Paredes de Coura: Enchente feliz com lágrimas

Casa cheia nas duas primeiras noites, com consagrados e novidades, num festival de gente com lágrimas de felicidade. Balanço provisório: o Paredes de Coura 2019 vai a meio, mas já tem um vencedor.

Maria não é uma "chamemos-lhe assim" porque alguma Maria haverá entre aqueles rostos jovens que, na primeira fila em frente ao palco, choravam e abriam os braços enquanto sorriam ao cantar. Lágrimas e sorrisos mostrados e Maria assim endeusada em formato ecrã gigante, à boleia das canções da banda de Matt Berninger. Mas hoje, final de noite de quinta-feira, talvez Maria já não se lembre dele. Explicações adiante.

Catorze anos depois, os The National regressaram às margens do Taboão, onde deram um espetáculo visualmente irrepreensível e com alguns dos maiores sucessos desta banda de Ohio: desde o mais recente "Day I Die", até "Fake Empire", "The System Only Dreams In Total Darkness" ou "Light Years". Concerto altamente profissional, típico de banda consagrada e com duração que pecou por não ter uns vinte minutos a menos, para evitar a debandada que aconteceu de muitas centenas, ainda os últimos temas se faziam ouvir. Mas será por outros motivos (alheios à banda, que cada um dá o que pode) que o concerto dos The National não ficará para a história do festival. Já lá vamos.

A festa, para os resistentes, continuaria noite dentro com os ritmos frenéticos dos Kokoko, banda da República Democrática do Congo cujo caos em palco, ao contrário do conturbado país de onde vêm, é apenas aparente. No palco principal, a multidão já tinha ficado rendida aos brasileiros Boogarins (e a banda ao público do festival) e aos australianos a viverem em Berlim Parcels, cujo eletropop dançante ora chique ora kitsch, com "Tieduprightnow" e outras pérolas de diversão (por vezes) superior ao bom gosto, contagiou de alegria os muitos milhares que acorreram ao festival, logo na primeira noite junto ao Taboão, depois do cada vez mais procurado motor de arranque que é o Sobe à Vila.

A segunda noite começou com a constatação de que já são um considerável caso de popularidade os norte-americanos Car Seat Headrest, de William James Toledo Barnes, um frontman inspirado, à frente de uma banda que pôs o povo aos saltos, com os temas do muito aclamado "Twin Fantasy".

Ver os New Order em Paredes de Coura é ter, como muito apropriadamente dizia o organizador João Carvalho à TSF, "uma parte da história da música no teu quintal". A expectativa era tanta entre aqueles que já estão nos "entas" e até com mais de meio século, que até foi possível ouvir alguém dizer que ia fotografar a sua "banda favorita de sempre".

Entraram ao som de Wagner, "Ouro do Reno"; depois o alinhamento propriamente dito começou com "Singularity" e "Restless". Enquanto isso, o som no anfiteatro natural era prejudicado pela música de Avi Buffalo que, simultaneamente, ainda se fazia ouvir lá no palco secundário. De seguida, para gáudio dos fãs velhos e menos velhos, atacaram logo com dois clássicos dos tempos dos Joy Division: "She"s Lost Control" e "Transmission".

A banda formada em Manchester em 1980, por Bernard Sumner, Peter Hook (um repetente em Coura) Stephen Morris e Gillian Gilbert depois do suicídio de Ian Curtis e desaparecimento dos Joy Division, trouxe ao público da praia fluvial do Taboão um rock dos anos 80 misturado com o seu característico synthpop, numa perfeita e contagiante simbiose entre guitarras e sintetizadores. A harmónica na boca de Sumner deu o mote para o belíssimo "Your Silent Face" do álbum "Power, Corruption & Lies", antes da "pista de dança" evoluir ao som de"Sub-culture".

Generoso, Sumner ofereceu umas baquetas Stephen Morris a uma jovem que empunhava um cartaz dizendo que veio da... Coreia do Sul. Com um jogo de luzes, cores e formas geométricas, os New Order puseram milhares a dançar num concerto em que os clássicos foram aparecendo: "Bizarre Love Triangle" (no fim do qual o vocalista diria "what a great audiência"), "True Faith", "Blue Monday", e, para delírio do público, no final os clássicos "Atmosphere" e "Love Will Tear Us Apart" (impossível evitar a pele de galinha). Que nem o amor nos separe de concertos assim. Depois disto, tudo o resto sabe(rá) a pouco.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de