O primeiro Vilar de Mouros "a pensar na juventude" foi há 50 anos

À quinta foi de vez. Vilar de Mouros virou festival internacional, a pensar "na juventude". O vento de Woodstock ajudou a pop rock chegar ao Alto Minho. A PIDE ainda andou por lá em 1971. Foi há 50 anos.

Já tinha havido folclore em 1965, 1966 e 1967, Zeca, Adriano e Paredes em 1968, mas em 1971 Vilar de Mouros começou a tornar-se um caso sério.

Fernando Zamith é jornalista, professor universitário, profundo conhecedor da história do festival e autor do livro "Vilar de Mouros - 35 Anos de Festivais": "1971 foi um festival super especial em todos os aspetos, foi o primeiro grande evento realizado em Portugal tinha-se tentado fazer um do género, um ano antes, no Estoril. Teve características que, depois, fez com que viesse a ser classificado como o "Woodstock português". O investigador destaca que o evento no alto Minho português em 1971 teve muitas semelhanças com o evento realizado, dois anos antes, nos Estados Unidos.

O primeiro fim de semana (31 de julho e 1 de agosto) foi de música clássica, com duas obras encomendadas de propósito para o festival (o maestro António Vitorino D"Almeida dirigiu a Sinfonia Desconcertante ("uma obra muito considerada, junta a música clássica ao folclore. Termina com Zés Pereiras a irromperem pelo público, algo que ele repetiu depois em 1982, causando o mesmo grande impacto", explica Zamith), e o segundo voltado para uma juventude ávida de liberdade. Houve excessos que hoje seriam banais, a tal loucura controlada, apesar de o país ainda estar sob ditadura.

No entanto, já sopravam ventos de Woodstock bem acolhidos pelo organizador, o médico António Barge: "trouxe os principais nomes da música pop portuguesa, como o Quarteto 1111, Pop Five Music Incorporated, Chinchilas, Objetivo e com dois nomes de peso internacionais, Manfred Mann e Elton John, "música para a juventude", como Barge.

Junto às águas calmas do Coura, a freguesia caminhense de Vilar de Mouros, recebia assim, na sua quarta edição, 1971, nomes grandes do firmamento pop da época: Manfred Mann e Elton John. O sul-africano Manfred Mann (teclas), contava com Mike Hugg (bateria). Paul Jones (voz). Os outros membros foram Tom McGuinness (baixo) e Mike Vickers (saxofone e guitarra). Quando vêm a Vilar de Mouros já teriam novos membros, no caso, Chris Slade (bateria) e Colin Pattenden (baixo). Na noite de 7 de agosto, em Vilar de Mouros, tocaram os temas "Dealer", "Ashes To The Wind", "Happy Being Me", "Captain Bobby Stout" e "Mighty Quinn".

Elton John tinha 24 anos na altura. 1971 foi o ano em que lançou "Madman Across the Water", mas não foi ele um dos loucos que se banharam nas águas do Coura. Aliás, várias vezes ao longo dos anos, José Cid (que lá esteve com o Quarteto 111), fez questão de dizer que o britânico nascido Reginald Kenneth Dwight, foi o único a não ir à água. Zamith recorda que "há aliás, imagens de José Cid no rio, que é baixinho, bastante calmo junto ao local do festival, tentador, em pleno verão".

O festival, recorda o investigador e jornalista, "teve condições para acontecer, porque o organizador, médico radicado em Lisboa mas natural do concelho de Caminha, tinha um gosto grande por tudo o que fosse cultura, nomeadamente por música clássica, e tinha, como seria de esperar na época, um grupo grande e variado de conhecimentos em Lisboa. E, entre os amigos, tinha o comandante-geral da GNR", amizade já tinha permitido que, três anos antes, o médico tivesse levado a banda de música da Guarda Nacional Republicana a Vilar de Mouros. Essa relação com "alguém que dependia diretamente do regime, ajudou a contornar muitas burocracias e falta apoios, já que não teve patrocínios nem praticamente nada". No primeiro fim de semana, "ele gastou um dinheirão com a música clássica, centenas de contos na altura com as obras sinfónicas, e teve apenas 1500 pessoas no público. Foi um desastre completo. A família estava toda destroçada. No fim de semana seguinte, o da juventude, os bilhetes eram tão baratinhos que só deu para recuperar alguma coisa, mas não deu para compensar muito".

Ainda distante de uma indústria que, de incipiente se transformaria em lucrativa nas décadas de noventa e seguintes, com toda a profissionalização do setor, o festival de há cinquenta anos "foi um autêntico flop em termos financeiros, foi um prejuízo colossal que a família tece". Mas conseguiu realizar o evento.

A PIDE, polícia secreta da ditadura, "andou por lá, há relatórios da presença deles no recinto, quer em 1968, uns rapazinhos culturalmente muito mal informados, o Zeca tocou os Vampiros e tudo, quer em 1971. Mas nada de especialmente mau aconteceu, não houve nenhuma perseguição, nem impedimentos ou cancelamentos. Houve apenas uma ou outra detenção que depois se resolveu, foram libertados novamente. Respirou-se liberdade num tempo que ainda não era de liberdade. Ainda tivemos de esperar mais uns anos pelo 25 de abril".

O último fim de semana de 1971 teria em cartaz o Duo Ouro Negro e a diva Amália Rodrigues. Zamith insiste na importância das edições anteriores a 1971, para demonstrar que "não foi do nada ou do zero que nasceu um festival daquela envergadura. Até o povo de Vilar de Mouros já tinha sido conquistado, estava envolvido nos preparativos todos. Marceneiros, eletricistas, mesmo o trabalho de força braçal que teve de ser feito pela população".

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