Sardoal volta a apagar as luzes e acende a Procissão dos Fogaréus

Depois de dois anos de pausa, devido à pandemia, a Procissão dos Fogaréus voltou às ruas do Sardoal. A vila, no distrito de Santarém, acolheu, na noite desta quinta-feira, largas centenas de pessoas, em mais uma celebração da Semana Santa.

Saem os primeiros toques de caixa e ensaiam-se os primeiros sopros nos trompetes e saxofones. Os 35 músicos, que compõem a Filarmónica União Sardoalense, passam a pente fino a máquina que, dentro de momentos, em conjunto, vai "empurrar" milhares de pessoas na Procissão dos Fogaréus. É importante que nada falhe nesta celebração noturna, que esteve confinada durante os dois anos de pandemia. Sardoal, no norte do distrito de Santarém, é a vila que acolhe todo o certame.

À medida que o tempo se aproxima da hora marcada, Américo Lobato vai "arregimentando as tropas" e dando dicas aos músicos. O maestro está na filarmónica desde os 11 anos, mas só assumiu esta pasta há uma década. Tempo suficiente para já ter vivenciado por diversas vezes esta procissão que, confessa, é diferente das outras celebrações. "É um sentimento especialíssimo. Acabei de o dizer agora antes de sairmos da sala de ensaio: que enquanto músico será o momento mais intenso que se vive possivelmente durante o ano", afirma.

Junto à Igreja da Misericórdia, de onde daqui a pouco vai sair o cortejo, o maestro revela à TSF que, após dois anos de pandemia, havia o desejo de participar nesta procissão. Américo Lobato diz que é o "retomar", acrescentando que "não poderia ser com menos intensidade do que vai ser", numa promessa para os momentos que se seguem. O músico lamenta que a vila tenha "perdido tanto visitante", recordando os tempos de pandemia, mas diz que "felizmente está a retomar" e até já sente "uma nova energia" no Sardoal.

Entre os 35 músicos, todos de farda azul, que aguardam pelo início das celebrações, está Martinho Nunes. Sem nunca largar o trombone, o músico aponta para a placa que faz paredes meias com a igreja. Lê-se "Rua da Amargura". Mas longe está o sentimento a que a palavra evoca. "Tenho quase 46 anos e desde que sou gente que assisto a isto. Vivi aqui nesta rua quase 40 anos", atira. Questionado sobre os sentimentos que lhe passam ao estar em mais uma celebração, são menos as palavras, vão desde "místico" a "intimista".

As idades de quem faz parte da filarmónica vão desde os 14 aos 70 anos. Para os mais novos, Martinho Nunes diz que "pode haver algum nervosismo", mas é mais na perspetiva de "sentirem mais isto, como o silêncio". Quanto a conselhos: "tenham força, coragem". "É preciso serem filarmónicos e gostarem de música", acrescenta.

São 9:30 da noite em ponto. A ritmo lento o cortejo vai-se compondo para iniciarem o percurso. Da Igreja da Misericórdia e, depois, da Igreja Matriz, o monumento religioso que se destaca na paisagem da vila, vão saindo elementos da procissão que seguram painéis com imagens que representam cenas da Paixão de Cristo e envergam grandes archotes, no caso, fogaréus.

Estão a iniciar um caminho de ida e volta, de cerca de um quilómetro, até à Igreja do convento de Santa Maria da Caridade, um dos pontos mais altos da vila. O percurso está mergulhado numa escuridão, já que a iluminação pública é desligada para dar lugar a pequenos focos de luz. São as velas, archotes e candeias, que se observam nas mãos dos milhares de pessoas, fiéis ou apenas interessados na celebração, que seguem o som da filarmónica. Os parapeitos das janelas também dizem presentes, com pequenos candeeiros ou velas, dando um ambiente característico.

O ritmo é solene, ao som das quatro marchas fúnebres entoadas pela filarmónica. De vez em quando há uma desaceleração e o passo é mais vagaroso. O momento é repetido sempre que se passa junto a cada capela que fica junto ao percurso, sendo que há seis em toda a vila. Lá dentro, no altar de cada uma, são os tapetes de flores que saltam à vista.

Tons de amarelo, branco, verde realçam o cenário, são formados pelas pétalas das flores. Juntas criam desenhos religiosos. Numa das capelas está Rosa Agudo. A sardoalense de 66 anos já desde pequena que ajuda na construção dos tapetes e, de ano para ano, salienta a capacidade de inovar a tradição. "Já há vários adereços que se põem que antigamente não se usava. A carrasca, há quem ponha uns cachos de uvas, a simbolizar o sangue. Já se fez com a Nossa Senhora. Já há uma inovação com panos".

Cabe à comunidade da vila todo o processo de colher as flores, que acontece na "quarta-feira santa", tirar as pétalas, criar os desenhos e preencher com as várias cores. As capelas abrem depois na quinta-feira.

A tradição perde-se no tempo, não se sabendo ao certo quando começou a fazer-se os tapetes, mas há uma teoria. "Dizem que aquando da visita da Rainha Santa Isabel, em 1303, ao Sardoal, era uma população pobre e não tinha tapetes persas para a receber. Fizeram os desenhos em flores no chão e terão nascido aí os tapetes", afirma.

Certo mesmo é o envolvimento da comunidade na tradição, algo que não é indiferente aos olhos do Presidente da Câmara Municipal do Sardoal. Miguel Borges destaca o investimento que a população faz do "tempo" e do conhecimento que transmitem ao contribuírem para esta tradição.

Passado o tempo mais crítico da pandemia, que afastou visitantes da vila, o autarca nota "um grande movimento já desde a manhã, de pessoas para ver os tapetes de flores e para apreciar toda esta envolvência".

Miguel Borges assegura que são milhares os que visitam o Sardoal até domingo, acrescentando que a economia local, com destaque para os hotéis e restaurantes, acaba por beneficiar com essa vinda e que são espaços que têm estado "bastante" preenchidos.

Até domingo, a vila do Sardoal vai continuar a ter as capelas e igrejas abertas, procissões e ainda um teatro na rua, a recriar as cenas mais marcantes da vida de Cristo. A programação completa pode ser consultada no site do município: http://www.cm-sardoal.pt/

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