"O Acontecimento": um filme premiado, o aborto, a raiva e o desejo

O "Acontecimento" fez jus ao nome para a realizadora Audrey Diwan. O filme recebeu o Leão de Ouro em Veneza. Vai ao festival de Sundance. Está nas salas portuguesas. Fala do aborto como nunca outro filme.

"Foi algo enorme", começa por dizer à TSF, a realizadora franco-libanesa, em entrevista à distância. "Quando ganhei o Leão de Ouro, pensei em muitas coisas ao mesmo tempo. Claro que pensei no meu filme e no que ele mudaria para mim. Mas também pensei na Anna Maria Bartholomee, a minha atriz. Tive a sorte de encontrar a pessoa certa, porque o filme e a atriz são uma só coisa, quer dizer, o filme é a atriz, a atriz é o filme. Ela é realmente brilhante e eu aproveitei cada minuto de nossa parceria".

Audrey Diwan pensou na atriz mas sendo um filme sobre a vida de uma mulher que sentiu a necessidade de abortar, em França, anos nos sessenta do século passado e o que isso significava para uma mulher, pensou nas mulheres. Assume que foi um filme feito com raiva: "Raiva e desejo. E ambos são muito importantes. Fiquei com raiva ao ler o livro porque li o livro depois de eu própria fazer um aborto. Mas eu queria ler sobre isso. E descobri a enorme diferença entre o que eu passei e o que uma mulher teve que passar nos anos 60 em França".

A realizadora assume que o livro no qual se baseou para fazer o filme, "é também uma viagem para a liberdade. E fala muito sobre liberdade sexual, prazer feminino, vontade de estudar, de ter uma trajetória intelectual. E eu tinha desejo por esse tipo de personagem em geral. Eu quero explorar o que é ser uma mulher na nossa sociedade. E uso a minha experiência muito íntima para escrever" e fazer cinema.

Mudou muito a realidade nos últimos 50 anos quanto ao direito ao aborto? Audrey responde dizendo que "sim em França e Portugal e noutros sítios", mas há tanta geografia difícil para milhões de mulheres: "a realidade para muitas jovens e mulheres naquela época não é diferente do que se passa ainda hoje em muitos lugares do mundo. Eu fui ensinada a pensar não apenas no meu país, mas talvez um pouco mais no mundo em geral. E sabia que é triste a realidade das mulheres na América do Sul, em muitos países da África, na Ásia. E então, enquanto eu estava a escrever, houve também problemas aqui na Europa, na Polónia, e depois houve o caso do Texas. Então, infelizmente, é sempre um assunto atual e um tópico real".

O Acontecimento é exibido no festival de Sundance, fundado por Robert Redford, no Utah, nos EUA, com a presença da realizadora. Em Portugal, pode ainda ser visto no cinema Ideal, em Lisboa

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de