Paula Rego em exposição no Tate em Londres. A qualidade "está a par dos grandes mestres"

Elena Crippa não teve uma tarefa fácil para reunir a maior e mais completa mostra de Paula Rego, em Inglaterra. A curadora do museu britânico Tate revelou à TSF o espanto e a dificuldade de colocar em exposição uma das maiores pintoras da modernidade.

"A arte pertence ao mundo. Vive dos encontros, das conversas e de observar as obras juntos. Fazê-lo em isolamento é muito estranho." Elena Crippa não teve uma tarefa fácil para reunir a maior e mais completa mostra de Paula Rego, em Inglaterra. O certame foi inaugurado na quarta-feira, na Tate Britain, em Londres, após um parto difícil.

A retrospetiva começou a ser pensada há mais de dois anos e a pandemia obrigou mesmo a adiar a abertura por várias vezes. Agora a exposição vai permanecer aberta ao público até finais de outubro.

Algumas das obras são mostradas ao público pela primeira vez. Foram feitas ao longo dos últimos 70 anos. A mais antiga foi pintada quando Paula Rego tinha 15 anos. Além de pinturas, há também colagens, esculturas, desenhos, gravuras e pastéis de grande dimensão. No total são 120 os trabalhos que contam a vida da pintora.

Elena Crippa, curadora do Tate, em Londres, garante, em entrevista à TSF, que a obra de Paula Rego não fica a dever nada aos grandes mestres da pintura, desafiando sem cessar quem a observa. "Para mim era importante fazer uma exposição que cobrisse todos os períodos, que mostrasse os diversos capítulos no conjunto da obra, mas que também deixasse clara a continuidade das técnicas e da reinvenção da obra", começa por dizer a curadora.

"A coisa mais importante desta retrospetiva é transitarmos continuamente de momento em momento, todos de uma criatividade extraordinária, sem nunca haver um intervalo, sem nunca haver uma nota baixa." Elena Crippa teve de escolher 120 obras, e dificilmente saberia optar por apenas uma. "Vou arriscar e digo 'Possession', que é um político de sete quadros. Quando o encontrei foi uma surpresa muito grande, por isso a minha resposta é 'Possession', mas são sete..."

"A qualidade da obra, do trabalho, é altíssima, está a par dos grandes mestres. Sobre isto não tenho dúvidas. É impossível ver as obras e não as reconhecer", expõe.

Paula Rego, na perspetiva da especialista em arte, é alguém que rompeu com os padrões da História da Arte na era moderna e pós-moderna. "A Paula tem uma capacidade extraordinária de desvio de todos os lados da cultura: de Tintoretto, Velázquez, Goya, até à banda desenhada... No pós-Segunda Guerra, muitos temas e emoções desapareceram da História da Arte, mas a Paula aborda tudo isto de um modo direto, sem medo. Ela oferece um espaço a nível cultural que poucos ou talvez mesmo nenhum ofereceu."

Com a obra de Paula Rego espalhada pelo mundo, Elena Crippa viu-se obrigada a várias viagens e foi por pouco que conseguiu ver tudo. Ainda assim organizar a exposição durante a pandemia foi uma aventura, como reconhece, nesta entrevista à TSF. "Houve altos e baixos. Aquilo em que tive mais sorte é que, entre o verão de 2019 e março de 2020, consegui viajar muito. Estive em Portugal no início de março, pouco antes de tudo fechar. Essa foi uma viagem muito importante porque consegui discutir a obra de outro ponto de vista."

A especialista em arte evoca o espírito universal e conciliador de culturas presente no acervo. "A Paula é tanto britânica como portuguesa; é como todos nós que emigramos, não somos nem uma coisa nem a outra, mas estamos a meio caminho das coisas", sustenta.

Neste processo de escolha, mais solitário do que o que gostaria e intencionava, Elena Crippa conversou com escritores, curadores e intelectuais portugueses que repararam em coisas novas, em aspetos da obra que antes lhe eram omissos.

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