O Ribatejo plantado no meio da Guerra Fria. Já estreou a primeira série portuguesa da Netflix

Estreia, esta sexta-feira, a primeira série portuguesa na plataforma de streaming Netflix. "Glória" é uma história de espionagem, em plena Guerra Fria, que se passa numa vila no Ribatejo.

Estamos em 1968. Portugal está sob a ditadura de Salazar, e também, secretamente, no meio do conflito entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Na vila de Glória do Ribatejo, fica a Raret (RAdio RETransmissão), os estúdios que transmitem a emissão da "Rádio Europa Livre", uma organização norte-americana que transmite propaganda anticomunista para o bloco de leste.

Este é o ponto de partida para "Glória", a primeira série portuguesa original da Netflix, que estreia esta sexta-feira.

"Eu cresci a ouvir histórias da rádio, parte da minha família trabalhava na emissora nacional, e aí falava-se na Raret e nas emissões da "Rádio de Moscovo" [a equivalente à "Rádio Europa Livre" no bloco soviético]", conta à TSF o autor da série, Pedro Lopes, diretor de conteúdos da produtora SP e criador de outras séries portuguesas de renome como "Conta-me Como Foi", "Cidade Despida" e "Liberdade 21".

"Curiosamente, ao longo destes anos, sempre que eu falava da Raret a alguém, o desconhecimento era total. O complexo da base das Lajes [nos Açores] toda a gente conhece, no entanto, o complexo da Raret, que ocupava uma herdade com 200 hectares e onde trabalhavam 500 funcionários é uma realidade praticamente desconhecida e fez também parte dessa estratégia dos Estados Unidos de emitir propaganda ocidental para o bloco leste com o objetivo de levar a uma revolução ou a uma transição de regime", explica.

Este desconhecimento do público em geral de que havia um elo precioso da Guerra Fria em pleno Ribatejo levou Pedro Lopes a perseguir a ideia de transformar a história numa série. A oportunidade perfeita surgiu há quatro anos, quando teve a possibilidade de apresentar a ideia à gigante do streaming Netflix, durante o Festival de Berlim. A "luz verde" chegou um ano mais tarde.

Bruxelas emitiu uma diretiva que determina que as plataformas como a Netflix, HBO, Disney Plus, ou Amazon Prime têm de investir em obras produzidas nos Estados-membros onde operam. A partir do próximo ano, estas empresas vão ter de contribuir para o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) e investir em produções de língua original portuguesa. Mas "Glória" é anterior a tudo isto. Consegui captar o olhar da gigante do streaming (presente em 190 países, com mais de 214 milhões de utilizadores registados) mesmo antes de qualquer diretiva europeia.

O segredo? Pedro Lopes revela que o intuito foi ter uma história "profundamente portuguesa", muito "bem contada", mas que, simultaneamente, é uma série de época e um thriller de espionagem e ação. "Acredito que pode interessar a toda a gente", reforça.

O personagem principal da história é João Vidal, um engenheiro da rádio que se torna agente da KGB. Em declarações à TSF, o ator que oi interpreta, Miguel Nunes, explica como se preparou para o papel.

"Fui perceber as vidas de algumas pessoas que tiveram um papel ativo, mais de uma forma clandestina, no combate ao Estado Novo, no combate ao fascismo, algumas delas ligadas ao Partido Comunista Português. Perceber essa importância vital de mudar a forma como se vivia na altura, em termos políticos", indica Miguel Nunes.

Mas como já sabemos que, além de uma série de época, estamos também perante um thriller de ação, não estranhamos que Miguel tenha também passado por um intenso treino físico.

"Tive a oportunidade de fazer um trabalho muito físico com o David Chan Cordeiro, que é duplo e treinador de lutas coreográficas, o que, para mim, foi muito importante", conta o ator.

Na realidade, quando se envolveu no projeto, Miguel Nunes não fazia ainda ideia que seria o protagonista de uma megaprodução para a Netflix. Não esconde o sentimento de responsabilidade, mas garante a confiança no trabalho realizado. Para o ator, este é um "momento feliz" para a cultura portuguesa.

Já o criador da série, Pedro Lopes, nota que a expectativa "é muito grande" e que é inevitável sentir que "Glória" vai ser "o cartão de visita da indústria audiovisual portuguesa para o mundo". "Acreditamos que, se esta série despertar o interesse do público nacional e internacional, poderá abrir caminho para que outras possam ser feitas", acrescenta.

A produção envolveu perto de 200 pessoas, um elenco internacional, e uma rodagem de mais de quatro meses, em tempo de pandemia. É realizada por Tiago Guedes (realizador de "A Herdade"), produzida pela SPi, e, além de Miguel Nunes, conta com nomes como Victoria Guerra, Afonso Pimentel, Adriano Luz e Sandra Faleiro no elenco.

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