninguém a perguntar se precisávamos de apoio para álcool gel ou para vinil, ou para ajustar [alguma coisa]. Não somos uma preocupação do Ministério [da Cultura] ou de outras esferas", lamenta Rodrigo Francisco, da direção do Cine Clube de Viseu.

Segundo este dirigente, os apoios estatais foram direcionados mais uma vez para a produção cinematográfica. Rodrigo Francisco não está contra esta opção da tutela, mas defende que tem que haver outra estratégia no país porque não podem ser feitos apenas filmes, é também preciso pensar na promoção e divulgação desses mesmos trabalhos.

"Uma estratégia consequente implica perceber que existir produção sem depois existirem estruturas que proporcionem sessões ao público é uma estratégia absolutamente equívoca. Continuamos a ser claramente o parente mais pequeno, mais pobre, da política de apoio ao cinema em Portugal e parece que [isso] está para durar", critica.

O confinamento impôs duas prolongadas pausas na exibição de filmes. As salas continuam encerradas, só a 19 de abril, com o início da terceira fase do plano de desconfinamento é que as sessões públicas serão retomadas. Num regresso do cinema que pode ficar marcado pelo encerramento de muitas salas independentes e até de auditórios municipais.

"Se não protegermos estes espaços, que defendem o cinema português, europeu, lusófono, de novos autores, estamos a deixar uma franja importante de público sem um cinema que é e sempre foi muito importante", defende.

Na opinião do dirigente do Cine Clube de Viseu, é "um equívoco" pensar que público agora esta rendido e só quer ver filmes em streaming e nas novas plataformas de visualização online.

"É evidente que quer streaming porque é a primeira vez que as salas fecham, portanto é evidente que todos nós continuamos a querer ter acesso a filmes. Mas é um equívoco pensar que essa transferência se dá de uma forma natural ou que está estabilizada", argumenta, acrescentando que para as sessões de cinema continuarem a ser feitas por todo o país são necessários apoios e também espetadores.

Mais de meio século de atividade

O Cine Clube de Viseu foi fundado há 65 anos. Atualmente, está instalado em pleno centro histórico da cidade, mais concretamente na Rua Escura, o que não deixa de ser simbólico, uma vez que remete para a sala escura onde são projetados os filmes no grande ecrã.

A instituição ocupa o número 62, um edifício cedido pela Câmara Municipal. O espaço de trabalho é também uma espécie de museu. No chão e nas paredes vemos cartazes de filmes, o Cine Clube tem mais de 1200 em arquivo, películas, bobines, há até duas máquinas de projetar em 16 mm, que estão avariadas.

A primeira exibição que fez foi a 16 de dezembro de 1955 no extinto Cine Rossio. "Passaporte para o paraíso" foi a primeira fita exibida. O filme escolhido foi, nas palavras de Rodrigo Francisco, mais "uma ironia".

Em média por ano, a associação exibe 30 a 60 filmes. Com cerca de 2 mil sócios, só uns 250 pagaram as quotas nos últimos 18 meses.

Tal como as restantes 30 estruturas do género existentes no país, o Cine Clube de Viseu pretende divulgar o cinema de autor, os filmes tidos como obras de arte, mas que não enchem salas, nem resultam em grandes receitas de bilheteira. Os objetivos por detrás de cada instituição são os mesmos, mas cada uma tem um modo de funcionamento diferente e promove atividades em função do território onde está inserida.

"São muito diferentes entre si porque têm uma resposta local, cada local tem um contexto diferente. Às vezes é preciso trabalhar com certas comunidades, outras vezes com escolas, outras vezes, como o caso de Viseu, ter uma das raras revistas de cinema em Portugal, o Argumento. Torna-se multifacetado o perfil do Cine Clube e isso é ótimo. Uma das coisas mais importantes é a dispersão geográfica. Os Cine Clubes têm garantido acesso até a comunidades do interior muito antes de movimentos pelo interior desta vida", refere.

Mais e novas atividades

Parte do trabalho de promoção do cinema foi interrompido pela pandemia. As sessões com o público estão suspensas desde janeiro. Alguns ciclos dedicados à sétima arte foram adaptados à nova realidade e transitaram para o online, sendo que algumas dessas sessões até tiveram debate no final da sessão.

Rodrigo Francisco acredita que este é um "período mais complicado para o cinema" enquanto manifestação artística e área de atividade do que para os Cine Clubes, que continuaram a fazer o seu trabalho educativo e social.

Exemplo disso, no caso da instituição sediada na cidade viseense, foi a programação especial que foi desenhadas a pensar nas instituições sociais.

"Fizemos chegar filmes que os responsáveis das IPSS projetaram e recebemos feedback como desenhos, fotografias desses grupos, com distanciamento, a assistir a filmes que nós programamos com algum cuidado", explica, acrescentando que foram exibidos documentários, filmes clássicos do cinema como Aniki Bóbó de Manoel de Oliveira e ainda animação portuguesa.

"Não sentimos que é só trabalho, é a necessidade de sermos um aliado da comunidade numa altura tão difícil para as pessoas sobretudo para as mais vulneráveis. Quisemos adaptar o trabalho às necessidades da comunidade com quem já trabalhávamos. Achamos que o papel de uma associação não é desaparecer nesta altura, é também acompanhar as pessoas", frisa.

Cinema para as escolas já chegou a milhares de pessoas

Iniciado em 1999, o projeto educativo Cinema para as escolas, desenvolvido no distrito viseense pelo Cine Clube, está agora praticamente parado e teve que sofrer uma alteração.

Com os estabelecimentos de ensino encerrados, a aposta recaiu no meio digital. Foram publicados nas redes sociais alguns tutoriais, que ensinam a fazer cinema. Os vídeos, que somam já milhares de visualizações, despertaram o interesse de professores, alunos e de famílias.

Já durante este mês de abril, o cinema regressa a uma escola de Cinfães. O projeto educativo deve voltar só em força no início do próximo ano letivo.

O programa em 20 anos já envolveu mais de 50 mil participantes. Por ano participam cerca de 40 escolas, sendo que algumas têm mais do que uma turma presente no programa, o que dá uma média de meia centena de classes por ano letivo.

"Uma das coisas mais interessantes é que começa com os jardins-de-infância e vai até à formação de professores, ou seja, não é um projeto de uma atividade [só]", adianta.

Sessões em sala regressam com antestreia de "Prazer, camaradas"

A exibição de filmes em sala regressa no dia 22 de abril, três dias depois do início da terceira fase do plano de desconfinamento. As sessões são retomadas com a antestreia do filme "Prazer, camaradas", de José Filipe Costa.

"Quisemos o regresso, em abril, com um filme de um realizador português próximo do Cine Clube, o filme é uma reconstituição ficcionada de alguns casos. Vai estrear em maio em sala e antes de estar disponível em mais cidades faz um périplo por alguns Cine Clubes, que são dos espaços onde é possível encontrar um público mais interessado em cinema português", sublinha.

Rodrigo Francisco garante que nem a Covid-19, nem as novas regras de segurança afastaram os espetadores.

Sem sala própria, o Cine Clube de Viseu utiliza o grande ecrã existente no auditório do Instituto Português da Juventude da cidade. Em média por sessão, mesmo com a pandemia, estão sempre cerca de meia centena de pessoas na assistência.

Vista Curta já recebe filmes a concurso

É também a pensar nesse público fiel, que a instituição continua a apostar no Vista Curta, um festival de curtas metragens, que nem o novo coronavírus parou.

"Este trabalho deste cinema mais alternativo junto do público é tão constante e necessita tanto de consistência, que uma quebra longa pode ser algo que tenha consequências sérias, por isso o Vista Curta quer continuar. Tem neste momento a call a funcionar, está a receber trabalhos, recebemos dezenas de curtas-metragens por semana", avança.

Os trabalhos vencedores só serão conhecidos em outubro.

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