O rock n' roll não está morto... e o seu futuro conjuga-se no feminino

O segundo dia de NOS Primavera Sound foi a prova de que o rock n' roll não está morto e de que o seu futuro pode ser feminino.

Nem o reggaeton de J Balvin, nem os passos punk em artifícios de rap de Tommy Cash. No palco principal do NOS Primavera Sound, duas mulheres recusam-se a ser apologéticas e cantam a madrugada dos erros humanos ao pôr-do-sol.

A neozelandesa Aldous Harding e a a australiana Courtney Barnett subiram esta sexta-feira ao palco do recinto do Porto para não pedirem desculpa por odiar alguém, ou por se sentirem, por vezes, imprestáveis, por nem mesmo sentirem a falta de alguém que não vai à festa, e por nada saberem para além da certeza das coordenadas da fragilidade própria.

O passado é o museu que visitamos mais vezes, contam (cantam). A frase, que pode soar como boicote destemido ao rock é, no entanto, a constatação de que há novos lugares mentais para as guitarradas. Nem a todos as desavenças desavindas cairiam como pretexto para o êxtase exacerbado e para a leveza da nulidade temporária, mas Courtney Barnett é o entusiasmo novo de ser aqui, agora, mulher, cantora, intérprete, comandante no leme do palco.

Courtney Barnett é um coro uníssono sem dor sobre as dores, é o presente e o futuro da mulher sem freio que agarra as cordas do instrumento como a ditar o presente revigorante da música da velha guarda. As guitarradas da artista australiana exigem solo feminino sem espanto.

Depois de "Nobody really cares if you don't go to the party", "Everybody here hates you" (safra do último álbum), "Need a little time", o público do Primavera oferece-lhe ali o final satírico e divertido das convulsões ultrapassadas. É também um final romântico - assim o diz, como quem gargalha para duvidar. Rendida, a multidão dedica-lhe a compreensão atenta dos tempos de escola, enquanto ensaia palmas e movimentos de homenagem aos espasmos que as vivências de um e outro espectador evocaram.

Em voz própria, a cantar para si e por todos que o passado é um espólio para o qual se nega o absoluto respeito. Exceto se a história se contar "num sítio porreiro, com uma vista fixe para a torre dos Clérigos", onde numa varanda se improvisa um concerto acústico, ainda nos primórdios da ribalta, em 2014. João Pessegueiro, de 33 anos, recorda o momento em que Cortney Barnett esteve em sua casa a "tocar umas músicas", entre filmagens e na descontração de um churrasco à portuguesa.

"Já conhecia a música dela, e foi uma surpresa agradável", conta à TSF um dos admiradores do seu estilo.

Surpresa e estilo, palavras que explicam apenas em parte o que aconteceu em palco quando Aldous Harding defendeu a fragilidade como uma bandeira da luta pela paz interior. "Zoo eyes", "The barrel" e "Treasure" foram alguns dos temas que, enfim, lembraram a uma audiência comovida a musicalidade dos momentos tristes.

Aldous Harding, guitarra na mão, coração à flor da boca, foi a melodia e a força. O passado é o museu que visitamos mais vezes, mesmo quando o futuro espreita num espectro feliz de sonoridades promissoras.

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