Exposição reúne obra do primeiro pintor português de que há registo

A obra, pintada em cores iridescentes e com uma profusão de ouro trabalhado, apresenta, no primeiro plano, em letras capitais, a inscrição em português "Álvaro Pirez D´Évora Pintou", provando a sua autoria.

A primeira pintura assinada pelo artista quinhentista Álvaro Pires de Évora, que o revelou aos historiadores de arte, estará a partir de quinta-feira exposta pela primeira vez em Portugal, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

A grande tábua de altar proveniente da igreja de Santa Croce, em Fossabanda, Pisa, Itália, é uma das estrelas da "maior e mais completa" exposição de sempre dedicada ao pintor português do século XV, intitulada "Alvaro Pirez d'Évora. Um Pintor Português em Itália nas Vésperas do Renascimento".

O diretor do MNAA, Joaquim Caetano, e um dos curadores da mostra, sublinhou na quarta-feira, durante uma visita guiada para jornalistas, o caráter "extraordinário" desta peça, entre as dezenas de pinturas em madeira executadas há 600 anos.

A obra, pintada em cores iridescentes e com uma profusão de ouro trabalhado, apresenta, no primeiro plano, em letras capitais, a inscrição em português "Álvaro Pirez D´Évora Pintou", provando a sua autoria.

Na totalidade, a exposição apresenta 26 painéis de Álvaro Pires de Évora, e 58 obras cedidas por 40 museus europeus e coleções privadas de oito países.

O diretor do museu sublinhou que esta mostra do pintor quinhentista e de artistas seus contemporâneos, que se influenciaram mutuamente, "é uma oportunidade única, que não voltará a acontecer tão cedo".

"Foi um trabalho hercúleo reunir todas estas obras, num esforço da equipa do museu, e da Direção-Geral do Património de manter o projeto", que recebeu um apoio de 240 mil euros do BPI e da Fundação La Caixa, sobretudo para o transporte e segurança das peças, disseram à Lusa fontes responsáveis pela comunicação das duas entidades mecenas.

Para a cultura portuguesa, Álvaro Pires "é particularmente importante", segundo Joaquim Caetano, porque é o primeiro pintor documentado nascido em Portugal, e de quem se conhecem obras seguramente identificadas, ainda que toda a sua atividade tenha decorrido em Itália e, sobretudo, na Toscana.

O diretor do MNAA recordou que foi em 1921 que o professor Reynaldo dos Santos descobriu a tela assinada por Álvaro Pires, e sobre ele haveria de escrever um livro. Da mesma forma, a emoção suscitada por essa peça levou Vergílio Correia a escrever também um livro sobre o pintor.

Joaquim Caetano contextualizou o período em que viveu o pintor, numa altura em que D.João I deu importância às artes, sendo que ele próprio foi o primeiro rei português a ter três pintores ao seu serviço, dois deles italianos.

A abrir a exposição está a "Anunciação", que pertenceu ao chanceler alemão Konrad Adenauer, e foi integrada na coleção do MNAA, depois de ter sido adquirida em leilão, no ano passado. Noutra sala, dedicada ao Mediterrâneo, são expostas obras de pintores da época, e sublinhadas as estreitas relações que existiam há 600 anos entre a Península Ibérica e Itália.

Adiante, noutras salas, são apresentadas outras pinturas da época, nomeadamente um retrato do rei João I, que, mandou construir o Mosteiro da Batalha, e de onde são provenientes várias esculturas desta exposição.

Fora do percurso expositivo, do lado oposto, também é exibida a tábua da "Virgem com o Menino e Santos", do Museu de Évora, uma das mais antigas obras conhecidas de Pires de Évora, que os especialistas consideram talvez ser alguns anos anterior ao ciclo de frescos do palácio Datini.

Aqui, os visitantes também poderão ver a descrição de um mural que foi pintado por Álvaro Pires, entre outros artistas, neste palácio, residência de Francesco di Marco Datini, um dos mais importantes e ricos mercadores italianos do seu tempo, com entrepostos comerciais espalhados por todo o Mediterrâneo, como Pisa, Génova, Avinhão, Barcelona, Maiorca, e Valência.

Joaquim Caetano sublinhou que este mercador teve tal importância na época, que no seu arquivo foram descobertas mais de 150 mil cartas, uma dimensão considerada extraordinária pelos especialistas.

Alguns fragmentos desta decoração do palácio que ainda hoje se conservam estão expostos cenograficamente sobre este empreendimento decorativo, acompanhados por um conjunto de documentos, entre eles o registo manuscrito que pela primeira vez refere o pintor português.

A exposição - que ficará patente até 15 de março de 2020 - conta com empréstimos de grandes museus europeus, entre os quais se destacam a Gemaldegalerie (Berlim), o Musée du Petit Palais (Avignon), o Museo Nazionale di San Matteo (Pisa), a Pinacoteca Nazionale di Siena, a Galleria d'Arte Moderna (Milão), as Gallerie degli Uffizi (Florença) e ainda outras instituições museológicas e coleções privadas de referência, de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia.

Guido di Pietro (Fra Giovanni da Fiesole), dito Fra Angelico, Gentile di Niccoló di Giovanni di Massio, dito Gentile da Fabriano, e Niccoló di Pietro Gerini são alguns dos pintores da época aqui representados.

Resultado de um projeto comum concebido pelo Museu Nacional de Arte Antiga e o Polo Museale della Toscana, a mostra tem comissariado de Lorenzo Sbaraglio, do Polo Museale della Toscana, e de Joaquim Oliveira Caetano.

A exposição "Álvaro Pires de Évora: um pintor português na Itália do Quattrocento", realizada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em 1994, pela antiga Comissão Nacional para os Descobrimentos Portugueses, foi a maior mostra até agora dedicada ao pintor.

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