"O meio do fado odiava a Amália"

Grande repórter da revista Visão, Miguel Carvalho acaba de publicar uma investigação jornalística que resultou no livro de mais de 600 páginas "Amália: Ditadura e Revolução". Foco: as ajudas da fadista ao PCP e aos presos políticos da ditadura salazarista.

O sétimo livro de Miguel Carvalho resulta de "um fascínio relativamente recente". Em casa da família paterna de militância comunista, não entravam discos de Amália Rodrigues, tida como cantadeira do salazarismo. Miguel Carvalho começou a ouvi-la através de Rão Kyao e do seu "Fado Bailado" (1983). Tinha treze anos e aí começou a comprar alguns discos do nome maior do fado em Portugal. Quando, dezasseis anos depois, Amália morre, José Saramago está em Paris a ser condecorado pelo estado francês depois de lhe ter sido atribuído o Nobel da Literatura. Quando questionado sobre Amália Rodrigues afirma que chamar-lhe cantora do antigo regime "tem muito que se lhe diga, ela fez contributos para o partido comunista". O jornalista admite que "essa parte era algo que eu não conhecia até Saramago levantar o véu". Algo que o PCP nunca assumira.

Para Miguel Carvalho, "ao mesmo tempo que era namorada e aproveitada pelo regime, Amália teve atos clandestinos de grande importância, de grande humanidade". É verdade que "foi usada e deixou-se usar, mas o que morou sempre ali foi um coração independente". E, como a rainha do fado, afirmou numa entrevista à Mulheres-Modas e Bordados, em 1976, que aguentou "sempre as consequências de ser livre". Não foram fáceis, para ela, os tempos revolucionários pós 25 de Abril de 1974. Acusavam-na de se ter vendido ao fascismo e de ter denunciado pessoas à PIDE.

Num trabalho que resulta, inicialmente, de uma bolsa para investigação jornalística da Fundação Calouste Gulbenkian, Miguel Carvalho percorre os tempos da ditadura desde a menina criada em contexto de muita pobreza e miséria em Alcântara até aos salões, palácios e palacetes do Estado Novo, com o antigo rei italiano Humberto II e o milionário Ricardo Espírito Santo na fila da frente dos que por ela nutriam paixões assolapadas, "Amália era maior que o regime", mas incide sobretudo no marco do tempo em que o país descobrira a liberdade. Para Amália foi "as portas que Abril fechou".

"Há gente que critica o facto de o PCP nesse período nunca a ter vindo defender", mas o que é certo é que os contributos que dava ao partido e aos presos políticos eram apenas conhecidos por "núcleos muito restritos". Até o jornalista ter feito esta investigação, muitos "diziam que não era possível".

O jornalista da Visão assume que nesta investigação aprendeu muito "sobre a dignidade humana", elogiando uma pessoa que aguentou tudo o que sobre ela disseram "sem vir a público dizer 'olhem lá o que eu fiz, eu contribuí, eu dei' para se defender". "Só merece a minha reverência." E conclui: "Neste processo também me caíram alguma figuras do pedestal, e a forma como algumas delas tinham estado supostamente próximas da revolução. E a Amália foi vítima de militância comunista, foi vítima de pessoas de outras organizações de esquerda e foi vítima de muitos intelectuais e, sobretudo, foi vítima de inveja, gente do meio: a Amália era odiada no meio do fado".

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