"Para os alemães sou muito português, em Portugal sou muito estrangeiro"

Músico e compositor, Carlos Bica vive em Berlim desde 1994, apesar de ter chegado à Alemanha ainda antes da queda do muro. Veio para estudar, programou o regresso a Portugal, mas os desafios profissionais acabaram por tocar mais alto. Os alemães acham-no muito português, os portugueses consideram-no muito estrangeiro, mas no mundo do jazz ele fala qualquer idioma.

São muitos os projetos que já integrou ou ainda integra, o "Trio Azul", talvez o mais conhecido, já conta mais de 25 anos. No ano passado, agarrou um novo desafio com os alemães, Daniel Erdmann, saxofonista, e DJ Illvibe. Lançam no dia 22 deste mês o primeiro disco "I am the escaped one". O que é que este álbum traz de novo?

"Enquanto músico, o que se procura é sempre voltarmos a descobrir-nos. O que é que este álbum traz de novo? Em primeiro lugar é uma formação muito invulgar: saxofone, contrabaixo e o artista que está por trás do gira-discos. Para um primeiro ouvido é capaz de ser uma coisa um bocado estranha. Mas ouvindo uma segunda vez, eu reconheço-me lá, o álbum tem a minha assinatura. E é isso que me deixa feliz, perceber que, mesmo procurando outras sonoridades, me encontro lá, nessa música."

É a primeira vez que partilha um projeto com um DJ?

"O DJ Illvibe já tinha participado num disco do "Azul", no "Believer". Eu convidei-o para entrar no disco, foi a uma decisão espontânea, depois de o ter ouvido aqui em Berlim. O seu nome é Vincent von Schlippenbach e é filho do Alexander von Schlippenbach, que é um dos grandes nomes do jazz alemão, sobretudo na área do "free jazz". Por sua vez, a sua madrasta é a pianista de jazz Aki Takase. Já toquei com ambos e conheci-o como o miúdo que andava aqui por Berlim, a pintar graffiti. Foi um jovem que tocou trompete, tocou bateria, mas sem nunca se ter dedicado completamente. Mas a veia musical estava lá desde o início. Depois descobriu o gira-discos e o potencial que aquilo tem, eu não conheço ninguém como ele. Vi-o num concerto a tocar com o pai e fiquei impressionado. Ia gravar o "Believer" e fiz o convite para ele aparecer em estúdio. Esteve lá 4 horas, gravámos 5 músicas e foi incrível."

A apresentação do álbum está marcada para o dia 22 no B-flat, local que frequenta com alguma regularidade e onde parece sentir-se em casa. O que é que este espaço tem de tão especial?

"O B-flat fica a algumas centenas de metros de minha casa (...) e já tem mais de 20 anos de existência, o que coincide com a minha chegada a Berlim. Foi um espaço que me acompanhou desde que eu vim para cá (...) Muitas vezes ia sem saber bem o que estava a acontecer musicalmente, e era surpreendido pelos mais diferentes géneros musicais. É algo que me agrada, ser surpreendido, e não necessariamente na área do jazz, mas com alguém que está a fazer algo de pessoal e diferente. Por isso é um clube pelo qual tenho uma amizade especial."

De onde vem o nome do álbum, "I am the escaped one"?

É um poema do Fernando Pessoa escrito em inglês. Eu costumo dizer que o sucesso é quando as coisas acontecem sem terem sido muito preparadas. Neste caso, esta formação surgiu de uma forma muito orgânica, até ao título e a foto de capa do álbum. Quando disse ao Daniel Erdmann que tínhamos de encontrar nome para o disco, ele comentou que tinha descoberto Pessoa. Deu-me várias frases que tinha retirado de textos de Pessoa, mas não achei nenhuma apropriada. Mas quando estava na fase final de busca, na Zambujeira do Mar, pesquisei na internet e apareceu-me logo o nome.

Mostrou este novo disco pela primeira vez em Portalegre, no "Portalegre Jazz Fest". Escolher Portugal para esta apresentação foi propositado?

"Foi por mera casualidade, pelo disco estar a sair e de haver esse convite para tocar no festival de Jazz de Portalegre. Na área em que me movimento não existe o marketing que existem nas outras, por isso há que jogar com as oportunidades."

Disse, numa entrevista à agência Lusa, que esperava surpreender o público. Conseguiu-o?

"Foi excelente. Acho que foi um grande concerto. Até mesmo para o produtor da editora discográfica, ele próprio ficou surpreendido porque já tinha ouvido o grupo e achou que tínhamos passado para um novo nível."

Tem agora dois concertos em Berlim, a 22, altura do lançamento do novo disco, e 25. Depois tem também duas datas em agosto, em Portugal. Nota muito a diferença entre os dois públicos, o alemão e o português?

"Berlim é especial. Não se pode falar do público na Alemanha e no público de Berlim. Aqui existe um publico bastante jovem por existirem as universidades de música, etc. Em Portugal, o meu público é muito jovem, e isso é ótimo. Também se deve ao facto de estarmos um bocadinho "atrasados" na aceitação em relação ao jazz. O jazz em Portugal ganhou uma grande força há uns 15 anos e passou a ser a escola musical para todos aqueles que não querem seguir a via da música erudita (...) O público de jazz na Alemanha já o é há muitos anos, é um publico do pós-guerra. Eu, que vim para cá há muitos anos, apercebi-me que qualquer aldeiazinha tinha um clube de jazz. Vivia na Baviera e havia muitos clubes pequenos de jazz devido aos militares americanos, ou seja, o jazz existe há muito tempo no país. Mas esse publico está a ficar velho, tem de ser renovado. Por isso há uma diferenciação nesse aspeto, entre o publico português e o alemão."

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de