Evilution. A humanidade afunda-se no lixo e Bordalo II dá-lhe vida

O público vai poder ver as novas obras do Bordalo II a partir de sábado. São dezenas de retratos de animais feitos daquilo que os destrói: o plástico.

Formas para a praia, ancinhos, peluches, bonecas. Plástico, plástico, plástico. Hoje podem estar presos à pata de um esquilo, mas com sorte esse esquilo é uma obra do Bordalo II.

Durante dois anos, o artista plástico português reuniu toneladas de lixo e deu forma a mais umas dezenas de animais e explica porquê: "A ideia é dar uma voz a quem não tem. É quase como um tributo às personagens que são devastadas pela ação do homem e que viviam nesse espaço, onde a contaminação, o lixo, tomaram posse."

A partir deste sábado os bichos do Bordalo II podem ser vistos no Edu Hub, em Marvila, mas vai precisar mesmo de manter a distância de alguns dos animais. Há um panda no meio de centenas de pneus, uma macaca entre milhares beatas, e um puma entre quilos de garrafas de plástico. Mas para identificar estes animais vai precisar de dar largos passos atrás ou da ajuda de uma câmara fotográfica.

Se nas obras tradicionais de Bordalo, os "small trash animals" e os "big trash animals", impera a diversidade de materiais. Nesta nova série não interessa ao artista a diversidade de matérias-primas, mas sim "juntar o máximo de peças iguais", quase como píxeis. E esta "nova era", Bordalo II sublinha ser sinónima do "problema do lixo descartável e do single use of plastic".

E durante os dois últimos anos, enquanto os humanos estiveram em casa, os animais de Bordalo II passearam pelas ruas lisboetas, subiram e iluminaram telhados de prédios e até viajaram de metro e de comboio. Os registos desta ocupação só podem ser vistos por quem vista a caixa negra da exposição.

Evilution é o nome da nova exposição de Artur Bordalo, não é um erro, é o artista a questionar os novos tempos. Bordalo decidiu substituir "evol" (evoluir, em português) da palavra "evolution" (evolução), por "evil" (mal) e criou um novo termo: "Evilution".

"A evolução supostamente é algo bom, mas é mesmo? Pode não ser. Chegámos a um nível da nossa evolução em que já estamos em decadência. Nos últimos anos, mesmo a nível político e social estamos a andar para trás, há direitos que pareciam adquiridos", disse o artista plástico.

A Evilution traz obras inéditas do artista, novas experiências com madeiras e pedra. O que se mantém é o compromisso com a sustentabilidade.

"Quando eu trabalho com madeira, não vou procurar madeira nova para fazer as peças. Nós tentamos trabalhar com madeiras provenientes de demolições, por exemplo, dos prédios antigos de Lisboa. Para a pedra utilizamos desperdício de pedreiras", explicou.

Bordalo é 'segundo', porque o avô, o pintor Real Bordalo foi o primeiro a passar-lhe os pincéis para as mãos.

"Era ele a pintar no ateliê, a minha avó a trazer-lhe torradas e eu atrás dos pincéis a desarrumar aquilo tudo. Quando era pequenino ia para o estúdio dele chatear, ver e aprender", revelou.

Bordalo II cresceu no ambiente da desarrumação dos pincéis, mas hoje quer arrumar o mundo.

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