Esta orquestra quer mudar uma geração

A Orquestra Geração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem 35 músicos dos 6 aos 15 anos, provenientes das casas de acolhimento e de famílias acompanhados pelos técnicos da SCML.

Há um grande burburinho na hora do ensaio da Orquestra Geração. Os músicos organizam-se, afinam os instrumentos, procuram o lugar. Violinos para um lado, violoncelos para o outro e os contra baixos lá atrás. O maestro levanta os braços e a música começa.

Amanda Silva, 15 anos, toca contrabaixo. É alta e isso ajuda a dominar o instrumento. Quando entrou na orquestra não sabia bem o que ia tocar. "Estava em dúvida se era aquele que eu queria. Uma das nossas doutoras, ela disse que eu podia escolher o contrabaixo porque me ficava bem. Então fui para contrabaixo. À medida que o tempo passou, apaixonei-me e agora adoro tocar."

Hoje sonha ser contrabaixista. Amanda passa o dia a pensar no momento em que vai começar a tocar. Entrou na Orquestra Geração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa há pouco mais de um ano. Não sabia nada de música. "Evoluí bastante porque, no início, eu não conseguia nem colocar o primeiro dedo como deve ser que saía desafinado. Mas agora, já consigo já consigo tocar bastante bem e andar mais rápido no contrabaixo".

Amanda confessa que não sabia o que era um contrabaixo mas encontrou na orquestra uma paixão inesperada. "Sempre gostei de música mas nunca tinha ouvido falar da Orquestra Geração nem nada desse tipo. Quando eu soube que havia a orquestra geração, que era grátis, eu vim. Vim ver o que é que era, para conhecer mais. Depois, comecei a tocar e hoje adoro".

A contrabaixista não aprendeu apenas a tocar. Ultrapassou a timidez e fez amigos. "Posso confiar em todos porque são todos amigos, dão-se bem, onde tu podes falar tudo o que quiseres, que toda a gente é tua amiga e está sempre a apoiar-te".

Uma orquestra diferente

A Orquestra Geração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa faz parte de um projeto de intervenção social através da música. A primeira orquestra deste tipo foi criada em 2007 na Escola Básica Miguel Torga no Casal de S. Brás na Amadora.

Desde então, o projeto alargou-se a mais de 20 escolas com o objetivo de combater o abandono escolar e ocupar os tempos livres de jovens de bairros carenciados.

António Santinha, diretor da Unidade de Apoio à Autonomia da Infância e Juventude da Santa Casa, explica que começaram com 25 músicos "que nunca tinham visto um instrumento musical, pelo menos de música clássica".

A orquestra conta hoje com 35 músicos dos 6 aos 15 anos provenientes das casas de acolhimento residencial da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), de famílias acompanhados pelos técnicos da SCML e filhos de funcionários da Misericórdia.

O interesse por parte das crianças é grande, garante António Santinha, explicando que querem que o entusiasmo dos mais novos seja um motor de mudança. "É colocar instrumentos de música, pelos quais os miúdos têm grande afeto e carinho, em sítios onde a cultura às vezes não é tão valorizada e onde não é muito habitual encontrar este tipo de instrumentos".

O objetivo da orquestra é permitir que aprendam a tocar um instrumento mas o propósito final é dar mundo. "A cultura, o desporto ou outras atividades em que eles possam sobressair alargam o horizonte, porque viajam, porque vão para fora do seu bairro, porque se encontram com outros miúdos, porque trocam impressões com outras pessoas que têm profissões diferentes daquelas que são as mais vulgares".

Aulas e concertos

A professora Marija Mihajlovic Pereira está há quase dois anos com o grupo e considera que a melhor forma de definir a orquestra é mesmo a diversidade. "Isso tudo envolve uma abordagem muito diversificada da parte do professor, no trabalho com essas idades diferentes".

A professora sérvia explica que a dedicação de cada aluno varia mas "com tempo eles todos se envolvem de alguma forma", tornando o projeto "bem especial porque muitos deles sentem isso como uma segunda casa".

Apesar de ser uma orquestra recente, estes jovens já fizeram apresentações públicas, sempre com o apoio dos professores.

Jéssica Silva, 14 anos, sabe que dia de concerto é dia de nervosismo. !É sempre uma grande confusão, todos temos de ter a mesma roupa, depois temos de nos organizar consoante o espaço que temos, as ordens, as músicas. Mas acaba por ser giro, estamos todos nervosos. E vamos conhecendo pessoas novas".

Toca violino mas experimentou todos. Confessa que o mais difícil é conjugar aulas e ensaios. "Exige muito de nós porque, apesar de termos este tempo todo até às nove, depois em casa também temos de ter um grande trabalho das notas, de levar o instrumento. Porque não basta aprender aqui e tocar. Temos de treinar."

Mas o trabalho compensa garante Amanda Silva. A contrabaixista, que descobriu o amor pela música, quando aprendeu a tocar contrabaixo conta que é o som que a apaixona quando pega no arco."É lindo o som. Eu gosto muito de tocar e sentir as notas, o que está ali a passar, a música. É bonita. Muitas vezes agitada e passa aquilo que a pessoa precisa muitas vezes."

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