"Estou num tal momento de espanto e de revolta que não consigo pintar nada"
Graça Morais

"Estou num tal momento de espanto e de revolta que não consigo pintar nada"

A segunda mulher a quem a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro atribui o doutoramento honoris causa, depois da escritora Agustina Bessa-Luís, fala de "uma enorme honra" e do reconhecimento "pela forma como eu vivo no mundo como mulher e pela obra que tenho feito como artista". Não tem pintado, mas sabe que a arte sobreviverá sempre "à barbárie dos tiranos" e, quando passar a revolta e o espanto, Graça Morais voltará a debruçar-se sobre a tela para deixar o seu testemunho "de liberdade e de resistência."

Conhece todos os lugares, "toda aquela paisagem me pertence, é a minha terra natal e é onde tenho as minhas raízes e as memórias que me dão enorme força para sobreviver ao caos. Aquele espaço é o meu atelier, é ali que vou buscar força". Graça Morais nasceu na aldeia do Vieiro, em Trás-os-Montes, e a universidade que hoje a distingue com o doutoramento honoris causa "fica muito perto do lugar onde nasci. Sinto uma grande responsabilidade política e social como artista e gostava - e a partir de agora ainda mais -, de contribuir para ajudar a que a educação no Ensino Superior ganhe cada vez mais importância para melhorar o ser humano. Quanto maior consciência tivermos e mais cultos formos, mais solidários nos tornamos e é isso que nos vai ajudar a lutar contra estes seres loucos".

A artista pincela com as palavras - e sem rodeios - a tragédia da guerra, segura de que "fará nascer um mundo novo, mas com uma memória cheia de sofrimento, porque é um verdadeiro inferno o que aqueles seres humanos estão a viver". Após a pandemia pintou pequenas telas, em exposição até setembro, no Centro de Arte Contemporânea em Bragança, com o seu nome. Chamou-lhe Inquietações. Mas hoje, perante os acontecimentos, confessa -se paralisada. "Na minha obra estou num momento de tal revolta, e de tal espanto, que nos últimos tempos não consigo pintar nada, fiquei num estado que não sei definir. É terrível vermos a destruição das cidades, das escolas, as mulheres que são violadas, é impossível ficarmos insensíveis a isso."

Sabe entretanto que não voltará à Rússia enquanto Putin estiver no poder. "Não voltarei mesmo", lembrando que numa das estações de metro há um painel de azulejos da sua autoria oferecidos pelo Governo português. "Conheço bem o país, a Rússia é um país de grandes pintores, artistas, músicos, tem gente extraordinária. Esta guerra não é com os russos, com as pessoas da cultura. Penso como é que eles estarão a viver este momento, com uma grande repressão e sofrimento, de certeza."

O tempo virá em que o apelo da arte ganha a força da liberdade e da resistência: "Voltarei a entrar no meu atelier e a fazer a arte que considero como um testemunho e uma resistência a esta tirania, porque eu estou sempre do lado da liberdade e da felicidade daqueles que a observam. Continuo a acreditar que a arte, a minha e a dos outros, pode melhorar a felicidade da humanidade, que é o que continua pelos séculos fora. Sempre houve, ao longo da história do mundo, tiranos e homens que destruíram outros seres humanos sem compaixão., mas também a arte ficou e é essa arte que continuamos a visitar. Somos herdeiros disso tudo, mas felizmente a arte continua, e continuamos a ler grandes clássicos, e a ver grandes cineastas e grande gente da música. Felizmente isto ultrapassa a barbárie dos tiranos."

A cerimónia de doutoramento honoris causa está marcada para as 15h00 desta quarta-feira e está prevista a presença do primeiro-ministro, António Costa, e da secretária de Estado do Desenvolvimento Regional, Isabel Ferreira. Manuel Heitor, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, é o padrinho da pintora.

A Homenagem ao sábio Eduardo Lourenço

O mural de azulejos há muito foi concluído, mas será a 23 de maio, dia do aniversário do filósofo, que a câmara de Almeida vai inaugurar a obra pintada por Graça Morais, homenageando Eduardo Lourenço. "Vai ser inaugurado num mês muito bonito, o campo está cheio de flores e aquelas paisagens brutais ficam cheias de plantas silvestres, eu acho que se ele fosse vivo ia ficar muito contente."

Ali, na praça de Almeida, onde Eduardo Lourenço completou a quarta classe, ficará a obra composta por azulejos da galeria Ratton Cerâmicas, a que a artista "deitou a mão".

Para Graça Morais, homenagear o filósofo é uma obrigação para o país: "É um sábio, sabia de coisas tão simples como de assuntos antigos, que eu ficava sempre fascinada quando o ouvia falar."

A moral, a integridade e a inteligência do filósofo são para Graça Morais a imagem "de um ser superior digno das maiores homenagens e nunca poderemos esquecer que ele existiu neste mundo e neste nosso país."

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