festival bons sons

"Ninguém sabia onde ficava Cem Soldos no mapa antes de haver o Bons Sons"

Micaela Carreira e Carlos Godinho conversam ao balcão. No café, os sons desajeitados do dia-a-dia fundem-se com as canções que saem das colunas espalhadas pela aldeia de Cem Soldos, em Tomar. Sai uma cerveja e um concerto para a mesa três.

"Ninguém sabia onde ficava Cem Soldos no mapa antes de haver o Bons Sons", atira Micaela.

Atrás do balcão e de resposta pronta, a jovem de 19 anos vê o festival de música portuguesa que invade todos os anos a aldeia que a viu nascer com bons olhos: "Acho que faz bem à aldeia, traz pessoas para cá e ajuda os comerciantes aqui da zona. Para mim é bom que não saio muito aqui da terra e consigo ouvir tudo."

Ainda Micaela não tinha nascido já Carlos Godinho ajudava a organizar as festas da aldeia. Hoje, com 63 anos, vive o Bons Sons com o mesmo entusiasmo que vive as romarias mais tradicionais. Diz que mora na "aldeia da música".

"Aldeia como a nossa não há. Viver a aldeia é Bons Sons. É a aldeia da música. Vêm aqui milhares e milhares de jovens e nós somos acolhedores para todos. Parece uma família."

Carlos acredita que este festival se distingue de todos os outros, mas Micaela vai mais longe. A jovem defende que os festivais de verão são muito parecidos uns com os outros e que "só o nome é que muda".

"Aqui não. Aqui as pessoas vêm e vivem mesmo a aldeia. Fazem coisas simples como vir aqui ao café, têm atividades e música", remata.

"Não queremos que o festival esmague as pessoas"

O Bons Sons comemora este ano 13 anos, mas o diretor artístico Luís Ferreira acredita que a fase da adolescência já passou.

"Eu acho que 13 anos e 10 edições de um festival representam muito tempo. Pelo menos em Portugal, em que é tão difícil manter projetos destes de uma forma sustentável e contínua no tempo. Nós já nos sentimos mais do que adultos na forma como estamos a trabalhar", assegura.

A "carolice", contudo, mantém-se e Luís Ferreira gosta de ver que a essência da primeira edição é a mesma: "Continuamos a ser boa parte dos jovens carolas que começaram a fazer este festival com 22 anos. Continuamos a manter essa ingenuidade infantil de quem faz por missão, por gosto, mas com uma experiência muito séria sobre o nosso panorama cultural."

Foi para preservar a alma do festival que a organização decidiu diminuir a lotação máxima de 40 mil para 35 mil pessoas, um "número rebuçado", nas palavras de Luís Ferreira.

"A aldeia não cresce e queremos que continue a ser a aldeia a fazer o festival, mas não queremos que o festival esmague as pessoas e também não queremos prometer coisas erradas ou enganadoras. Não acreditamos no conceito da economia sem fim, do crescimento sem parar. Acreditamos que há escalas apropriadas para aquilo que nós queremos desenhar."

A distância dos grandes centros urbanos não afasta a aldeia de Cem Soldos da cultura. É por isso que Luís Ferreira entende que "a boa música sobrevive em todo o lado desde que haja condições para acontecer".

"Já dizia Zeca Afonso: 'A revolução cultural não é eu poder tocar em todo o lado, é ir a todo o lado e ouvir a música de lá'", cita.

O Bons Sons arranca esta quinta-feira e termina no domingo. Durante quatro dias a aldeia vai receber artistas como Tiago Bettencourt, Diabo na Cruz, Joana Espadinha, Luísa Sobral e Glockenwise. Pode consultar o cartaz completo aqui.

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