Alojamento letal. A especulação imobiliária é um assassino à solta

Álvaro Filho viveu um ano em Alfama, um dos bairros mais turísticos de Lisboa. A experiência inspirou-o a escrever o livro "Alojamento Letal", um policial que mostra que viver em Lisboa pode custar os olhos da cara (literalmente).

É um policial, mas é também um romance negro. É ficção, mas tem muitas semelhanças com a realidade. Tem crime, mas nem todos são literais. O livro "Alojamento Letal" de Álvaro Filho é uma obra cheia de "mas" que leva o leitor a refletir, numa montanha russa entre o riso e o desconforto.

"O livro pode ser lido como uma obra de ficção pura, mas eu espero que alguém o leia e faça uma reflexão sobre a realidade", explica Álvaro Filho à TSF.

Ao longo de 205 páginas, o autor conta a história do senhor Ming, um empresário chinês suspeito de matar os seus inquilinos para converter os prédios em alojamento local, os chamados "Crimes do Airbnb". Com Alfama como pano de fundo, o empresário tenta provar - com a ajuda de um escritor português de policiais - que não é o assassino "arrancador de olhos".

A história é "completamente inventada", embora já tenha sido várias vezes comparada com um caso recente e real. Há poucas semanas, um empresário chinês foi detido por suspeitas de ter ateado dois incêndios no Porto, um dos quais provocou a morte a um dos residentes. Álvaro Filho garante, contudo, que a história já estava pensada muito antes de a realidade ultrapassar a ficção.

"Quando a editora anunciou o livro nas redes sociais, as pessoas começaram a perguntar se tinha sido inspirada nesta história. Na verdade, não foi. O livro estava pronto antes. Identifiquei-me como autor do livro nesses fóruns nas redes sociais para tirar essas dúvidas: O livro não tem nada que ver diretamente com isso."

O escritor brasileiro visitou Portugal pela primeira vez em 2004 e mudou-se para Lisboa em 2016. Viveu num dos bairros mais turísticos da cidade e foi essa experiência que o inspirou a escrever o romance.

"Eu morei mais de um ano em Alfama. Tive esse privilégio que poucos lisboetas têm, porque é um local para turismo e eu vi de perto como é que funciona essa agressividade em relação à especulação imobiliária. Conheci pessoas que tiveram de sair, pessoas mais antigas, o que me inspirou a contar essa história de uma forma metafórica. O assassino em questão é a especulação imobiliária. É a corporificação desse fenómeno etéreo."

Apesar de a personagem principal ser um investidor chinês, e de o livro ser recheado de personagens de outros países, o autor sublinha que o livro não é uma crítica à presença estrangeira em Portugal: "Em nenhum momento eu quero gerar o sentimento de que há uma invasão ou de que este investimento não é natural. Apenas acontece. Houve um registo no livro, porque acontece. Não é uma invenção. É uma constatação. Não se trata aqui de uma crítica à presença estrangeira, de alguma forma, mas que ela existe."

Álvaro Filho reconhece ainda que "o alojamento local é muito importante para a economia portuguesa", mas não quer que Lisboa se torne uma cidade cristalizada e igual a tantas outras.

"Quando se viaja para locais históricos na Europa tem-se a sensação de se estar sempre no mesmo lugar, porque se gera um cenário muito familiar. Apesar das diferenças arquitetónicas e culturais, as lojas são as mesmas, as pessoas hospedam-se em apartamentos muito parecidos e isso tira um pouco do brilho que a cidade tem a oferecer", defende.

O vencedor do prémio Novos Talentos Escrita FNAC 2018 vai mais longe e convida "os senhorios de alojamento local a ler o livro, porque esta é uma história que pretende divertir e, de certa forma, prender o leitor, mas também chama para a reflexão"

"Todo o gesto seu é um gesto político" explica o autor quando questionado se este é um livro político. Álvaro Filho lembra, no entanto, que a obra não foi escrita para cumprir nenhum tipo de programa: "Eu até fiquei a pensar 'será que um dia algum deputado vai querer presentear outro com o livro?'"

O mistério, a sedução e a ironia são as armas de Álvaro Filho que acredita que o humor é uma forma de salvação.

"O policial e o humor são considerados géneros menores na literatura. É muito pouco provável que um romance que se situe nesses dois extremos ganhe um prémio. Mas são géneros que têm a sua função. O livro tem humor, tem esse tom de humor negro. É importante, porque tira um pouco o peso de ser um livro que trata questões de assassinato, sobre crimes", remata.

O livro "Alojamento Letal", editado pela Planeta, é apresentado esta sexta-feira, às 19h00, na Livraria da Travessa, em Lisboa.

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