"Notre-Dame é uma bonita estrela e o fogo um fantástico vilão"

Entrevista com o realizador Jean-Jacques Annaud.

Costuma dizer que o único segredo para o sucesso de um filme é ser um bom filme. Notre-Dame Brulê é um bom filme?

Bom, não me cabe a mim dizê-lo, mas na verdade estou lisonjeado com a reacção fantástica que tenho tido em todo o lado. O que sei é que o público vê o filme e sai do cinema com um brilho nos olhos, e isso é muito agradável.

Podemos concluir que este filme é a sua reconciliação com o público francês?

Não, nunca estive desligado do público francês, nunca, sempre foram maravilhosos. Costumo filmar quase sempre em inglês, e até em chinês recentemente, e o público francês sempre foi leal e muito simpático.

Mas afirmou, recentemente, que em França olham para si como se fosse um realizador estrangeiro...

Não é tanto o público francês, nem sequer os jornalistas, que sempre me trataram bem. O que existe é uma franja de críticos da Nouvelle Vague que pensam que o cinema deve ser algo mais misterioso, mais aborrecido.
Eles olham para o meu estilo como algo mais intenso, mais espectacular e por isso não são meus seguidores, mas isso não muda a minha vida.

E o que aprendeu com realizadores como Vincente Minnelli e Alfred Hitchcock é que o cinema não pode ser aborrecido. É proibido.

Não acredito que o público vá ao cinema para se aborrecer. Neste caso garanto que o filme mexe emocionalmente com o espectador, é muito intenso.

Ficamos sem fôlego?

Sim, eu não gosto de falar bem do meu trabalho, mas a verdade é que até agora as reacções são unânimes e é a primeira vez que tal acontece, a este nível. Estou muito contente, claro que sim. O que eu quis foi filmar uma história verdadeira, mas também muito espectacular porque o fogo é espectacular Notre-Dame é uma bonita estrela, e o fogo é um fantástico vilão, por isso temos uma estrutura dramática, com as características de um "thriller", e o que eu sei dizer é que as pessoas ficam entusiasmadas quando vêem o filme. É perfeito, e encaixa no que eu penso que é o cinema, se fosse aborrecido, seria um desastre, mas aqui reúno todos os elementos do cinema que aprecio.

E sentiu-se mais realizador ou mais jornalista, tendo em conta que seguiu as pistas dadas pela investigação e tentou ouvir todos os protagonistas? Na estreia em Paris sugeriu ter trabalhado como se fosse um repórter.

Talvez parte do meu trabalho tenha sido igual ao de um jornalista tentando descobrir a verdade, o que realmente aconteceu e devo dizer que foi um trabalho fascinante. De certa forma tornei-me uma espécie de estudante do vosso ofício e ao mesmo tempo especialista, durante o tempo das filmagens. É verdade que conheci e falei com muitos dos protagonistas que viveram a história deste drama, mas fui sempre um realizador de cinema.

Uma história baseada em factos reais, é como devemos anunciar este filme?

Muitas vezes vemos escrito uma história real e sim, é uma história real, mas é também um filme real.



Para o qual foi determinante o testemunho dos bombeiros que combateram o fogo na catedral.

Sim, quando eu filmei o "Nome da Rosa", tive a assistência dos monges e dos clérigos. Quando filmei "A Guerra do Fogo", ainda há mais anos, não podia ouvir os homens primitivos, mas tive a ajuda de arqueólogos. Em tudo o que faço preciso de me rodear de pessoas competentes, e neste caso seria tonto não usar os conhecimentos e a competência dos bombeiros que combateram as chamas naquele dia. Claro que uso actores e isso faz toda a diferença, o filme constrói-se como todas as ficções, mas conta uma história verdadeira.

Chegou a alguma conclusão sobre as causas do incêndio, depois de tudo o que ouviu e de tudo o que leu?

Não, esse não é o meu trabalho. Eu quis contar o que foi feito e como foi possível salvar a catedral do colapso, e não as causas que levaram ao incêndio. Devo dizer no entanto, que deixo pistas sobre todas as possibilidades, o filme aponta várias causas prováveis, e (depois da estreia) recebi muitas cartas de pessoas envolvidas na investigação que me garantem que todas as pistas mostradas no filme foram seguidas e exploradas. Ao que parece, estão agora mais perto de identificar a causa provável, que aponta ou para um sobreaquecimento ou para um cigarro mal apagado, mas enfim, investigar não é a minha tarefa....

No filme, nós vemos essas imagens denunciando cada uma das pistas, como a do cigarro que acaba de referir, bem como o letreiro que indicava a proibição de fumar no estaleiro das obras.

Tudo isso foi investigado e a hipótese de curto circuito também foi uma das primeiras a ser estudada, mas as pistas
mais recentes são as que lhe acabo de dizer. As pessoas não acreditam que um cigarro mal apagado possa provocar um incêndio daquelas dimensões, mas tudo depende do local onde cai a ponta do cigarro, se for no chão, na pedra não acontece nada, mas se cai numa zona de madeira velha , cheia de pó e de outros lixos, pode demorar um dia, ou até dois até que ganha proporções gigantes.

É um fogo silencioso?

Sim... é isso mesmo.

Ficou surpreendido com tudo o que aconteceu ao longo da primeira hora, após o alarme disparar na central de Notre-Dame? Os erros cometidos ainda na catedral, os obstáculos com que os bombeiros se depararam para chegarem ao local? Vendo o filme, parece impossível.

Sabia, como a maioria das pessoas, quase nada sobre o que realmente aconteceu. Tive de ler e descobri coisas tão bizarras, que pensei.... isto é impossível, mas depois confirmei e conheci as pessoas ,e o que me disseram ainda foi pior, ainda mais incrível. Fui confrontado com esta coisa maravilhosa: afinal a realidade é muitas vezes mais excitante do que a ficção, e este é um filme baseado na realidade.

Quando é que decidiu que ia fazer este filme, que tinha de o fazer?

Assim que li toda a documentação possível.

O incêndio aconteceu há 3 anos (15 de Abril de 2019). Onde é que estava nesse dia, lembra-se?

Estava numa casa, sem televisão, acompanhei tudo pela rádio. Mas eu conheço bem a catedral, desde pequeno, cresci lá perto, conheço o sítio como a palma da minha mão, e não precisei de ver as imagens para perceber que era grave. Confesso, no entanto, que subestimei o poder do fumo e o tamanho das chamas, que só descobri depois, enfim pensei que já sabia tudo, como a maioria das pessoas. Quando comecei a ler mais é que dei por mim a pensar: isto é obra de um talentoso jornalista, isto não pode ser verdade. E foi então que comecei a investigar e fui mais fundo e mais fundo,percebendo que aquilo que era relatado na imprensa era só o que estava à superfície. Continuei a escavar informação e descobri uma sequência de acontecimentos incríveis que fizeram explodir a minha cabeça. Aí sim, entusiasmei-me e pensei : tenho de contar isto, tenho de o fazer. Há muito suspense nesta história, apesar de conhecermos o final o suspense mantém-se ao ponto de não sabermos se todas as pessoas sobrevivem. E nós, o público, fazemos parte da história, dos acontecimentos, do perigo, da emoção, e por isso digo que foi para mim muito agradável fazer este filme

Agradável?

Sim, muito agradável, porque quando estou no set a filmar eu percebo logo se há qualidade visual e se há emoção. É muito simples, estou atento à equipa e se eles estão entusiasmados, eu pressinto que não vão ser os ́únicos, e sei logo ali que quando o filme ficar pronto, o público vai reagir da mesma forma em qualquer parte do mundo.E na verdade, a equipa esteve sempre muito entusiasmada

Espreita pelo canto do olho a reacção da sua equipa, enquanto filma?

Sem dúvida, porque eu tenho de levar a equipa comigo e eles levam-me a mim, comunicamos dessa forma, numa corrente. Quando sinto entusiasmo e paixão, e percebo que aquele momento que estamos a viver é excepcional , sei que estou no bom caminho.

Jean-Jacques Annaud, quantas vezes já viu o filme?

Três centenas de vezes, se calhar quatro .Chega a um ponto em que conheço a intimidade de cada imagem, de cada frame, não só a acção principal, conheço tudo o que acontece à volta, das chamas aos efeitos especiais. Felizmente tenho boa memória visual, e sei onde cortar, onde colar, que música quero, que instrumento puxa a emoção em cada momento. A banda sonora é muito importante, e acompanhei todas as gravações realizadas em Abbey Road.

A banda sonora é da autoria do compositor e produtor Simon Franglen. Entretanto os trabalhos de reconstrução atrasaram por causa da pandemia. Já sabe o que vai fazer quando a Catedral reabrir?

Não faço ideia, não sei quando vai reabrir. Visitei a catedral muitas vezes depois do incêndio, nem sei dizer se ponderam fazer alguma cerimónia nessa data. O meu trabalho está concluído.

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