Por trás de cada marcha, está sempre uma grande costureira

Antes da marcha da Santa Casa desfilar na Avenida da Liberdade na noite de Santo António, há uma equipa de costureiros e figurinistas que começa a trabalhar com muitos meses de antecedência para que tudo esteja a postos para o desfile.

Falta menos de uma semana para o desfile das marchas de Santo António em Lisboa e no ateliê de costura de Aldina Jesus não há tempo a perder. Cortam-se tecidos, cozem-se botões, colam-se os galões. Os fatos vistosos da marcha da Santa Casa estão pendurados ao fundo do ateliê para os retoques finais.

Nesta fase, Aldina Jesus garante que está quase tudo pronto. "Praticamente tudo", conta aliviada e explica que os últimos dias são dedicados a terminar os fatos dos padrinhos, o ator Ricardo Carriço e a apresentador e atriz Maria Botelho Moniz.

Para que tudo esteja perfeito na noite de dia 12 são precisos muitos meses de trabalho. Aldina começou em dezembro mas todos os dias verifica se os prazos estão a ser cumpridos. "Num instante, o trabalho pode ir por água abaixo e nós pensamos que estamos dentro do timing e afinal estas colagens vão demorar mais tempo do que estamos a pensar. Por isso, temos de programar as coisas para entregar muito cedo para não deixarmos tudo para a última porque senão é diretas. Uma atrás da outra".

Apesar do trabalho estar encaminhado, Aldina já não consegue dormir. "Fico acordada a tentar só organizar as coisas e só assim é que nós conseguimos ter as coisas controladas."

Trabalho de equipa

O trabalho de Aldina não avança sem a participação do figurinista Nuno Lopes, que é responsável pelos desenhos dos arcos e dos fatos dos marchantes e por "encher o olho às pessoas".

Nuno Lopes explica que desenhar os fatos de uma marcha "é mostrar aquilo que é o colorido, mostrar aquilo que é a beleza, a alegria, que é a representação de uma marcha popular."

Apesar da marcha não entrar na competição, o figurinista garante que tudo é feito com muita dedicação. "A competição existe sempre connosco próprios. Nós queremos sempre fazer o melhor de nós e, ano após ano, haver sempre uma melhoria nas coisas que se apresentam. Mas é uma questão já de orgulho pessoal."

Nuno e Aldina trabalham em equipa desde que a Santa Casa começou a ensaiar uma marcha para o Santo António, já lá vão três anos.

Não há regras fixas para desenhar os figurinos mas Nuno defende que deve haver um misto entre a modernidade e a tradição. "Há coisas que a gente não pode fugir porque senão teríamos uma tendência enorme para o carnaval. Temos de manter uma coerência, mas trazer coisas novas, ideias novas, situações que possam dizer que é tradicional mas tem um misto de modernidade."

Aldina Jesus vai recebendo dicas dos marchantes que tenta integrar de ano para ano. "O ano passado tivemos uns saiotes que elas queixaram-se imenso, porque eram muito pesados e quase que lhes caiam pelas pernas abaixo. Este ano fizemos um outro tipo de saiote com outros tecidos, mais leves."

Este ano, a marcha leva as cores da Misericórdia e a equipa apostou nos brilhos. "Brilhos, lantejoulas, organzas também, que nos dão um bocadinho mais de profundidade à peça, às mangas, para não perdermos um bocadinho de pele das marchantes."

Os marchantes só conhecem os figurinos mais perto da data de apresentação da marcha, situação que levou a alguma ansiedade entre os marchantes. "Este ano tivemos uns senhores muito ansiosos. As senhoras menos, estavam super tranquilas mas os homens estavam super ansiosos. Tenta-se não desvendar logo tudo e deixá-los assim um pouco num secretismo."

O sigilo não é apenas para os marchantes mas sobretudo para o grande público. "Eu própria vou tirando fotos para depois conseguir fazer uma montagem mas tenho que manter sempre tudo em segredo."

A noite do vale tudo

Fica tudo nos segredos deus até chegar o grande dia que começa cedo. "Dez horas da manhã já há senhoras a preparar cabelos, a fazer maquilhagem. São muitos. São 52 marchantes. E depois vamos experimentando as coisas. Depois chega o momento em que temos de vestir tudo e arrancar."

Até à hora do desfile há sempre tempo para os últimos detalhes e Aldina Jesus garante que, geralmente, há coisas a ajustar. "Há pessoas que acabam por emagrecer à última da hora com o stress. [Usamos] Alfinetes de ama, coser. Vale tudo".

Depois do stress e dos desastres de última hora chega a hora de descer a avenida, momento em Aldina finalmente descansa. "É um alívio mas é muito gratificante e muito emocionante vê-los desfilar com roupas que nós começamos do zero."

Depois da festa é precisar começar tudo de novo mas Aldina Jesus garante que tenta sempre escapar-se. "Para o ano não faço nada disto, não me meto em nenhuma marcha. Mas depois acabo sempre por ser convencida em janeiro. Vamos lá, mais um ano? Eu vou pensar. Não dá para pensar muito. É entrar de cabeça e pensar simplesmente que as coisas vão correr bem."

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