A realizadora defende que este olhar feminino sobre a crise dos refugiados é essencial
crise dos refugiados

"Jornalistas do sexo masculino perderam metade da História nos últimos 50 anos"

"Paradise Without People" é o filme de abertura do festival Olhares do Mediterrâneo e conta a história de duas mulheres sírias que dão à luz num hospital grego, em plena crise europeia dos refugiados.

Francesca Trianni percorreu vários campos de refugiados durante semanas à procura de mulheres que aceitassem participar na reportagem que estava a preparar. A jornalista tinha sido enviada pela revista Time para cobrir a crise migratória. Queria acompanhar mulheres refugiadas durante e depois da gravidez.

"Quando chegámos, ficámos chocadas, porque percebemos que um em cada dez refugiados era uma mulher grávida", conta Francesca Trianni.

Depois de muitas recusas, a realizadora conheceu as sírias Taimaa e Nour, que chegaram à Grécia em 2016 para fugir à guerra. Estavam as duas grávidas e deram à luz no mesmo hospital grego, em plena crise de refugiados.

O que começou por ser uma reportagem para a Time acabou por se transformar no primeiro documentário da italiana Francesca Trianni, que durante vários anos acompanhou o percurso de famílias sírias na Europa, desde a chegada aos campos de refugiados até serem recolocados noutros Estados-membros.

"Mais do que uma história sobre refugiados, olhamos para o filme 'Paradise Without People' ['Paraíso Sem Pessoas'] como uma história sobre amor, casamento", refere Trianni, acrescentando que sentiu a necessidade de falar sobre a crise dos refugiados sob um ponto de vista "que permitisse às pessoas olhar de forma diferente para esta crise".

Um filme sobre mulheres feito por mulheres

Francesca Trianni chega a Lisboa na quinta-feira, 31 de outubro, para a apresentação do filme na sessão de abertura do Olhares do Mediterrâneo no Cinema São Jorge, um festival de cinema que privilegia filmes produzidos por mulheres ou por equipas artísticas em que as mulheres se destacam.

A realizadora garante que só foi possível contar a história destas refugiadas sírias porque toda a equipa era composta por mulheres. "Essa foi a única maneira de termos acesso às famílias."

A realizadora defende que este olhar feminino sobre a crise dos refugiados é essencial para perceber um dos fenómenos que vai marcar o século XXI. "Muitos jornalistas do sexo masculino perderam metade da história nos últimos 30, 40, 50 anos. Por isso, queríamos ter a certeza de que a história da crise síria seria também contada através da perspetiva das mulheres."

O documentário "Paradise Without People" quer trazer uma nova luz sobre a história dos refugiados que chegam à Europa, evitando retratá-los como "heróis ou invasores". Por essa razão, escolheram mulheres que tinham acabado de ser mães para que qualquer pessoa se pudesse identificar "com a experiência universal de criar uma criança e lutar para tomar a melhor decisão para uma família".

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