O escritor João Tordo
João Tordo

O escritor que esperou seis anos para explicar como escreve

O novo livro de João Tordo é um "Manual da sobrevivência de um escritor" (Companhia das Letras). Na manhã TSF, explicou também o subtítulo.

TSF - Queria pergunta-lhe se não pode ser este o caso de um ilusionista a explicar os próprios truques.

João Tordo - Não parece. Acho que um ilusionista nunca explica os seus truques, e o escritor pode tentar explicá-los, mas o facto é que não os sabe. O subtítulo do livro alude a isso: "Pouco que sei acerca do que faço". E sei pouco, mas o pouco que fui aprendendo ao longo dos anos com a experiência, apeteceu-me escrever acerca disso e partilhar num livro que, ao mesmo tempo, serve para escritores, mas também serve para os leitores, ou seja, para as pessoas que gostam de livros e gostam de literatura, porque nele eu falo muito dos livros que me marcaram, dos autores todos tão importantes que eu leio. Tem uma parte técnica, obviamente, mas também tem um lado muito íntimo. Falo de mim e da minha carreira como escritor. E de como este ofício é, ao mesmo tempo, difícil e enigmático, e misterioso. Daí a sua pergunta. Sim, sei que há truques. Eu vou tentar revelá-los, mas acho que, no fundo, fracasso. Mas faço o possível.

TSF - Há uma referência a algumas das obras que vários escritores criaram, como o João está agora a fazer. Uma das mais recentes é a de Mário de Carvalho. Parece um exercício de autoestima para explicar o que já foi feito ou trata-se de alavancar o que aí vem?

João Tordo - Acho que é uma espécie de balanço, ou seja, não serve nem para uma coisa nem para outra. São 16 ou 17 anos a publicar livros. Apeteceu-me fazer esta pausa e perceber "porque é que eu faço isto?". Fui escrevendo os ensaios ao longo dos últimos seis anos. Em relação ao Mário de Carvalho, por exemplo, o livro do Mário de Carvalho é ótimo, é um grande livro acerca deste ofício. O meu tem um pendor um bocadinho diferente, porque não fala apenas do ofício mas fala também da relação que eu tenho íntima com o ofício. Portanto, sobre a relação que um escritor no século XXI tem e tudo o que pode esperar, e do que pode não esperar.

Até porque há capítulos que são sobre coisas bastante íntimas, como a crítica, a edição, o fracasso, o sucesso, a inveja, essas coisas todas que fazem parte da vida. Qualquer pessoa que trabalhe neste ofício... Não serve para nada, serve apenas para fazer um ponto da situação. E como eu já dou aulas de escrita literária há muitos anos, fui acumulando alguma experiência com os meus alunos, e as interrogações deles, e as dúvidas deles e, portanto, isso também está no livro.

TSF - Ou seja, é um exercício que o escritor deve fazer em determinado momento?

João Tordo - Sim, acho que é importante em tudo o que sejam ofícios destes. Uma pessoa fazer um ponto da situação e perceber onde é que está. Eu não teria sido capaz de escrever este livro há seis ou sete anos porque ainda não tinha experiência para isso. Não tinha livros suficientes, nem tinha passado por uma série de situações e de experiências que depois me trouxeram a este ponto em que consigo fazer um balanço daquilo que é o meu ofício. E, por isso, o livro tem, ao mesmo tempo, um lado - não diria pedagógico porque essa palavra é muito forte -, mas tem um lado de tentar levar o putativo escritor por um caminho, mostrando o que é que se pode fazer quando estamos a dar os primeiros passos, etc... E também fala da escrita. Há um sentido simbólico e metafórico de uma frase de um livro de que eu gosto muito, da Joyce Carol Oates, que fala de uma doença para a qual o romance é a cura. Eu gosto muito dessa definição porque, de facto, quem escreve, e quem o faz repetidamente ao longo de décadas, sente mesmo essa aflição quando está a entrar no livro. E uma espécie de alívio da cura que vem depois. Fala-se desse aspeto, mas também se fala dos aspetos que são exteriores ao ofício. Ou seja, tudo o que rodeia esta profissão que são os satélites um bocado desgovernados da crítica, dos editores, dos agentes. Portanto, eu quis fazer uma espécie de compilação destes sistemas todos que, para mim, são importantes. E também podem ser importantes para os escritores em formação e para os leitores que, no fundo, têm curiosidade acerca disso. Porque há muitos leitores que a têm.

TSF - Mas não é, ao contrário da maioria dos livros publicados pelo João, uma viagem pela ficção. Desta vez, é algo muito real...

João Tordo - Sim. Quer dizer, tem um lado de ficção, no sentido em que o livro se presta, às vezes, a falar de algumas coisas que são estruturais sobre os fundamentos básicos da ficção. O próprio Aristóteles e todos os pensadores da narrativa estão, de certo modo, presentes. Mas eu não queria que o livro fosse apenas isso, porque para isso já há outros livros que, eventualmente, até são melhores. Este livro tem um lado íntimo que toca a minha relação com a própria escrita. De tal maneira que o primeiro capítulo chama-se "O que é um escritor" Nesse capítulo, falo da infância, da adolescência, e de como é que eu cheguei a isto. Porque é que eu acho que faço isto, porque é que aquilo faz sentido fazer, apesar de ser um ofício que tem todas as dificuldades. Não só financeiras mas, enfim... Grande parte dos escritores não ganha o suficiente para poder sustentar-se. Portanto, é um ofício que tem poucas recompensas no sentido material, mas que tem muitas recompensas no sentido mental, espiritual e psicológico e eu tento explicar porquê. Também é um bocadinho uma resposta às perguntas que as pessoas me foram fazendo ao longo destes anos, que são quase sempre as mesmas, mas que eu entendo: porque é que escreve; se é fácil viver da escrita, e etc... É a resposta a essas questões que eu não conseguia responder com cinco anos de profissão, nem com dez, nem com quinze, que tento dar neste livro.

TSF - Quanto tempo acha que será necessário para que surja um primeiro escritor a dizer que "foi no livro, no "Manual de sobrevivência de um escritor", de João Tordo, que eu fui buscar a inspiração para começar a escrever"?

João Tordo - Isso era bom, porque isso queria dizer que consegui passar alguma coisa que fosse útil. No fundo, o livro quer ser útil a jovens escritores, embora não seja um livro para jovens escritores. Também vai apelar-lhes à imaginação, e isso seria ótimo, que, dentro de uns anos, houvesse por aí quem tivesse lido este livro em adolescente e, dez anos depois, pensasse algumas das coisas que aparecem nele, porque é uma espécie de viagem também pelos meandros da literatura que eu gosto, e que gostei, e com a qual me formei. E essas histórias estão lá todas. Portanto, eu acho que qualquer pessoa se consegue identificar. Até qualquer pessoa que goste de ler este tipo de abordagem. No fundo, eu quis que fosse muito simples para o lado de quem lê, e um bocadinho provocador a para quem escreve.

TSF - E capaz de aumentar o gosto pela leitura, para aqueles que leem?

João Tordo - Eu espero que sim. Porque, no livro, fala-se de tudo. Fala-se dos clássicos russos até ao século XXI, em Portugal, passando por uma série de autores. São vastas dezenas que eu cito no livro. Acho que o livro também pode ser um puxão para as pessoas que não conhecem certas obras ou, se calhar, há certos clássicos que já não são tão lidos hoje em dia e que no livro eu refiro porque fazem parte da minha formação e portanto, sim: interessar as pessoas para os livros é sempre bom, porque a recompensa é grande. Quem lê, sabe a recompensa de ler. E se este livro ajudar, ótimo.

TSF - Eu não li o livro todo, ainda. E portanto, não sei se este truque está lá. Mas queria perguntar-lhe se um escritor pode ter várias histórias, vários livros, em marcha, ao mesmo tempo? E aqui, estou a pensar na ficção...

João Tordo - Eu sei que há escritores que o fazem. Eu não consigo. Costumo separar um bocadinho as águas e, para escrever um livro de não-ficção, como este, dedico toda a minha energia, pois sei que daqui a um mês ou dois posso entrar numa nova aventura. Eu não consigo compartimentalizar as coisas assim, até porque, normalmente, os livros de ficção são muito absorventes, psicologicamente e emocionalmente, e eu preciso estar muito entregue àquele personagem, àquele protagonista, para os conseguir escrever. Isso absorve-me completamente, porque também há a vida, as vicissitudes da vida quotidiana, que também tomam muito tempo. Portanto, eu não consigo fazer mais do que um ao mesmo tempo. Agora, há escritores que o fazem e que conseguem compartimentalizar as coisas. Eu não sou capaz, mas depende da cabeça de cada um.

TSF - E portanto, nesse foi assim. Ou seja, não havia nenhuma história em marcha enquanto não acabou o "Manual"?

João Tordo - Este foi um bocadinho diferente, no sentido em que eu escrevi as primeiras páginas em 2014. E depois, percebi que me faltava alguma coisa. Faltava-me experiência, faltava algum traquejo, e, portanto, parei de escrever e guardei o que tinha escrito. Depois, retomei-o em 2018. Voltei a retomá-lo em 2019. Fui escrevendo. O grosso do livro foi escrito o ano passado entre janeiro e abril. Mas já tinha as ideias mais ou menos pensadas e estruturadas. Já sabia, mais ou menos, aquilo que queria fazer. Mas demorou algum tempo.

TSF - E a seguir?

João Tordo - A seguir, vai haver um romance no final do ano. Não sei bem quando. Também depende como estiver o mercado. Com esta pandemia, os planos mudaram todos. Eu espero que os meus não mudem assim tanto e que, no final do ano, possa trazer um novo livro de ficção que já está pronto, mas falta uma reescrita. Enfim, falta essa parte toda que vem a seguir à escrita. Mas gostava muito que ele ainda saísse este ano.

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