Vira o disco e toca o diferente. ADN rock do Primavera ou um viva à diversidade?

Do rock alternativo às alternativas mais diversas para agradar a vários públicos. Os especialistas musicais analisam: há o risco da identidade perdida ou a primavera do futuro das sonoridades?

É rock, senhores, é rock. Quando o NOS Primavera Sound aterrou no Porto, em 2012, prometia mais do que as rosas perecíveis da estação, mas um cenário onde os grandes movimentos alternativos do rock florescessem organicamente e, como lhe era natural ao ADN, na sua biodiversidade.

João Arezes, cronista de festivais, como se assume, espantou-se então com o milagre multiplicador da música. "A dada altura, eu senti que este festival era incrível, porque pessoas de outras nacionalidades, a um domingo, não apanharam um avião e estavam aqui no gosto da música pela música, a ouvir o Jeff Mangum, que estava a tocar num registo de guitarra e voz", recorda o aficionado em entrevista à TSF.

E o espanto explicava-se pela identidade própria e muito colorida de um festival que "contemplava as sonoridades, os ritmos, que estão mais ligados àquilo que nós conhecemos por indie rock, pop e folk".

Hoje, sedimentam-se novos públicos no espetáculo virado para o mar, mas a mudança pode ser salgada ou agridoce para a audiência fidelizada nos primeiros anos. João Arezes considera que os últimos anos têm trazido "um conjunto de propostas que hoje vemos demasiado alargadas na tentativa de cativar outro tipo de públicos, e esse pode ser um erro em que os promotores e os programadores incorrem, porque, na verdade, num festival não pode caber tudo".

Afloraram "projetos de música eletrónica muito discutível, para ocupar os palcos principais" e "opções manifestamente discutíveis, como Solange e Rosalía", explica o jornalista de 53 anos.

"Ainda dá para salvar o NOS Primavera Sound", lembra. É isso que a organização tentou fazer com uma notícia precoce: "Com o anúncio dos Pavement para o próximo ano - nunca tínhamos, aliás, assistido a um anúncio para uma próxima edição ainda durante uma outra -, que não é uma banda qualquer, que é uma referência do grunge, percebemos que a organização se consciencializou disto."

As dores de crescimento têm-se sentido na oferta de "mil bilhetes, para quebrar algum insucesso que não foi, felizmente, aquele que eu pensava que seria". "Um festival não é imutável, e não tem de cristalizar, mas tem de haver um critério."

Um critério que deveria passar, segundo o cronista de festivais, por oferecer ao público de sempre as alternativas à música comercial, como aconteceu em anos anteriores com apostas como "Local Natives, Flaming Lips e Death Cab for Cutie".

O festival nortenho criou uma imagem própria e disruptiva dos valores e dos nomes grandes e já estabelecidos da capital. "As segundas cidades são um contraponto às principais cidades, mesmo em termos artísticos, são uma alternativa", analisa João Arezes.

Mário Rui Vieira, jornalista da revista Blitz há 15 anos, celebra, pelo contrário, a compreensão madura que a organização tem feito, e admite mesmo que a música é um organismo vivo, mutável. A primavera da vida sonora é "bonita de se viver", diz Rui - não o Veloso, mas o crítico musical.

No segundo ano que vem ao evento, demonstra que está feliz com o curso que o Primavera Sound tem escolhido traçar: "Sinto que o festival se tem vindo a transformar, para minha satisfação, porque os dois últimos anos têm demonstrado um lado mais saudável da música."

"Não tenho nada contra ter aqui o J Balvin e, depois, ter aqui os Interpol. Essa variedade enriquece e que fechar demasiado os festivais em determinados nichos leva a repetições", contrapõe Mário Rui Vieira.

Este perfil de ornitorrinco musical, que espanta e causa estranheza, é uma mais-valia que não deixa de desvirtuar o conceito, como assevera o cronista de festivais. "Eu acho que desvirtua, mas acho que abrir portas a novos públicos é saudável. Um público que assistiu ao concerto de J Balvin não tem de ser muito diferente do público que esteve a ver o Interpol. Acho conciliável", salienta.

"As pessoas deveriam sair um pouco da sua caixinha e perceber que a música não é apenas aquilo de que gostam. Os festivais não têm de nos servir individualmente, mas a um público mais vasto, têm de se reinventar", até porque "há artistas válidos em todos os géneros, e eu sinto que se deve celebrar isso mesmo."

O jornalista frisa que mais festivais grandes estão a apostar no convívio de géneros diferentes, "como por exemplo o Super Bock Super Rock, em que facilmente podemos encontrar Lana del Rey e Artic Monkeys".

Sobre 2019, as memórias também são boas e, como enaltece Mário Rui Vieira, diversificadas: "Este ano um dos pontos altos foi-nos oferecido pela Sophie. Esteve brilhante. O concerto da Rosalía também foi espetacular. Aquilo que eu conhecia da Rosalía em estúdio não me agradava tanto, e, em palco, o flamenco esteve menos abafado pelo eletrónico."

Sem esquecer os valores escritos na pedra, como"o Nick Cave, que ofereceu um espetáculo maravilhoso no ano passado, porque ele é um animal de palco", o jornalista acredita que, tal como um festival à beira-mar plantado, as areias revolvem-se nas ondas para trazer elementos novos.

"O festival está a acompanhar as mudanças que se vão dando na música. Antes tínhamos muito a ideia das turminhas: ou éramos do hip-hop ou do metal ou da música alternativa, mas isso já não acontece. As pessoas ouvem muitas coisas diferentes, e os festivais estão a compreender isso", remata.

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