"Listen": o filme que Veneza consagrou. "É inaceitável tirar os filhos a uma mãe"

"Listen", primeira longa-metragem e logo uma série de prémios no importante festival de Veneza. Produção luso-britânica sobre dificuldades económicas e a difícil luta contra a burocracia prepotente.

Num fim de tarde em que o temporal "Bárbara" fustigava a capital portuguesa, junto ao bar da Cinemateca Portuguesa, a realizadora Ana Rocha de Sousa confessava à TSF o que sentiu em Veneza ao ter o seu filme consagrado com seis prémios, entre os quais "O Leão de Futuro", de primeira obra e o prémio especial do júri da secção Horizontes: "É uma estreia que me faz ter muito orgulho, mas que me faz ter agora um olhar com muita calma, para não me perder no caminho". Não receia o brilho dos holofotes, quer é continuar a trabalhar. Mas não vai esquecer nunca aquela noite em que as emoções explodiram no importante festival de Veneza: "Foi uma noite muito intensa. Foi e será sempre verdadeiramente especial. Porque mesmo que, daqui para frente, a minha carreira se enchesse de prémios, aquele momento foi mesmo uma grande explosão, foi uma transformação e um culminar de emoções que não volta a acontecer".

A atriz Lúcia Moniz estava em Veneza quando o filme foi visto pela primeira vez: "Foi muito bonito. Estar em Veneza, particularmente este ano, para mim, significou bastante. Felizmente, tive a oportunidade - em poucas palavras, porque estava bastante nervosa - de o transmitir ao presidente do festival, foi um ato de coragem fazer o festival nesta fase que o mundo atravessa, de não desistir do cinema, de dar uma mensagem de que o cinema não pode parar". A atriz entusiasma-se novamente ao recordar a magia do momento e "a forma como foi: recebermos aplausos que pareciam não ter fim", admitindo que "só teve fim porque a Ana já pedia para pararem de aplaudir, muito emocionante. No meio dos aplausos eu vi sorrisos de caras desfeitas, vi agradecimento, foi tudo muitíssimo bonito. Chorei e descomprimi muito ali. Foi a melhor receção que poderíamos ter tido. Depois, os prémios, eu já vi cá de Lisboa, em direto, foi uma felicidade enorme, uma grande felicidade pela Ana, porque ela merece tanto este reconhecimento, depois de uma luta tão intensa que ela tem atravessado e ainda atravessa, pelo que é das coisas mais justas que vi nos últimos tempos".

Veja aqui o trailer de "LISTEN", o premiado filme de Ana Rocha Sousa:

Para a realizadora que fez curtas-metragens e televisão em séries como "Riscos" e "Morangos com Açúcar", a desconfiança do setor dá lugar a uma espécie de tapete vermelho estendido: "É uma honra imensa, mas nunca numa perspetiva de chapada de luva branca. Eu não me interesso por isso; a mim, interessa-me fazer o meu trabalho; interessa-me que os meus filmes sejam efetivamente de pessoas, sobre pessoas e para pessoas. E, quando digo isto, não é, sequer, numa perspetiva comercial, mas sim numa perspetiva emocional. É com o interesse de intervir, de alguma forma, na vida das pessoas". A realizadora quer ser uma "mensagem de trabalho; não é ter-se acordado um dia e ter tido sorte". Nisso, a realizadora é perentória: "isso não foi".

Produção luso-britânica, será um filme mais português ou mais britânico? "É um filme absolutamente português", apesar de rodado no Reino Unido, dispara a cineasta, enquanto destaca o papel crucial do produtor Rodrigo Areias, da Bando à Parte. "Sem o Rodrigo, este filme não existia."

Uma "Bela" nada adormecida

Veneza rendeu-se ao filme em que "Bela", portuguesa emigrada no Reino Unido a quem a segurança social tira os filhos, é a protagonista, num papel magistral de Lúcia Moniz. "Bela é mãe de três crianças, a mulher do Jota, membro de uma família muito unida, uma pessoa que representa uma força quase animal; impulsiva, não pensa muito antes de falar, age antes de pensar, neste filme representa uma força muito grande de uma luta em que jamais se dá por vencida", na opinião da atriz.

Um filme sobre uma dura realidade com que se confrontam muitas famílias, perante um sistema britânico cego, burocrático, tantas vezes injusto... apesar de tentar, em última instância, a proteção e bem-estar das crianças "Deparei-me com uma história real de uma mãe portuguesa a viver no Reino Unido, a quem retiram um bebé recém-nascido.". A realizadora, 41 anos, que entrou no cinema pela porta da representação, sobretudo em televisão, depois de ter estudado na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e emigrado precisamente para o Reino Unido, onde estudou cinema, passando para o outro lado da câmara, a realizar curtas-metragens antes desta longa já premiada, começou então "a pesquisar vários casos", tendo-se apercebido de todo "um mundo por detrás de tudo isto", ficando "muito sensibilizada e chocada".

No fundo, éum filme que aborda as dificuldades económicas de muitos milhares de famílias, lá como cá, os que para cá vêm e os que para lá vão (ou noutro país qualquer, além do Reino Unido e de Portugal), mas também da dificuldade que os cidadãos têm em lutar contra a burocracia prepotente. No filme, os sinais de negligência andam sempre ali a pairar, são as manchas nas costas da menina, é a mãe que os deixa num beco para ir ao supermercado meter no carrinho de compras algo para os filhos comerem. O pai está em casa, sem trabalho e com salários em atraso por receber, a tomar conta do filho mais novo e do mais velho, este doente na cama. A tensão intrafamiliar está sempre presente no ar, mas também o amor e o cuidado e nunca há violência consumada entre os membros da família.

A luta contra a prepotência do sistema

A lei britânica prevê, explica-nos Ana Rocha Sousa, "a retirada imediata de crianças no caso de risco futuro de danos físicos ou emocionais", se profissionais "como assistentes sociais possam assim entender ou compreender". As crianças são imediatamente retiradas da guarda da família e se, entretanto, entram num processo de adoção por parte de uma família adotiva, a decisão em relação aos pais biológicos é irreversível. Para a realizadora, "isso foi também um dos grandes motivos para fazer o filme: perceber que há pais que recebem cartas a dizer 'pedimos imensa desculpa pelo sucedido, houve um erro, mas o processo é irreversível'". Muitas vezes, têm de esperar que os filhos cheguem à vida adulta para que possam decidir se voltam aos pais biológicos. Os pais são assim forçados "a perder a infância e o crescimento dos seus filhos, e esperar pelos dezoito anos para ver se o filho quer ou não continuar a ligação com os pais biológicos".

Para Lúcia Moniz, "é inconcebível, em qualquer circunstância, uma mãe pensar que alguma vez as crianças lhe podem ser retiradas. Mesmo quando são negligentes, julgo eu que é uma coisa que não tem cabimento. Neste caso específico, não há razão para isso. É uma mãe que ama os seus filhos, que os trata bem, e, por uma série de equívocos e mal-entendidos, as coisas acontecem dessa forma. Mas é impensável e inaceitável". Do elenco fazem também parte Ruben Garcia, excelente no papel de "Jota" e Sophia Myles.

"Listen": a partir desta quinta-feira em mais de meia centena de salas de cinema portuguesas, depois dos seis prémios que a primeira longa-metragem de Ana Rocha Sousa conquistou em Veneza. Atualmente, a realizadora prepara uma nova longa-metragem.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de