"O Casarão" abandonado que iluminou uma geração numa aldeia

Com antestreia esta quarta-feira, no festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, "O Casarão" conta a história de um antigo seminário que, em tempos, foi a "luz" de uma aldeia no Interior. Chega aos cinemas a 18 de novembro.

Noutros tempos, foi o motor de uma aldeia no meio do nada. Hoje, é um casarão abandonado, perdido no tempo. Ali funcionava um seminário católico, que, em plena ditadura salazarista, era o único bilhete para um futuro, para muitos rapazes da zona rural.

Esse "casarão" vai ser agora protagonista de um filme, um documentário, realizado por Filipe Araújo, antigo jornalista, que decidiu tomar a curva do cinema e é agora um realizador multipremiado.

"A culpa de eu chegar a este casarão, no fundo, é do meu pai", confessa Filipe Araújo, em entrevista à TSF. "Ele faleceu em 2008 e eu andava a recolher a bibliografia dele quando fui parar ao blogue de ex-colegas, ex-seminaristas, que, quarenta e tal anos antes, haviam partilhado o espaço do seminário com o meu pai", conta.

Foi pelo pai que Filipe Araújo começou por ouvir as histórias do grande casarão da Aldeia Nova, em Ourém. O pai foi o único de cinco irmãos, de uma família de uma aldeia minhota, a perseguir os estudos. Tornou-se investigador científico. Uma coisa que não teria acontecido se não fosse o seminário, onde entrou com 10 anos.

O realizador sublinha o paradoxo de, durante a ditadura do Estado Novo, num lugar completamente isolado, surgir esta "luz", um caminho para o conhecimento. Uma oposição agravada se pensarmos que essa liberdade de olhar e pensar o mundo estava a ser vinculada pela Igreja, habitualmente uma "arma" do salazarismo para manter a população "às escuras".

"Aí está a improbabilidade desta história. Estes jovens, ali, conseguiram ter acesso a um mundo que, de outra forma, seria impossível. Estamos a falar de um Portugal em diminutivo, triste, com a carga da ditadura. De repente, dentro daqueles muros, cria-se um acesso a mundo que fora não existe", frisa. "Marca muito esta geração que passou por lá e que conseguiu assimilar o melhor de dois mundos."

A maior parte dos jovens que estudou no seminário não seguiu a vida religiosa. Ainda assim, não conseguem desligar-se do casarão do seminário dominicano -- ainda se reúnem todos os anos! --, que funcionou até pouco depois do 25 de Abril.

Desde então, o edifício foi vendido, chegou a ter outras funções, mas nunca voltou a ter a vida do antigamente. Com ele, foi-se a glória da Aldeia Nova.

"Estamos a falar de um local com cerca de 200 habitantes, metade são reformados. Tem 40 casas vazias, cerca de 30 famílias emigradas, o único café que existia foi fechado,... No fundo, é uma aldeia cortada ao meio por uma estrada em que os carros param muito pouco", descreve Filipe Araújo, acrescentando que, por isso mesmo, pensou que era importante contra a história daquele que foi "o seminário mais progressista do país durante a ditadura", mas "a partir de "um diálogo entre o presente e o passado".

Para tal, o realizador foi à procura das histórias antigas do seminário e dos muitos rapazes que o povoaram durante a ditadura e à descoberta daquilo que resta dele nos dias de hoje, com a ajuda preciosa do caseiro, "que ali nasceu, à sombra daquela estrutura".

Em todo este processo, garante Filipe Araújo, esteve sempre à procura da memória do pai. "Procurei o meu pai dentro do que havia naquela gente toda", confessa.

A antestreia de "O Casarão" acontece esta quarta-feira, em Coimbra, no festival Caminhos do Cinema Português. O filme tem estreia marcada nos cinemas para 18 de novembro.

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