"Perceber que até o Prince podia ser tímido deu-me força"

Ana Moura, uma das curadoras da exposição "Prince: As Never Seen Before", com fotografias de Steve Parke, conta à TSF alguns dos momentos mais marcantes da sua amizade com o cantor norte-americano e explica o que fez de Prince uma figura incontornável e particular.

"Cheguei ao ArrábidaShopping e estava tudo forrado com fotografias do Prince, e eu já me emocionei. Por tudo o que me tem chegado através das redes sociais, eu acho que as pessoas estão entusiasmadas para terem acesso a este lado menos visto dele." As palavras de Ana Moura, horas antes da sua homenagem a um amigo e a um artista que prezava pela sua mensagem musical única, revelam a expectativa e o entusiasmo por sentir que tantas pessoas poderão encontrá-lo na intimidade da lente de Steve Parke, no ArrábidaShopping, até 2 de novembro.

No entanto, à TSF, a fadista fala também com saudade, por evocação ao momento da morte, o do derradeiro fado, que sublima através do seu repertório.

Faz sentido uma homenagem ao Prince neste momento ou em qualquer momento?

Faz sempre muito sentido, porque nós temos de homenagear as figuras que nos fizeram ficar felizes e que nos fazem sentir confortáveis, e a música tem esse poder.

Quão importante foi o Prince para a Ana Moura e para a sua carreira?

Foi enormíssima a sua importância a dada altura. Quando o conheci, ele convidou-me várias vezes para nos juntarmos com ele e com outros músicos, e eu comecei a fazer experiências com outros artistas. É também por isso que os meus últimos discos acabaram por ter uma linguagem diferente, porque passei por outras experiências e quis também que isso estivesse presente. E ele foi muito motivador para que tal acontecesse.

Conhecê-lo como ser humano acabou também por ser outro contributo, outro enriquecimento...

O que também é importante. Perceber que ele era tímido, por exemplo, - que sempre foi um traço de caráter com que criei empatia - deu-me uma certa força, confesso. De facto, os artistas podem ser introvertidos, podem ser tímidos. Perceber que até o Prince podia ser tímido deu-me força.

Eu recordo-me de, quando o conheci, ter sentido que tinha sido importante para mim perceber que uma figura desta importância também era tímida.

Quais são as canções e os momentos com o Prince que lhe ficam gravados para sempre?

Para mim, são sobretudo as músicas que ele escreveu por existir esta nossa amizade. Ele escreveu uma música, que é a "Walk in Sand", porque, quando o Prince veio a Portugal, nós fizemos um passeio e ele escreveu essa canção inspirada no nosso percurso. Essa é uma música que me marca muito, mas claro que a "Diamonds and Pearls" e "Little Red Corvette" são também repertório que faz parte do meu universo musical desde sempre.

E o que lhe ficou para sempre da nossa música, da música portuguesa?

Ele gostava da minha música, mas, entretanto, também lhe apresentei outros artistas portugueses. Ele gostava muito de uma música da Sara Tavares, que era a "Ponto de Luz", que, aliás, eu cantarei hoje na inauguração.

Cantarei as músicas que marcaram a nossa amizade, e a "Ponto de Luz" é uma delas. Vou cantar "Walk in Sand" e uma outra que compusemos em conjunto; eu fiz a melodia e o Prince escreveu a letra. Vou ainda interpretar uma música da Aretha Franklin, de quem os dois gostávamos muito e cujos discos ouvimos mesmo antes de ele falecer, em abril de 2016. Eu estive com ele em janeiro, no estúdio dele, e, quando ele me foi levar ao aeroporto, esse foi o disco que ouvimos.

Como é que a música do Prince pode tocar a sonoridade portuguesa, sem a deturpar, e, pelo contrário, contagiando-a e enriquecendo-a?

Penso que os artistas podem motivar os outros artistas por aquilo que fazem, com a sua música, mas sem fazer a música que ele faz, deixando-se influenciados para lá dos próprios arranjos e instrumentos. Nem que não seja pela própria irreverência e pela vontade de fazer sempre mais.

O Prince era um génio que tocava vários instrumentos. Só isso já é motivante. De cada vez que me lembro de que ele tocava incrivelmente bateria, depois ainda ia para o baixo, e que os tocava de uma forma magnífica, sinto-me inspirada para que nós acreditemos que é possível.

O que recorda de mais marcante de tudo o que o Prince lhe disse sobre a sua música?

Aquilo de que o Prince falava muitas vezes era da particularidade do timbre da minha voz, e dizia que tinha uma cor que se distinguia, e que era um véu, um sopro. Ele falava assim... E ele falava também da proposta diferente. O fado, para ele, era mesmo algo de diferente.

Este lado mais íntimo que o fado propõe serviu de inspiração para alguns dos concertos que ele deu pela Europa nalgumas salas de espetáculo mais pequenas.

Porque é importante para os fãs conhecer mais do que aquilo que a carreira tão pública mostra?

Porque as pessoas ligam-se afetivamente aos artistas, aos músicos. Inevitavelmente há essa ligação afetiva, e eu penso que as pessoas gostam de ver mais porque as aproxima. Essa aproximação é sempre bonita.

O que mais vai surpreender o público nesta mostra ["Prince: As Never Seen Before", com fotografias de Steve Parke]?

O lado irreverente já não será surpresa, as pessoas já o conhecem. Mas as várias fases dele, esteticamente falando, porque ele era uma pessoa que apreciava muito o belo...

Além disso, o lado mais privado do Prince, nas suas fotografias mais íntimas, pode ser o fator que mais vai prender o público.

Qual é o Prince que as outras pessoas não conhecem?

Eu penso que as pessoas conseguiam compreender a sua personalidade, não só através da música, como também através da forma como ele se expressava nas entrevistas. Aquilo que me chega é que as pessoas conseguiam percebê-lo, mas o que me surpreendeu quando o conheci foi um lado mais tímido que ele tinha, e, por vezes, aparecia-me mesmo como uma pessoa introvertida, que nem sempre tinha necessidade de falar, e eu identifiquei-me muito com essa particularidade. Eu também tenho esses momentos de maior introversão e timidez.

Para quem o via em palco com aquela energia, naquela interação com o público, de repente perceber que ele tem esse traço de personalidade é espantoso.

Como se sentiria uma pessoa tímida dessa forma ao ver-se exposta num espólio como este? Nua?

Eu penso que não. Foi o fotógrafo oficial dele que fez estas fotografias, e são retratos que o Prince aprovou, apesar de pertencerem à sua intimidade.

Acho que ele iria ficar feliz por nós estarmos a celebrá-lo. Foi um músico que deu muito à História da música e que nos deixa um legado enorme. Faz parte do nosso universo musical, que cresceu com ele. Celebrá-lo é sempre um motivo de alegria, inclusivamente o seria para ele.

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