Diabo na Cruz: "Falar do fim ou da morte não cabe no nosso dicionário"
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Diabo na Cruz: "Falar do fim ou da morte não cabe no nosso dicionário"

"Havia pessoas nos telhados das casas, não cabia nem mais uma alma ali à volta." É assim que Bernardo Barata, baixista dos Diabo na Cruz, recorda a primeira vez que a banda atuou no festival Bons Sons.

Quase dez anos depois, o grupo voltou à aldeia de Cem Soldos com um vocalista diferente, mas com a mesma missão: levar mais longe o roque popular.

"Queremos dar um espetáculo de rock que não é desprovido das nossas raízes. Isso sempre foi o lema de Diabo na Cruz e vai continuar a ser, pelo menos enquanto a banda existir", atalha o baterista João Pinheiro.

Numa década, muito mudou: o Bons Sons cresceu, a música portuguesa ganhou um novo fôlego e, mais recentemente, a própria banda sofreu transformações.

Quando Jorge Cruz, vocalista e letrista dos Diabo na Cruz, anunciou que estava de saída, o grupo teve de se reinventar e escolheu Sérgio Pires para substituir o vocalista até ao fim da digressão. João Pinheiro acredita, contudo, que a mudança de última hora não prejudicou os concertos.

"Conseguimos uma mudança de dentro sem ter de chamar ninguém de fora para colmatar a falta do Jorge. Os concertos têm sido impecáveis. A reação das pessoas tem sido impecável. E estamos a divertir-nos como sempre nos divertimos."

Apesar de terem anunciado que iriam "terminar a carreira da banda no final da Tour deste ano", os elementos do grupo acreditam que ainda é muito cedo para falar do fim dos Diabo na Cruz.

"Falar do fim da banda agora não faz sentido, porque o fim da banda foi anunciado, mas não para agora, foi anunciado para o fim da tourné. É um bocado difícil falar do fim de uma coisa que ainda existe. Para nós falar do fim ou da morte não cabe no nosso dicionário."

Os músicos veem com bons olhos o "estado da arte" em Portugal. João Pinheiro defende que "os músicos perderam um bocado a vergonha de cantar, de fazer música mais ligada às raízes" e que "o próprio público está mais aberto" ao que é feito no país.

"Quando viemos aqui pela primeira vez, este festival era um freakshow. E agora já há vários festivais que têm música portuguesa. O que mudou em dez anos é que isto já é normal, já ninguém questiona", explica Bernardo Barata.

Os Diabo na Cruz não se sentem os únicos responsáveis pela fusão da música tradicional com outros estilos musicais, mas admitem que "seria falsa modéstia" dizer que não tiveram influência na afirmação desse conceito.

Se tivesse de apostar num músico capaz de reinventar géneros como o malhão, João Pinheiro apontaria as fichas, sem hesitar, para um cantautor da nova geração.

"Eu diria já aqui: o Filipe Sambado. É claramente um músico em quem eu aposto que vai fazer um novo malhão, do ponto de vista simbólico, e que vai abrir esse caminho e tem essas referências que nós temos. O que interessa é a liberdade, é a diversão. Isto é rock. Isto não é uma coisa séria", remata.

A digressão dos Diabo na Cruz termina a 12 de outubro, em Lisboa. Até lá há concertos marcados em vários pontos do país e é "cedo demais" para falar no fim, porque (como diz a música) "ainda a procissão vai no adro".

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