"Flor de Fumo": a poesia da afegã assassinada pelo marido chegou às livrarias
Literatura

"Flor de Fumo": a poesia da afegã assassinada pelo marido chegou às livrarias

Dezassete anos depois de ter sido espancada até à morte, os poemas de Nadia Anjuman são editados em Portugal, na primeira tradução ocidental da obra da poeta afegã que morreu aos 24 anos. Regina Guimarães entregou-se aos versos transpondo da tradução inglesa para português. O livro, com edição bilingue - dari/português- tem a chancela da editora Exclamação, de Nuno Gomes, que anuncia na TSF "um espetáculo de encontro entre as duas culturas", no início de março do próximo ano. O dia em que começa a primavera.

"Sou uma afegã, por isso o meu afã
é chorar-me o tempo todo"

Nadia Anjuman, poema Nada

"É uma mulher que está a falar para o mundo, mesmo fechada num buraco", começa por dizer a poeta Regina Guimarães, tocada pelas palavras de Nadia Anjuman, ora repletas "de uma esperança imensa", ora "perdendo muitas penas pelo caminho, e o golpe de asa que a fazia voar muito, muito alto, embora ganhe maturidade e uma dureza consigo própria".

O caminho de que fala Regina Guimarães, podemos percorrê-lo agora em "Flor de Fumo e outros Poemas", um mapa para o coração e para a realidade da violência exercida sobre as mulheres que chega às livrarias, num momento em que os protestos se agudizam no Irão após a morte de Masha Amini, e com o regime taliban de novo instalado no Afeganistão, reprimindo os direitos das mulheres.

"Isto é uma coisa muito delicada e a minha grande esperança é que a Nadia tenha muitos leitores, e que a partir do entusiasmo deles, haja oportunidade de fazer algo mais e traduzi-la a partir da língua original. Será essa a forma mais justa de entregar ao mundo a obra da Nadia. É uma primeira edição no mundo ocidental, mas também ficarmos quietinhos sem dar uma oportunidade a estas palavras de serem recebidas pelos corações e pelas cabeças das pessoas, que aqui no mundo ocidental estão muitas vezes a olhar para o próprio umbigo, pareceu-nos um empreendimento válido."

Nuno Gomes, da editora Exclamação, chegou à poesia de Nadia Anjuman através das redes sociais, precisamente há um ano, quando os Talibã voltaram a tomar as rédeas do poder no Afeganistão.

"Alguns poemas começaram a circular nas redes sociais e surgiram porque se adivinhava o que viria a seguir, com as restrições aos direitos das mulheres, e a Nadia aparecia como uma referência. Interessei-me por esta mulher, misteriosa para mim, e apreciei a coragem com que ela fazia uma escrita tão forte, e quis publicá-la em Portugal", explica.

É essa "aventura" que nos conta, e que só é possível, através da generosidade da poeta americana Diana Arterian, que em conjunto com Marina Omar, traduziram da língua persa para inglês, os poemas da autora afegã, sem nunca terem conseguido interesse ou vontade de qualquer editor em publicar a obra. Por isso se escreve, na tradução portuguesa publicada desde sexta-feira, em transposição e não em tradução. Semeando, como espera Regina Guimarães, novas vontades: "As traduções são efémeras e espero que possam surgir traduções mais próximas do original e mais esplendorosas. Um dia será possível, até porque há cada vez mais afegãos a viver em Portugal e poderão fazer esse exercício."

Nadia Anjuman nasceu na cidade de Herat, a terceira mais populosa do Afeganistão. Escreveu o primeiro poema aos dez anos, perante a injustiça de uma nota dada por uma professora. Foi uma das seis alunas da Escola Agulhas Douradas, onde clandestinamente se ensinava poesia, sob o disfarce de uma escola de costura. Mais tarde, após a invasão dos americanos ao Afeganistão e a derrota dos talibãs, frequentou a Universidade. Casou-se em 2004 e viria a morrer no último trimestre de 2005, vítima de espancamento do próprio marido, que a deixou quatro horas moribunda, até a transportar para o hospital.

O livro "Flor de Fumo" , publicado nesse ano, vendeu 3 mil exemplares. Capa dura, fundo verde, pétalas negras e um coração vermelho, assim se apresenta a edição bilingue e a primeira no mundo ocidental, editada pela Exclamação, de Nuno Gomes. "Esta capa tem muitas leituras, o verde da esperança, as pétalas negras e o coração vermelho que representam a dor e o pulsar da poesia dela."

Um grito pela liberdade de todas as mulheres oprimidas, "no mundo árabe ou no mundo ocidental", sublinha Regina Guimarães, comovida com a palavra de Nadia Anjuman, em busca da Primavera: "Como muitos poetas ela observa o ciclo das estações e teme desaparecer antes de gozar a sua primavera."

Não por acaso, a 21 de Março do próximo ano, "Flor de Fumo" sobe ao palco, num espetáculo que se realiza na Casa da Música "se tudo correr bem", celebrando o encontro de duas culturas. "Portugal albergou o Instituto de Música do Afeganistão e eles vão musicar poemas da Nadia", explica Nuno Gomes. "É o dia da poesia, e é também o primeiro dia de aulas no Afeganistão, e o primeiro em que as mulheres não vão poder ir à escola." E claro, a 21 de Março anuncia-se a primavera.

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