Um homem e A Herdade: o mundo a seus pés

Um filme português destinado a um mais que provável sucesso. Um épico sobre relações familiares, sobre um Portugal da ditadura e da Revolução, ruturas e continuidades; acima de tudo, um filme sobre relações de poder, com desempenhos notáveis de Albano Jerónimo (no papel do protagonista, João Fernandes) e de Sandra Faleiro (no papel de Leonor, a mulher dele). O filme é apresentado esta quinta-feira em Veneza e dia 19 chega às salas portuguesas. A TSF já viu A Herdade.

João Fernandes não é Charles Foster Kane, mas tem o mundo - o seu mundo - a... seus pés. Fernandes é o proprietário da Herdade (o filme foi filmado na Herdade da Barroca d"Alva, junto ao estuário do Tejo, em Alcochete).

Ele é o homem que tem tudo controlado, desde os funcionários, aos filhos, passando pela mulher Leonor ("mal amada, submissa, educada para estar atrás do homem e a segui-lo, mas que, com a Revolução e o sofrimento, conhece uma grande transformação", revela Sandra Faleiro à TSF) e pelo capataz Leonel, às relações com as estruturas de poder no regime de Marcelo Caetano. O produtor Paulo Branco idealizou um filme sobre "um homem maior que a vida" e o guião de Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes não poderia ser mais cumpridor.

O dono da Herdade é eucalipto que tudo seca à volta, um todo-poderoso mais solitário do que um recluso em completa privação, apesar de sempre rodeado por vassalagem e submissão, "com heranças pesadas que recebeu e que deixa aos seus". O realizador quis fazer um filme sobre a história de uma família latifundiária em Portugal, que atravessa o período final da ditadura, a Revolução e os tempos que lhe seguiram. Um filme sobre mudanças e permanências: "é muito circular nesse sentido", afirma Tiago Guedes na entrevista à TSF.

"Há uma tentativa de mudança mas, se calhar, depois as coisas não mudam assim tanto quanto gostávamos". João Fernandes, num notável desempenho de Albano Jerónimo, retratado na promoção do filme como anarquista progressista, parece mais o tipo de homem permanentemente obcecado com a manutenção do poder, através da terra. Que lhe pertence. Como tudo parece pertencer-lhe: "tudo o que faz é em nome da terra, para salvar a terra. A forma como exerce o poder nem é muito intencional, é como as coisas são, ou como as coisas eram", afirma o realizador e coargumentista.

Essa é uma das características que tornam fascinante o personagem de Albano Jerónimo: "é amigo dos trabalhadores, mas, se formos ver quais os interesses finais dele, é sempre a terra que está em pano de fundo. É capaz de fazer grandes feitos e negligenciar a família ao mesmo tempo". Para o ator principal, o protagonista João Fernandes "é alguém completamente egoísta e com uma enorme incapacidade de amar".

A Herdade nunca deixa de ser sobre relações de poder, algo que "atravessa o filme", conclui o realizador, que nasceu primeiro na cabeça do produtor Paulo Branco, que o convidou também pela partilha de referências e gostos comuns em matéria de cinema italiano (a A Herança da Carne, de Minnelli, por exemplo) e americano.

"Isso e a forma como a Revolução abana toda uma forma de viver" são, na opinião do realizador que agora vai estar em destaque em Veneza, marcas do filme, sendo que "há toda uma zona secreta, subterrânea e profunda que quis acentuar, mas não de uma forma muito explicada; está lá".

Já Sandra Faleiro vê A Herdade como um filme onde a esperança existe, apesar de ser também "extremamente duro". A dureza desemboca, em certa medida, numa espécie de redenção, há sempre um lado de esperança nas pessoas". Quanto mais não seja na relação daquele homem com o seu cavalo - numa muito conseguida reminiscência western do filme, ou não tivesse o ator tido dois meses de aulas de equitação e muito tempo passado junto do animal - ou com os trabalhadores da herdade e "todas as pessoas que podem ser úteis à sua sobrevivência", completa Jerónimo.

Terá o país em A Herdade mudado assim tanto, com o 25 de Abril de 1974? "A sensação que fica, e o filme dá-nos isso com um personagem que é o Leonel, é que houve um grande esforço e uma grande luta para uma libertação, mas depois as coisas acabam por cair e ficar um bocadinho na mesma. Ou seja, todos os direitos conquistados e tudo aquilo que se conquistou com Abril, com o passar dos tempos e com a forma como as sociedades estão organizadas hoje em dia, volta tudo um pouco ao mesmo. Os beneficiados continuam a ser aqueles que conhecem pessoas, não temos uma democracia escandinava, daquelas mais idealizadas". Mas, faz questão de notar, "Portugal é um paraíso a vários níveis".

Agradecido pela oportunidade e orgulhoso pelo trabalho feito, Tiago Guedes reconhece que ter uma obra sua nos festivais de Veneza e Toronto "é quase uma estrada dourada para um filme, conseguir mais luz do que esta deve ser difícil". Para Faleiro, o mais importante é estar "orgulhosa do trabalho" que fez. Mais do que isso não é ideia que compre: "expetativas não as crio, é já uma questão de atitude na vida". Para Albano Jerónimo, "a expetativa tem o prazo de 24 horas". Pode ser que seja hoje. Em Veneza.

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