Capicua
igualdade de género

"Não é só o hip hop que é um meio misógino e machista, é a nossa cultura"

Ana sabe que nem todas as ideias, palavras - como Ana - ou conceitos podem ler-se da mesma forma de trás para a frente, de frente para trás. A ideia que inicia Capicua terá semente na herança da liberdade, quando Ana Matos Fernandes ouvia Abril, pelas vozes de José Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho. No princípio, era, por isso, o ativismo antirracista, feminista e pela igualdade, anterior ao rap e à formação em Sociologia. Capicua fala à TSF de uma construção que não tinha meios de precipitar-se em sentido inverso: tudo no seu caminho teve razão de ser.

Nos anos 1990, Ana Matos Fernandes foi membro da SOS Racismo e militante do PSR, um dos partidos que desembocaram no Bloco de Esquerda. Foi uma fase "de participação política ativa durante a adolescência", espoletada "pelo interesse pelas questões de género, antirracistas e de ecologia", ângulos então por explorar no espetro alargado do discurso político.

"Subiu a construção como se fosse sólida" e "tropeçou no céu como se ouvisse música". Em 2004, as "experiências de confronto com o mundo" e a consciência acerca dos papéis "que estão preestabelecidos" foram transportados para o universo do hip hop, conta a artista do Porto, no programa Botequim, da TSF. "No rap encontrei uma forma de expressar as minhas causas e as minhas preocupações. Era óbvio que, desde a minha adolescência, essas questões ligadas ao género e ao feminismo eram muito centrais na minha forma de pensar a realidade e a minha própria experiência."

Não tardou a vingar "enquanto membro da cultura hip hop, que é um meio muito masculino". O aviso estava feito: "Eu mando como Chimamanda, no comando como Che/ Sambo como Jojô samba, se caio, caio de pé/ Imortal como Chavela, sensual como Sade/ Vertical como Mandela, Nobel como Malala." Ou, como explica à TSF: "Desde pequena sempre fui uma maria rapaz, uma maria capaz."

Fez-se "luminosa" quando ainda a pensavam "invisível", não numa forma de "encaixar", mas de subverter, ou, pelo menos, "cutucar as consciências e as mentalidades". O primeiro contacto com a cultura hip hop tinha sido uma mensagem feminista, e o rap, uma extensão da sociedade "machista", foi também veículo para aspirar ao Olimpo da mudança. "Acabei por encontrar no rap uma forma de veicular esse pensamento e de espalhar a mensagem, debater vários temas que tinha experienciado dentro da comunidade hip hop. O rap é um megafone para as minhas causas e é uma ferramenta para a mudança do mundo e para inspirar, por contágio."

Os primeiros raps de Capicua tocavam temas como a "violência contra as mulheres e o facto de haver uma certa desconfiança contra as mulheres dentro da comunidade hip hop". Não estava suficientemente sozinha para não tentar, garante. Beatriz Gosta é hoje mais conhecida pelo seu trabalho na comédia, mas deu os primeiros passos juntamente com Capicua. Recuando a 2004, os primórdios da sua carreira, lembra como, "no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o rap feito por mulheres era um bocadinho descredibilizado, visto como uma coisa menor e com menos qualidade". Foram homens - faz questão de dizer - como Mundo, dos Dealema, o seu produtor, e uma "crew de rapazes" do graffiti que lhe almofadaram o caminho. A "resistência" foi "combustível para a batalha" e Capicua tornou-se logo "manda-chuva" no pódio do rap.

"Manda-chuva quem te manda"

Com os primeiros álbuns, Capicua ganhou visibilidade mesmo fora da tribo. "Senti um interesse redobrado por parte dos media porque eu era mulher, e isso deu-me alguma vantagem competitiva, mas, se eu não tivesse mérito, esses cinco minutos de atenção iam esvair-se e não resultavam em nada", sublinha.

Mas, num meio marcadamente masculino, Capicua teve de mostrar quem a comandava. "Nunca pedi licença a ninguém e fui impondo a minha presença. Tínhamos de entrar em palco já com uma atitude muito aguerrida, com o nosso tema mais hardcore, para calar a boca dos que estavam na primeira fila de braços cruzados a achar que estávamos ali só para mostrar o decote, para perceberem logo que estávamos a levar aquilo a sério e que queríamos ser respeitadas."

"E por cantar o sonho e a sua quimera/ Era para as almas como um cúmplice/ Forte como um coice, como uma foice." Com uma tradição de fazer a reportagem do que se passa no quotidiano e a denúncia do que acontece nos bairros mais periféricos, o rap renovava-se na voz de Capicua, que começava a transmitir através da música "uma noção de potência feminina, de liberdade, de espontaneidade, de potencial, de autoestima, que é a base para fazermos tudo na vida".

"Mesmo que não falasse disso diretamente, o próprio facto de ser uma mulher em cima de um palco, sem fazer questão de ser decorativa e sem pedir licença a ninguém, e fazer um estilo de música que tem tendência para ser um boys' club e que é associado a uma certa misoginia, acaba por ser já em si um statement", reforça a artista.

"Uma liga à parte para as mulheres"

Para Capicua, diz muito sobre um país o facto de ser uma mulher branca a conquistar este espaço no estilo prolificamente produzido pelas comunidades afrodescendentes nos Estados Unidos. "Comecei a ouvir rap, a conhecer o meio e a frequentar festas de hip hop no Porto, em que a comunidade negra não tinha muita presença. O facto de eu ter conseguido mostrar que é possível, mesmo que na minha condição de privilégio obviamente - e acho que diz muito do nosso país não ter sido uma mulher negra a conseguir fazer isso, porque as primeiras mulheres a conseguir fazer rap em Portugal eram negras -, pode ajudar a trazer a representatividade que faltava e inspirar outras mulheres a tentar", assinala, frisando essa ligação identitária.

As reflexões em forma de "discursos políticos e sociais", de poesia e contributo para a igualdade, tomam de assalto o megafone e o palco. "Essa ligação entre palavra e discurso político sempre foi muito clara. Sempre senti que a palavra, além de ser um objeto estético e lúdico, porque permite brincar, construir rimas e figuras de estilo sofisticadas, também permite ser a mensagem e ser subversiva."

Por isso, escolhe as palavras para dizer: "A cultura hip hop, e o rap em particular, é um boys' club. É quase como se houvesse uma quota de uma mulher no rap, que pode estar lá, e quando aparece uma nova é sempre para substituir a anterior. Isso notou-se muito com a ascensão da Cardi B, nos Estados Unidos, que tinha de depor a Nicki Minaj."

Capicua lamenta que uma competição entre mulheres seja sempre muito acicatada, e constata que "as estruturas do poder vão acabar por subalternizar sempre os mesmos grupos sociais", no rap, na literatura, na engenharia, na arquitetura e em muitas outras áreas. "Em Portugal também há essa tendência, quase como se houvesse uma liga à parte para as mulheres, mas com lugar para uma mulher. Não é só o hip hop que é um meio misógino e machista, é a nossa cultura. Olharmos para tudo com o filtro do patriarcado faz com que o nosso mundo seja construído na desigualdade."

O universo do hip hop tem sido duro para as mulheres, reconhece a rapper, que considera por isso que "uma mulher a conseguir fazer uma carreira longa no hip hop nacional, com várias edições, e a consolidar esse percurso", pode ser um portal para novas possibilidades. "Ciclicamente vão aparecendo mulheres que acabam por não continuar. Nota-se que é muito duro fazer essa corrida de fundo. Depois as pessoas têm filhos e para as mulheres é muito mais pesado."

A internet veio derrubar barreiras antes indisponíveis. Hoje qualquer "puto" compra uma placa de som, cria a sua música e disponibiliza-a para todo o mundo. As redes sociais são o amplificador dessa criação. "As mulheres também têm mais oportunidades, no sentido em que não precisam de passar pelos gatekeepers e pelo boys' club, podem fazer um percurso completamente alheio a essas panelinhas", admite.

"A liberdade de ir e vir sem ter medo é uma coisa exclusiva dos homens"

A desigualdade de género, impressa em [quase] todas as molduras sociais, continuará a fazer parte da manifestação artística, política e social de Capicua. E há muito na sociedade para debater, desde "a liberdade de ir e vir sem ter medo, que é uma coisa exclusiva dos homens", ao "facto de, quando viaja ou quando anda sozinha à noite, a mulher ter de ter o triplo das cautelas" e até de a mulher "ouvir, desde os 12, 13 ou 14 anos, coisas escabrosas ou ter homens a mostrar os genitais na rua".

"Podemos ser importunadas a qualquer momento por qualquer estranho que nos aborde na rua com frases de cariz sexual. Não há nenhuma de nós, da nossa geração, que não tenha vivido isso. Todas nós temos essas histórias, desde muito miúdas."

Ao "louco" que as "persiga" e lhes "chame nomes na rua" visam as palavras sobre uma moldura social que permite ao homem dominar o espaço público desde o ponto de vista da representação e do simbolismo até ao aspeto mais territorial, que desencadeia na mulher "uma sensação de permanente insegurança".

Para contrariar a mão pesada da sociedade, Capicua imprime luz e otimismo nas suas músicas. É uma forma de as mulheres se sentirem "mais fortes, mais empoderadas, mais livres, mais capazes de serem o gatilho para as mudanças", explica. "Já fizemos muita coisa desde o 25 de Abril, ainda há muito para fazer e a parte mais difícil ainda está por fazer, no sentido em que na lei somos cada vez mais iguais mas a parte cultural ainda pesa muito. São lutas pelos direitos humanos. Às vezes as pessoas tentam resumir isto a um Benfica x Sporting. Não são dois lados da barricada um contra o outro, não tem nada a ver com isso."

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