O som das máscaras de Mapiko faz uma viagem entre o passado e o presente de Moçambique

The Sound of Masks, da realizadora Sara Gouveia, é um documentário que retrata a vida de um bailarino de dança Mapiko, que usa a dança e o corpo enquanto experiência da guerra e do colonialismo em Moçambique.

O bailarino moçambicano Atanásio Nyusi interpreta dança contemporânea mas também danças tradicionais. É o personagem principal do documentário The Sound of Masks. Nasceu no norte de Moçambique, perto da fronteira com a Tanzania, terra dos Makonde.

"Eles foram o último povo a ser colonizado e daí também a importância deles na transição e da luta pela independência conta os portugueses", explica Sara Gouveia.

A realizadora do documentário The Sound of Masks quis registar as singularidades do povo Makonde, ao som da dança de Mapiko, que está associada a ritos de iniciação, a mistérios e a personagens que ganham vida através de máscaras."Cada máscara tem um significado e o escultor não é necessariamente o dançarino. Cada pessoa pega no seu elemento e tem a sua forma de interpretar seja o que for", explica a realizadora.

É através da dança e de Atanásio Nyusi que o documentário olha para capítulos da historia moçambicana, como o colonialismo. "Acabamos por deixar esse tema no filme como um fantasma. Há momentos assim no filme, se calhar um pouco mais subtis, que acabam por ir sublinhando essa ideia do colonialismo e do que é que deixa para o futuro porque aquilo não acaba um dia e é como se nunca lá tivesse estado."

Sara Gouveia considera "houve muita coisa que foi transformada por causa da colonização" e acrescenta que muitos moçambicanos ainda estão a lidar com "um período que marcou muito".

A realizadora duvida do período de pós-colonização porque "as pessoas estão a tentar perceber quais são as suas identidades hoje e como é que se navegam esses espaços do passado e do presente".

A dança de Mapiko, que também funcionou como era uma ferramenta contra o colonialismo, acabou por perder força durante a guerra colonial. "As danças perderam alguma importância nessa altura. Os tambores fazem muito barulho. Se os tambores fossem demasiado altos, os portugueses sabem onde eles estão. Então há vários elementos que foram afetando a dança nessa altura."

A realizadora vive na África do Sul há cerca de uma década, está fora de Portugal desde os 18 anos e considera que essa bagagem foi essencial para poder rodar o documentário.

"Houve muitas ideias que já estavam mais claras na minha cabeça por estar a morar na África do Sul, onde estas conversas são bastante acesas. As pessoas falam abertamente. Aliás, as pessoas gritam. É impossível não se prestar atenção a estas conversas. Então, isso influenciou a minha forma de chegar lá e pensar este filme."

A realizadora sente que há muitas gerações em Portugal às voltas com o colonialismo, à procura de respostas e a sentir "que há ali um buraco".

O documentário esteve em exibição na 11ª edição do festival InShadow, que decorre em Lisboa até 18 de dezembro. Depois vai ser apresentado na Bienal da Máscara, que decorre em Bragança até 5 de dezembro.

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