O ator António Fonseca
Teatro

"Os Lusíadas como nunca os ouviu"

"Estou sozinho, mas estou sempre a falar com o público." António Fonseca dá umas dicas sobre o que o público pode esperar da maratona, no Teatro Nacional D. Maria II, que começa às 10h00 de sábado e só termina perto das 00h00 de domingo. "Mando bocas, lanço adivinhas e ovos Kinder para quem acertar". Nas pausas, e nos intervalos para almoço e jantar isola-se no camarim. E antes de subir ao palco esvazia a cabeça. Um grupo de cem pessoas acompanha o ator na leitura do Canto X. A Viagem vai recomeçar " e a questão da guerra é uma provocação grande e forte".

Há sete anos que não pegava na obra com este afinco: "no fundo é uma obsessão, um trabalho imenso", explica António Fonseca que agarrou Os Lusíadas em 2008, para uma leitura integral da obra de Luís Vaz de Camões, pela primeira vez em 2012, em Guimarães. Já depois gravou um audiolivro, aqui e ali foi subindo a palcos e às escolas que o desafiaram "há sete anos que não pegava nisto tudo", recorda o ator, que a 10 de junho do ano passado, no coração da pandemia, fez uma sessão por zoom, a convite do Teatro Nacional D. Maria II. Ali renasceu o projecto e a maratona deste dia".

Barritas energéticas, cardio e alongamentos. A receita para o corpo é esta " se o corpo não estiver oleado, a cabeça não funciona. Um ator é como um atleta, e foi uma médica especialista em desporto de alta competição que me deu este esquema", lembra António Fonseca, comprovando o benefício do exercício para o bom desempenho no palco " 10 horas a bombar e chego ao fim impecável. Cansado, mas pronto para outra. Fazia outro espetáculo seguido na hora". O calo afugenta o pânico da primeira vez "tinha medo de chegar a meio e ir-me abaixo. Hoje giro a energia doutra maneira". É como andar de bicicleta, pedalando uma obra universal, cuja leitura é diferente a cada dia, em cada atuação faz no dia em que o fizer. "Cada dia é diferente. As bocas que eu vou mandar e a leitura muda, e só me interessa situando-me no mundo e no dia em que estou. Interessa-me o aqui e agora. Está a falar comigo hoje, e se resistiu é porque continua a provocar questões e inquietações". A guerra também invade o palco "numa provocação, grande, forte e insistente".

Os ensaios começaram em dezembro, primeiro por zoom, e nas últimas semanas presencialmente. Cem pessoas, vários grupos , juntam-se ao ator para a leitura do Canto X: "O que é que quer dizer para ti? Para cada um. E agora diz com a tua alma. Está escrito, sabes gramática, entra na cabeça, vai-te para o coração e sai do do coração para a boca". Os Lusíadas de coração na boca, numa homenagem, é como o ator defende o trabalho e a leitura conjunta: "Os Lusíadas estão nos nossos cromossomas, é uma história de nós todos. Há qualquer coisa de universal, para além da universalidade da obra. Foram 160 ou 170 homens naquela viagem, e só voltaram 50 e poucos. Estas cem pessoas que sobem ao palco, é a minha homenagem a esses que morreram."

Paixão, trabalho e competência técnica, é o combustível para Viagem do ator. Como começa e como termina o dia de António Fonseca, no sábado?
"Nove horas de sono, meia hora de alongamentos, tomo um banho gelado e venho por aí abaixo. Chego ao teatro visto uma camisa, calças de ganga e ténis e tento esvaziar a cabeça. E depois um canto a seguir ao outro, com dez minutos de intervalo entre cada um, com interrupção para almoço e jantar, até ao Canto Décimo, hora a que se juntam todos em palco. Perto da meia-noite deve estar tudo terminado. Abraços no fim e vou dormir."

"Os Lusíadas como nunca os ouviu", este sábado no Teatro Nacional Dona Maria II, a partir das 10h da manhã. Os espetadores podem entrar e sair as vezes que quiserem. A entrada é livre, mediante a lotação disponível.

10 minutos de intervalo entre cada canto

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