"Pátria foi um fenómeno irrepetível, mas não creio que o novo romance seja inferior como obra literária"

Fernando Aramburu em entrevista à TSF, sobre "O Regresso dos Andorinhões".

Não escreve romances para semear ideologias ou uma qualquer moral da história: " interessam-me os comportamentos humanos, a partir dos quais se podem esboçar desenhos sociais. Não visto a pele de nenhum personagem." Em Lisboa, para apresentar o novo romance, Fernando Aramburu fala de Toni, o protagonista e narrador que decide suicidar-se um ano depois, das rotinas, sagradas para o ofício da escrita, e promete voltar à história da ETA num futuro livro "tenho a certeza, porque se trata de uma ferida aberta".

"Pátria", o romance que o catapultou para o mundo, e onde abordou as relações entre duas famílias marcadas pelo terrorismo "está definitivamente arrumado", ainda que o refira "como um fenómeno surpreendente que não se repetirá." Quer isto dizer que o escritor basco não se sente capaz de alcançar um novo êxito semelhante? Aramburu responde que "ainda não alcançou o máximo das suas capacidades literárias" , e está até seguro de que O Regresso dos Andorinhões " não é, como obra literária, inferior a Pátria".

Desta vez a história atravessa 800 páginas, passa-se em Madrid e o que predomina é "o ser humano normal, que se levanta, come, trabalha e regressa a casa. "

Toni tem 55 anos, é professor de Filosofia e toma a decisão de suicidar-se um ano depois. A partir de Agosto de 2018, Toni escreve num diário todas as noites o registo do mundo que o rodeia, deixando o leitor entrar nos seus pensamentos mais obscuros e nas memórias de toda a sua vida. Não é uma personagem simpática, mas o autor acautela a sua evolução, e serão os andorinhões, regressando a Madrid na Primavera seguinte, a chave para o protagonista decidir se a determinação do suicídio vai ou não por diante " os pássaros que inveja porque podem ir e voltar, não pousam no chão e não tocam em ninguém."

A guerra, o regresso do autoritarismo e as redes sociais

Escrito durante a pandemia, a nova obra não reflecte as imagens da guerra na Ucrânia, que o autor qualifica " como um dos acontecimentos mais lamentáveis, tristes e criminosos de que é testemunha desde que nasceu." A partir de Hannover, na Alemanha onde vive desde 1985, Aramburu segue o comportamento " titubeante" do novo chanceler Olaf Scholz que considera um homem "preparado, inteligente, muito prudente, talvez um pouco cobarde", perante o conflito actual, embora a ameaça da guerra nuclear " faça estremecer toda a Alemanha, ensombrada pelos fantasmas do passado e pela proximidade geográfica." Na entrevista à TSF, Fernando Aramburu alerta ainda para os perigos do extremismo que ensombra a democracia " com um regresso do autoritarismo , da vigilância moral, e das proibições provocadas também pelas redes sociais ", que abandonou por se sentir asfixiado.

Algumas destas reflexões abordou já na crónica semanal que escreve para o El País, todas as terças feiras, outras ocupam-lhe os pensamentos enquanto passeia com a cadela Luna. É ela que determina os seus movimentos e as suas paragens nas rotinas diárias, sem as quais não sobreviveria como escritor. Agora em Lisboa, falta-lhe a companhia de Luna para arrumar as ideias e os dias, ficando num hotel de Lisboa, onde Toni passou umas férias com Amália, sua ex-mulher, que marca encontro com os jornalistas. Porquê este hotel? " Nunca aqui tinha vindo, googlei e gostei", falando sobre o acaso da escolha que é citada no novo romance. Com um sorriso divertido, Fernando Aramburu manifesta-se grato à editora Dom Quixote, por lhe ter reservado a estadia no lugar onde o seu mais recente personagem " guarda a recordação mais erótica de toda a sua vida''.

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