"O cinema não é para pessoas muito sensíveis." João Mário Grilo sobre "a mágoa" de Dulce Maria Cardoso

Há pouco mais de uma semana nas salas de cinema "Campo de Sangue", adaptação do romance de estreia de Dulce Maria Cardoso, levou a escritora a dizer-se apanhada de surpresa e a manifestar-se "profundamente magoada" com as alterações introduzidas por João Mário Grilo ao argumento original de Luís Mário Lopes.

O cineasta lamenta que o desabafo tenha sido feito através das redes sociais, "que não frequenta", e considera que se "perdeu a possibilidade de uma discussão interessante sobre a adaptação de romances e a relação entre o cinema e a literatura", mas lembra: "Quem apresentou o filme ao ICA fui eu, João Mário Grilo, eu sou o autor." Quanto a Dulce Maria Cardoso, não poupa elogios: "É alguém que prezo muito, uma escritora de personagens como eu gosto."

A entrevista estava marcada desde a estreia de "Campo de Sangue", mas por uma e outra razão foi-se adiando, e surgiu entretanto a expressão do desagrado de Dulce Maria Cardoso. João Mário Grilo não se furtou à polémica, mesmo não sendo frequentador das redes sociais, e lamentando, também por isso, que a escritora não tenha trazido o debate para uma esfera pública ao alcance de todos: "Podíamos ter feito doutrina sobre a adaptação de romances ao cinema. Eu não adaptei uma escrita, adaptei uma leitura do romance."

O cineasta responde, ainda assim, à "profunda mágoa" da escritora que invoca surpresa, partilhada com o argumentista Luís Mário Lopes, perante alterações ao argumento original que não foram comunicadas e que a levam a afirmar "mesmo que o João Mário tenha feito uma obra-prima, no cinema e na vida, não vale tudo."

"Os filmes não devem matar os romances"

"É uma escritora que eu prezo imenso, sobre a qual já tenho dito muito, uma voz nova na literatura, uma escritora de personagens, que eu gosto de ler e tenho gostado de trabalhar sobre... para cinema", começa por afirmar o realizador, cuja procura em "Campo de Sangue" foi um "equivalente cinematográfico do romance", numa arte que é violenta, porque "o cinema não é para pessoas muito sensíveis."

Lembra João Mário Grilo que o argumento inicial (trabalhado com o Luís Mário Lopes) tinha 109 cenas e era incompatível com o orçamento e com o plano de trabalho: "Eu sabia que era preciso acomodar, e o realizador vai atrás do filme, atrás do movimento que o filme cria, executa o que o filme nos vai dizendo, porque o filme fala em nome do espectador." Sem rodeios, esclarece quem é quem: "O autor sou eu, fui eu que apresentei o filme ao ICA", e diz que "muitas vezes a melhor maneira de ser fiel a um romance é transferir a sua energia para a linguagem própria do cinema." Espera que ainda seja possível conversar com Dulce Maria Cardoso e que o filme leve espectadores à sala de cinema e traga novos leitores para o romance: "Espero que o espectador saia do filme com o tipo de emoção que o leitor pode ter ao sair do romance."

Sobre o filme fala também João Mário Grilo e ainda dos dois novos projetos - um documentário sobre a pintora Aurélia de Sousa e uma adaptação contemporânea de "Sinais de Fogo" de Jorge de Sena - que o remetem para o universo feminino e para a infância na Figueira da Foz. João Mário Grilo, um homem renascido, assim se afirma, depois de um AVC, no pico da pandemia, o ter atirado para "uma descida aos infernos."

O cinema será o seu limite e "não podemos deixar que o cinema acabe".

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