"O José Mário interrompia o ensaio e contava-nos uma história"

Kátia Guerreiro recorda José Mário Branco, que produziu o último álbum da fadista "Sempre", e revela que os dois construíram uma relação muito próxima, quase de "pai e filha".

Os caminhos de Kátia Guerreiro e José Mário Branco cruzaram-se quando, em 2018, a fadista o convidou para produzir um álbum seu. Apesar das divergências ideológicas, o cantor de intervenção aceitou o convite e construiu com a fadista uma relação quase "de pai e filha". No dia da morte do artista, Kátia Guerreiro, conta à TSF como foi a experiência de trabalhar com este símbolo da liberdade.

"O José Mário tinha a capacidade de nos conduzir através da sensibilidade das mensagens que iríamos cantar ou contar. Tinha uma capacidade de nos fazer rir, no momento em que o sorriso também tinha de se sentir no canto, de nos puxar para a descomplicação para que tudo chegasse de uma forma muito transparente aos outros. Isto tudo através da partilha do seu conhecimento, contando-nos histórias. Nos momentos em que estávamos a ensaiar e estávamos a exagerar, o Zé Mário interrompia o ensaio e contava-nos uma história. E quando nós voltávamos a ensaiar outra vez tudo estava no ponto certo", revela.

Não é segredo que José Mário Branco tinha aversão ao fado, até uma amiga o levar a mergulhar num mundo que o apaixonou: "O José Mário procurava a essência do fado e repudiava totalmente os artifícios em torno do fado. O José Mário não gostava de fado. A Manuela de Freitas é que começou a levá-lo aos fados. O próprio Zé Mário é que me contou esta história. A verdade é que o Zé Mário apaixonou-se de tal forma, que mergulhou e conhecia tudo do fado: conhecia as histórias, os autores, os compositores, os letristas, os cantores todos, as cantadeiras", conta a fadista.

Kátia Guerreiro define José Mário Branco como um homem sempre disposto a ajudar e lamenta todos os projetos que tem em mãos que não vão poder, a partir de agora, contar com o apoio e os conselhos do cantor: "Tinha tantos projetos para fazer com ele ainda, tenho tantas coisas em mãos que eu não iria nunca fazer sem conversar com ele, sem lhe pedir opinião, sem lhe pedir ajuda. Ele partilhou tanto comigo que eu acho que tudo aquilo que ele me ensinou, tudo aquilo que ele me transmitiu, vai estar presente em tudo aquilo que eu faça."

A fadista lembra o último encontro com o cantor "há uns dias" e as longas horas de conversa que ficaram a conversar: "Liguei-lhe e disse que queria dar-lhe um beijo. Ele disse: 'Anda, menina, que eu estou à tua espera.' Eu fui ter com ele e passámos horas e horas a conversar imenso sobre muita coisa. Falámos dos meus filhos, falámos dos seus netos, falámos do que teríamos de fazer ainda juntos, e já não vamos fazer. Falou-me do teatro, partilhou histórias da sua vida."

"O José Mário é um sem fim de experiência, de cultura, de sabedoria, de inteligência que já é muito raro encontrar. É muito raro encontrar um homem tão completo e tão generoso a partilhar tudo o que sabia e tudo o que conhecia. Criámos uma relação muito bonita. Criámos uma relação muito familiar. Tornámo-nos quase um pai e uma filha", remata, emocionada.

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